terça-feira, maio 11, 2010

(...)As minhas interrogações são como pregos, cada vez que paro para pensar é uma encavadela, parece que levei com uma tábua na cabeça.
- Ó vizinho... Ó vizinho!
Quem é que está aqui agora, que foi, que fiz eu, que se passará, a quem devo eu alguma coisa, que será, que se passa?
- Ó vizinho... Ó vizinho!
Esta voz estridente parece-me a da dona Anunciação...
- Diga minha senhora!
O diálogo promete… ai promete, promete… Ela está com uma cara que até assusta, eu diria mais, está com uma cara que até assusta o medo, meio agoniada, mas não vou desarmar. Este cheiro… sempre que cheiro a noite, pois a noite, cheiro e cheira, arrasta-se comigo e entranha-se… cheira a copos, a ressaca, é enorme o cheiro claro. E ela… mas também caguei, faço o meu papel de “bêbado”, é mesmo esse papel - ainda estou completamente, absolutamente, etilicamente bem-disposto.
- Então diga lá.
- Ó vizinho ouviu o estrondo ontem a noite?
- Qual estrondo?
- Ai que horror, apanhei um susto que pensei logo o pior!
- Dona Anunciação… e era o quê?
- Ai não sabe vizinho, parecia mesmo que o prédio ia cair.
- Ai, sim!?
- Sim!
- E como é isso?
- Eu só me lembro de ouvir um estrondo… E pior, deslocava-se pelas escadas!
Fiquei intrigado, apesar de fingir que… pois… mas não me lembrava de grande coisa!
- Ó vizinho…?
- Sim?
- Olhe que parecia que entrou em sua casa?!
- Acha? Mas o quê?!
- Claro que acho, só não sei como não deu por nada!
- Eu? Não dei por nada!!...
- Olhe que… pelo barulho parecia mesmo o vizinho… a camisa e tudo!!
- Conseguiu conhecer-me pela camisa… só ouvindo?! Desculpe vizinha?!
- Bom, sabe, vizinho, ali a senhora Albana... blá blá blá blá…
Bom dia e um queijo… mas tenho de… até logo minha rica e querida senhora. As coisas que eu tenho de aturar ou as coisas que me aturam! Ainda por cima, não quero… nem quero pensar mais neste assunto. Mas a vida é isto, o que mais poderia acontecer a um miúdo mimado, abandonado à nascença? A minha dose de mimos é fabulosa… Ah! fui mimado sim, pela minha mãe e pelo meu pai, fui abandonado, mas foi pela parteira - caguei-lhe logo em cima.
Sim, sou mimado, faço beicinho, faço biquinho, ah ah ah e faço outras coisas que nem sequer digo, pois publicidade enganosa a esta hora não! Bom, falava de mimos, adoro mimos, adoro ser mimado, adoro adorar…
Mas há ainda no meu meio neurónio muitas incertezas, muitas perguntas e poucas respostas, mas que procuro eu?
Nada de especial, procurava-me, procuro o porquê de apanhar todas as noites uma carraspana como se o álcool fosse acabar, como se fosse a minha última noite. A beber desta maneira pode mesmo ser que consiga acabar com o álcool todo, com shots de tequilla, muito whisky, muita vontade de...
Às vezes até me falta o raciocínio para conseguir exprimir o que vai aqui dentro desta alma, que por certo estará dentro de uma redoma de… humm humm… deixa-me cá ver, formol? Nããã… creolina? Nããã… à pois, devia ter adivinhado, a minha Alma está dentro de uma redoma com muito Jack Daniels e nublada.
Ai… quer ver? Então? O que tem o meu bafo!? Hum!… Quem sabe… claro quem sabe se não é de uma ervita que chegou ontem da sanzala? (Deve ter sido de algum ex-combatente daqueles que têm um grande subsídio por causa dos traumas de guerra, não é que alguma vez tenham visto onde fica a guerra ou pegado numa arma).
Falava de alma, ou estava a falar de Alma, e por alma de quem? Ah… da minha que está em vinha d’ alhos! O que irá dentro… mesmo lá no fundo, da minha Alma? Um Titanic de horrores…
A minha infância terá sido normal? Talvez não, mas essa fica para outro capítulo, o meu problema será amoroso? Será disciplinar? De Édipo… complexo de Édipo - complexo de Édipo quando se sonha que a mãe é a Cláudia Shiffer? Terei sido abandonado em pequenino?
Nããã… acho mesmo que bati com a cabeça no penico, e pior, a minha “namorada” soube disso, uns anos mais tarde, e catrapus… deu-me com ele nos cornos, pois com o penico, raios que o partam ou a partam?!
Cornos?!! Cá está, descobri… Eureka… - quem foi o desgraçado que levou com a maçã na tola?
Ora cornos…, cornos… toiro…, toiro… toirada…, toirada… cavaleiros…, cavaleiros… forcados…, forcados… flores…, flores… casamento!
Casamento. Casamento! Casamento?!
Ai meu Deus! Ai meu Deus, que dia é hoje!?
Eu já vi este número num filme, o número da ressaca, do casamento, da despedida de solteiro… Eu já vi este número, juro que já. Ai a minha cabeça que está prestes a rebentar!
Será que… casamento?
Espera aí?! Serei eu padrinho de casamento?
Será que o Pilitas se vai casar?
Mas não me lembro de nenhuma namorada que ele possa ter, muito menos noiva - a Susana é namorada? …
Ora aqui está um problema que a ressaca arranjou, a ressaca? A bebedeira diria antes, não me lembro de nada e ainda estou ressacado ou será ressecado?
Por mais voltas que dê, não me ocorre nada, se for padrinho por certo terei aqui um par de alianças, hummm… que bonito, um par de alianças!
Alianças?
Ora, deixa cá ver aliança… O que será que diz o dicionário? Hummm, deixa cá procurar, isto está difícil, a cabeça continua a sua aventura explosiva parece mesmo que vai estoirar. Às vezes, mais valia, tipo quando se arranca um dente, dói… dói, mas depois, quando descola da carne, passa com uma velocidade, é um alívio magnífico, mas porque me havia de lembrar agora de dentes, daqui a pouco está a doer e depois são dois problemas. Deixa-me cá pensar e procurar a palavra… que isto está aqui uma baralhação nesta cabecita… Hummm… laralilala, ora aqui está:
- “Aliança: acto ou efeito de aliar; coligação entre estados, entidades ou indivíduos para a obtenção de certos fins; anel de casamento; arco da –; arco-íris.”
Aí está o que é arco-íris, magnífico!
Perguntam-te:
- Então? Tens uma aliança no dedo?
E tu respondes:
- Ó parvo! Não vês que é o arco-íris!!
Ou então…
- Olha lá “meu”, que linda coligação entre estados, entidades ou indivíduos para a obtenção de certos fins que tens no dedo!!
Pior seria…
- Olha lá “Manuel”, mete depressa o acto ou efeito de aliar no dedo que vem aí a tua mulher.
Isto tem muita graça, só não percebo porque não encontro as ditas cujas, será que estão no quarto? Vamos lá procurar, vamos?
(Continua)



Apeteceu-me

"Não tenho certezas, apenas o desejo de as procurar" Charles de la Folie

quarta-feira, maio 05, 2010

Vidas (Em)cruzadas) - Ressacas III

(...)Tive de a agarrar… agarrado e de que maneira, vou chamar-lhe a bebedeira carraça, mas tive de a agarrar em algum lugar, deve ter tido algum objectivo. Afinal, e ao que parece, segundo se diz e se sabe, eu ainda sou dos poucos que pensam que para beber tem de haver duas razões. A primeira e a segunda, sendo que a primeira é por tudo e a segunda por nada, quer dizer se eu fosse de pensar até que arranjava pelo menos mais umas quantas, tipo mais uma. Se o Tico e o Teco estivessem com a sua veia inspirada, diria que para uma boa bebedeira basta uma “boa”, pois uma “boa”, ou muito “boa” razão, ou por uma “boa” causa, ou por uma “boa” zanga, ou uma “boa” discussão, nunca por uma “boa” queca. Aqui passa-se da conta, ai, ai, até me custa a dizer, este dizer é mesmo a admitir, adormece-se e faz-se uma figura medonha… mas muito pior, mas muito pior que a figura que se faz… ai podem crer que é o reencontro… quando se chega ao local habitual e se tem aquela conversa:
- Então?
- Então, como vai isso?
- Então!?
- Então, tudo bem?
- Sim, só os sapatos um bocado apertados?
- E a tua avó ainda é motard?
- Sim. E o teu avô, sempre bateu o «recorde» de comer pastéis de Tentúgal?
- Pois!?
- Sim?!
- Então…
- Então…
- Ok… chau ai…
- Ok, chau… ai… foi muito mau?
- O quê?
- Sabes?!
- Sei o quê?
- Chauzão então…
- Pois correu mal, mas eu safei-me.
- Ahhh... imagina!
- Pois, imagina mas esquece.
- Chau! Ok!
- Chau... fica bem...
Pois e sabem o que é o pior dessa conversa? É que tu sabes que aquela foi a oportunidade perdida. Ela queria, tu querias e agora?
Bom a “estória” mantém-se, eu quero muito, só que ela já não quer nada.
Mais negas, mais desilusões, mais psiquiatras - quer dizer se forem do calibre da Dr.ª Mónica que venham, mas agora tenho de ir mais devagar - mais uma série de interrogações que só as mulheres sabem. Ora Porra!!!
Estava a pensar ligar-lhe, mas agora com este recalco dá-me algum receio. Dá-me?! Não me dá nada, fico com algum receio, ora agora, alguém dá alguma coisa a alguém? Claro, ela devia e deve estar furiosa, aquela noite, supondo, pois claro isto supondo que existiu, teria sido, ou foi mesmo uma noite tramada, levada da breca. Nem sequer quero pensar nela, noite lógico, a verdade é que todos os vestígios são comprometedores. Ai o álcool, mas como diz o Pilitas “mais vale um bêbado amigo que um alcoólico anónimo”, por isso, “toca p’ra diante que já se faz tarde”.
Mas lá está, não me sai da cabeça nem a Puta da dor, nem se terá sido uma noite catastrófica, terá? Terá? Nãããã… nem quero pensar nisso, não é bom pensar nisso, nem devo pensar nisso, mata-me pensar nisso…
Estranho… a porta da rua está aberta, é estranho, muito estranho, porque está a porta aberta? MISTÉRIO… alguém terá saído à pressa ou será que alguém entrou muito torto, muito mesmo? Torto entrei de certeza, essa não era uma dúvida por certo, mas estava com a esperança de que ela não tivesse estado ali comigo… provavelmente trouxe-me a casa, pois provavelmente…
Hummm… Essa é uma ideia fantástica, fabulosa mesmo, podia ter feito uma péssima figura, mas a minha virilidade estava lá presente. Boa… boa… o Tico e o Teco estão a fazer um bom trabalho de raciocínio, lá vem mais uma dúvida, odeio a palavra, mas estou a ser assolado por mais uma dúvida, ou seja: - quando ela me veio trazer a casa devo, claro que devo ter tentado que ela subisse, certo?! A não ser que estivesse ebriamente morto e sem vestígios de poder ressuscitar.
Hummm!!!! Deixa cá por a cachimónia a matutar…
Visto assim à distância, à distância de poucas horas, a coisa deve ter sido engraçada, muito engraçada mesmo. Esta dor de cabeça continua violentamente a aborrecer-me, mas… espero que ela dê uma desculpa… pois espero que ela me dê uma desculpa. Qual desculpa… um desconto, eu preciso é de um desconto, mas já pareço, sei lá quem a tentar adivinhar os meus passos, um verdadeiro puzzle… ai a desgraça, imagino o diálogo:
- Meu amorrrr sobe comigoooo…
- Não! Tenho de ir para casa.
- E, então, esta casa é tua.
- Minha?! Não brinques com coisas sérias.
- A minha coisa é seria demais… a minha coisa… claro o meu amor.
- Vá lá… sobe, estás uma desgraça.
- Qual desgraça?! Eu quero é a tua graça. Vá sobe, sobe, sobe que ficas calada… ou será cansada?
- Não, não tenho de ir, já é muito tarde.
- És o meu amor, minha flor!
- A tua flor vai para casa...
Tipo duas horas depois.
- Acorda e vê lá se não me vomitas o carro!!
- Ahh!… Humm!… Ah!… eu não estava a dormir estava a pensar em ti, pois… na tua graça.
- Desculpas, pira-te, até amanhã...
Bom este pensamento, não dá com nada, dei-lhe o flanco todo, agora ela tinha-me onde queria, bem amarrado aos... pois, talvez nada disso tivesse acontecido, se... pois se... estes ses, que grande porcaria se está a passar comigo, eu não era assim.
Mas esta dor de cabeça não me larga e pior, muito pior e no meio disto tudo o que é certo, o que é realmente certo, é que a porta está semi ou se-mi aberta… que se lixe… e o Cão Guru acaba de me mijar nos pés.
Há quem diga que quando um homem anda em maré de azar até os cães lhe mijam nos pés.
Ora Porra!... Que grande Porra!... Que raio de vida a minha, e ainda é um quarto para as nove, pensando melhor antes fosse um grande quarto para as nove, mas grande não era e as nove não cabiam mesmo no meu quarto, ai não cabiam não! Como diria a fadista, até que a garganta me doa, só que em versão sexo.
Um quarto para as nove… e só de pensar que tenho de ir trabalhar, esse é outro mistério… E… eu trabalho?
Talvez, quem sabe?! A cabeça é que não pára, não pára de pensar, não pára de doer, muito menos pára de andar à roda.
Até que enfim, consegui tirar o Cão Guru daqui da perna, agora o melhor é tentar tomar um banho retemperado… mas… bolas…
É mais difícil do que eu pensava, convinha primeiro limpar a casa, mas como???
(...) Continua
Apeteceu-me

"Perde-se a oportunidade mas ganha-se um principio" Charles de la Folie

terça-feira, abril 27, 2010

Vidas (Em)cruzadas) - Ressacas II


Aquele cheiro, cheiro não, mau cheiro, não me é estranho, seria… seria… ora que Porra, pois não seria… É mesmo cheiro a comida de cão comprada no X-super ou no Mini-super…

E que cheiro aquilo deita, bolas… afinal não é uma ela, muito menos, ok… ok… ok… admito, admito sim que pensei que tinha morrido e ido para um lugar qualquer… Céu não seria certamente e qualquer coisa não bate deste modo… ai bate, bate, tanto que bate que estou com uma ressaca filha da mãe…

Olha, afinal o cão em quem tropecei e que não me lembrava que estava ali, é o Cão Guru, o cão do meu amigo Pilitas! Um moço fabuloso que me acompanhou sempre nos maus momentos e nos maus momentos, pois…porque bons nunca tive, ter tive, mas não me lembro lá muito bem deles, mas também lembrar para quê?!

Lembro-me quando li a primeira Gina, lembro-me, como se fosse hoje, a primeira leitura da Playboy. Ahh! E mais importante que isso tudo, lembro-me como se fosse hoje, do meu primeiro beijo…claro na boca de alguém, alguém não, da minha prima Celeste. Foi lindo! Fui gozado por toda a gente, não é que aquela desgraçada meteu a língua dela na minha boca!? Fui logo, mas logo mesmo sem hesitar, e muito indignado, contar aos meus amigos, colegas e afins… e como devem calcular, fui o gozo de toda a gente na minha escola. Passaram-me a chamar o «Linguado», não é que fosse mau, quem não me conhecesse era enganado pela “alcunha”, porque eu dizia logo: sou o Rei do Linguado, o maior linguarudo da minha rua e transversais e mais uns apeadeiros que não vale a pena citar.

Bom, mas a questão aqui, agora, e no meio desta ressaca não é o Linguado ou mesmo a solha, o problema é o Cão Guru do amigo Pilitas. O que vou eu fazer com esta bestinha, um Grand’anoir, num T0?! Não é bem um T0, mas com ele aqui até que passa a ser um T1… e além do mais é meio complicado, para falar com franqueza, se é que eu tenho alguma - falo de franqueza - acho que comprei ontem 2 quilos da dita… Não me lembro a que propósito o Cão Guru veio parar a minha casa, é que eu e o Pilitas, de vez em quando, passam-nos coisinhas más pela cabeça. Quem sabe pode muito bem ter sido um jogo de lerpa, ou da lerda, ele perdeu e eu ganhei o cão… Pode ter sido uma troca, uma grade de minis ou mesmo um maço de cigarros, quem sabe? Mas quem quer saber? Além de mim!?

Pois, a mim dava-me muito jeito saber, dava-me imenso jeito descobrir. Acho que vou ter um ataque de… pânico.

- Pânico?

E isso é lá coisa que se tenha a uma hora destas? Pode ser, mas hoje não é dia disso, por isso, nicles batatóides, fica para outro dia.

A grande verdade que também me atormenta é que a minha cabeça continua a girar, parece que estou mareado, parece o carrossel da feira ali da aldeia do antipático do carteiro, parece que me enfiaram um capacete cheio de formigas e que me deram pauladas com um taco de basebol ou será de softbol?

Estas minhas dúvidas existenciais matam-me.

Que se dane, a minha cabeça está demasiado gasosa para pensar.

A minha busca pelo “guronsan” vai começar:

- 3, 2, 1… acção!

A cozinha está um nojo, nojenta mesmo…pizza com 3 semanas, ou mais, isto é ser bonzinho, dizia eu, pizza em cima da bancada…

- Olha o que eu descobri no meio do fiambre, a minha querida meia, a minha querida peúga, do meu único par e que já leva 15 dias de uso!

Mas dos «guronsan» nada e da minha cabeça tudo.

E o que faz isto aqui?! Não é que descobri um preservativo? Não me parece que tenha sido usado, mas está aberto, o que se terá passado?

Bom, o meu objectivo é outro. De descoberta em descoberta até à descoberta total, ou procura total, ou final. E ela, pois ela…a minha cabeça está uma confusão, está aquilo a que podemos apelidar de uma grande Merda… Merda?! Não propriamente, mas no estado em que se encontra assim entre o gasoso e o liquido, diria que lhe posso chamar mais de… diarreia… deixemos para lá estes pensamentos de Merda.

É isso… P… preservativo, descoberta, Eureka, Alberta...

Ai que horror, nããã… nem eu vou acreditar nesse número. Não é que seja uma má ideia, mas para o preservativo estar ali, sem ter sido utilizado, quer dizer que a Alberta saiu daqui com uma péssima impressão minha. Pois, ai “jasus”, estou a ficar com afrontamentos, a minha reputação está a ir pelos meus pensamentos abaixo, mas estes pensamentos podem estar, falhados… É isso mesmo, são os perdedores, mas não pode ser! Onde está a minha auto-estima, hum… onde anda a dita, e a impressão da outra!? Com o preservativo assim, acho que a impressão nem foi imprimida, mas sim deprimida, nem quero pensar neste cenário. Nem neste, nem em mais nenhum, não quero pensar, ponto final, mas acho que tenho de o fazer. Será?

Vamos lá continuar a busca… Hummmm… deixa-me pensar, lá tenho eu de pensar, no meio… pois nesse meio mesmo lá está o tubinho cinzento, com letras a branco, que dizem “guronsan”, mas no meio de quê? Agora, ai, ai… imaginem se estivesse vazio, imaginem, mas não imaginem muito, porque não está! Boa, viva, viva… agora meio copo de água, dois comprimidos efervescentes e zuca… para dentro da dita cuja…

- Que maravilha sentir aquelas bolinhas a bater-me na cara… como dizem os Xutos “amas a vida e eu amo-te a ti (guronsan)”.

Mesmo com aquelas bolhinhas milagrosas a entrarem diabolicamente por mim dentro, ou por dentro de mim a uma velocidade alucinante… - imagino-as como se fossem aquelas carripanas que andam no gelo, nuns túneis a velocidades alucinantes até pararem no estômago. Penso que se chamam tabogans, eu disse tabogans e não talibãs, não quero dúvidas sobre isso, não vá atirarem-me com alguma coisa à cabeça, ou talvez fosse melhor que o fizessem. Pois a minha cabeça não pára de rodar, mas mais uns segundos e esta injecção de cafeína que só o “guronsan” tem, torna-me num homem quase novo, quase... Pensando bem, é um alto flash, como diria uma amiga minha – “tu pensares pensas, mas não pensas grande coisa, já que o Tico e o Teco não são muito de se esforçarem”. Tico e Teco, os meus dois e únicos neurónios, segundo ela… pois e quem sou eu para a desmentir?! Digo eu aqui baixinho que ninguém me está a ouvir, quer dizer, digo eu em Grego.

Assim como quem não quer a coisa, o que eu gostava mesmo agora era de um cafezinho, aliás eu injectava-me com a seringa das farturas atulhada de café, mas….

Mas continuo intrigado… se estou com aquela ressaca medonha, se tinha estado ali alguém comigo e eu não tenho muitas bebidas em casa, onde fui eu agarrar esta tremenda bebedeira?

Apeteceu-me
"Nem sempre se acorda no fim de um sonho" Charles de la Folie

quarta-feira, abril 21, 2010

Vidas (Em)cruzadas) - Ressacas I

Está na hora de acordar, são 8 e 30 da matina, este despertador teima em ranger, tinir-me aos ouvidos, tolda-me a pouca sobriedade que ainda me resta, se é que há ainda alguma, mas, mesmo assim, consigo dirigir-me para a casa de banho, mesmo com os olhos semicerrados.
Há aqui qualquer coisa que não faz sentido. Olho-me ao espelho e continuo a dizer que há qualquer coisa que não faz sentido neste cenário meio dantesco, sim meio dantesco, meio qualquer coisa estupidamente terrível. A cabeça parece que vai estoirar, os olhos ardem-me, as pernas bamboleiam, o cheiro a “sarro” parece o fundo de uma vasilha de vinho. É imundo, um cheiro que não dá para acreditar, nem aguentar, eu não aguento, não consigo aguentar o meu próprio cheiro!
Mas a imagem do espelho continua esquisita, mesmo muito esquisita e deturpada, enviesada, está estrambótica ou estrambólica. O que está na boca parece… não parece, é mesmo, uma meia, a mais sublime e proeminente “peúga” do meu pé sagrado, oriunda de uma noite sabe-se lá como… de dentro do meu humilde e sinistro sapato.
Hummmmm!!... Estranho, muito estranho mesmo, uma peúga na boca!? E a outra?! Bom, a outra terei de a procurar se não quiser ir sem meias para o emprego. Emprego?! Será trabalho?!
O que quer que seja não estou na disposição de ir trabalhar neste sábado (mentiria se dissesse primaveril, com muito sol e os passarinhos a cantar), mas… sempre um mas… nestes dias de ressaca. Não sei se trabalho, se tenho um emprego e muito menos se o faço ao sábado, aliás nem sequer me lembrava ou lembro a quantas ando ou andava, a minha gramática não está a jogar na perfeição, tal foi a “tosga”... Nem as janelas abri, nem as persianas levantei, nem os olhos.
Aliás, nem sei se ainda estou a sonhar!
Apetecia-me urgentemente um café, mas antes terei de usar sabiamente, manipular… sei lá bem a definição para esse acto, de usar o bendito “guronsan”. Chamem-lhe o que quiserem, eu vou apelidá-lo de um acto divino capaz de me dar uma visão da realidade que por momentos me parece assustadora, por vários factores.
Primeiro, não encontro a cozinha, segundo, tenho de encontrar os ditos “guronsans”. Porra, o que é isto!? …
(Eis que tropeço no cão que nem sabia que tinha, bato com a cabeça na parede que não sabia que estava ali, e acordo dois dias depois no hospital.)
Era uma sala branca, meio esquisita. Naquele hospital sentia-me nauseado e estranho, aquela sala era demasiado esquisita mesmo para ser uma enfermaria, demasiado “familiar”.
Hmmmm!!… Realmente não me sai da cabeça que já tinham passado dois dias. Descerrei os olhos com uma dor de “cachimónia” infernal, estes olhões verdes, meios esbugalhados a olhar para mim, são uma imagem divina, será um anjo, uma fada, é assim, como se costuma dizer lá na minha terra, “dos Deuses”, mas ia-se fazendo luz, faz-se luz, talvez se faça alguma coisa, será mesmo!? Ao que me discorre destes neurónios tão maltratados, muito mesmo, não me lembro que anjos ou fadas tenham olhos verdes, lembro-me sim que os anjos não têm costas e que não se pode dizer qualquer coisa sobre as fadas, porque morrem, ou será bater palmas?! Devo andar a ver muitos filmes para adultos de meia tigela, pois, porque os adultos de tigela e meia são, pois são, não duvidem mas são, o quê… é que já não me lembro… talvez um dia o descubra.
Há aqui muita coisa estranha, uma delas é, como é que acordo dois dias depois… ainda por cima num hospital, e ainda estou de ressaca? Estranho não?! Até podia ter uma carrada de coisas meio partidas, ou partidas inteiras o que é difícil, mas eu sou o rei dos impossíveis, mas de ressaca ainda…eu apanho ressacas, algumas ainda em andamento, mas assim!?
E esta enfermaria, ou esta sala de operações tem algo de comum com a minha cozinha. Curioso… um bocado de casca de ovo colado no tecto, igualzinha à decoração lá de casa! Como costumo dizer, aqui só falta mesmo o Calimero.
Estou maldisposto, enjoado também, terá sido quiçá de alguma anestesia experimental, terei assinado algum documento que dissesse para fazerem experiências comigo?! Meu Deus, sou um zombie, ajudemmmmmmm-me… calma, calma… vou respirar fundo. Seja anjo ou lá o que lhe valha, a portadora, ou portador daqueles olhões verdes tem um mau hálito, de bradar aos céus, danado mesmo… como diz, alguém que… ok eu já me lembro!(...)

Apeteceu-me


"Os dias apenas passam por nós, não nos matam" Charles de la folie

sexta-feira, abril 09, 2010

"La vie em Rose" VII

(...)Faltava uma prova de fogo: entrar na casa de sempre agora desabitada dela. Pela primeira vez não estava na varanda à nossa espera. Pela primeira vez a sua silhueta – debruçada no ferro que dividia o vazio do ar com o betão do segundo andar – não estava lá. Pela primeira vez engolia em seco aquele desespero que é recordar que nunca mais a vemos. Pela primeira vez aqueles quarenta degraus me pareceram inultrapassáveis. Eram demasiados. O folgo descontrolava-se, o oxigénio parecia escassear naquela subida ao tecto do Mundo. Nunca me tinha apercebido como o mármore podia ser frio. O corpo emudecido e dormente pela gélida subida resgatava todos os detalhes que dela se podiam tirar. Os nomes cravados na parede apenas escondidos pela tinta branca já envelhecida pelo tempo recordavam-me a infância que ali passei. Os amigos com que ali brinquei. Os amores – os primeiros – que nunca sobressaíram. Estavam ali gravados naquela penosa subida. Como sempre a minha irmã desbloqueou o momento na sua simplicidade e na sua eterna grandeza de ver as pequenas coisas, os pormenores. Na caixa onde está guardado o contador da água – recordou-me ela – o que lá costumava guardar. Sabes – disse naquele tom jovem que mantém e que o mármore fez ecoar – aqui guardavas as cobras que apanhas por aí – rematando – eras mesmo parvo. O sorriso libertou-se mesmo sabendo que o dizia há mais de trinta anos da mesma forma e no mesmo local. Era bom sorrir, sentir que juntos podíamos ultrapassar aquele medo do escuro. A chave cravou-se no segundo andar direito daquele prédio da Avenida António dos Santos. Um som cavo e metálico libertou as trancas. A porta abriu-se e uma escuridão abateu-se no primeiro pestanejar. Doeu. (...)



Apeteceu-me

"A ruptura em si não surpreende apenas nos mostra o caminho" Charles de la Folie

segunda-feira, março 29, 2010

La vie en Rose VI

Já em Santarém a nossa amiga médica sugere-lhe comprimidos para as dores. Como sempre teimosa prefere suportar uma dor a tomar um comprimido. Rejeitou-os – fazem mal ao fígado – dizia rabujando, Julieta era assim nas suas convicções. A minha irmã – nas suas convicções e na simplicidade dos seus actos e agilidade de pensamento – em desespero deu-lhe dose dupla de um analgésico. A nossa mãe apercebeu-se e mesmo debilitada ainda tentou bater-lhe. Era assim um poço de convicções que também elas começavam a desvanecer-se. Debate-se agora com a fala: falha. Tem dificuldade em soltar as palavras. Deixaram de ser como as cerejas, como as ovelhas que pastam nos prados improvisados da paisagem da sua janela. O vento já não empurra as nuvens que se formam por cima de si. As figuras tornam-se ridículas e assustadoras. A força do seu sopro já não é suficiente para as afastar. É mais uma aflição que tem de gerir na tão debilitada cabeça. É preciso gerir. As emoções rompem com o corpo e formam um halo que nos segue. Há uma dificuldade extrema em viver os segundos que galgam no tempo, num tic tac constante e espesso. Apercebo-me outra vez que o tempo é contínuo, não pára. Mas sinto-o parado na dor. Abre uma ferida que o polegar do tempo oprime num cinismo descontrolado. Sem pudor. Defendo-me com respirares curtos para que as lágrimas permaneçam no umbral dos meus olhos. Quero olhar dignamente para Julieta, não a posso ver desfocada pelo choro incontrolado que tenho vontade. Vivo numa tortura constante tal é o meu egoísmo. Do outro lado está Julieta num sofrimento evidente, físico e psíquico. Aparentemente aguenta-se melhor que nós. Aparentemente conforta-nos. Aparentemente sobrevive nela o seu sorriso que mascara os esgares de dor. Aparentemente: só isso.
Estou na minha última folha de notas, respiro fundo. Bem fundo onde uma pequena dor parece arrancar-me o estômago do sítio. É desconfortável. Tenho a sensação que a densidade do oxigénio se solidificou. Custa a entrar; custa a seguir o seu caminho pelas vias respiratórias. Algo carrega às pazadas para dentro de mim o ar que crava e grava um ardor à sua passagem. Mais facilmente sai o dióxido de carbono que me deixa descansar naquele limbo temporal entre a vida e a morte. Não é uma expressão dramática ou de dramatismos exacerbados. Nem sequer uma metáfora. É simplesmente um aspecto da nossa sobrevivência. Se ficássemos para sempre entre a inspiração e a expiração sucumbíamos asfixiados com as nossas dúvidas. Na realidade enquanto descrevo o que sinto, não me vejo obrigado a passar os olhos pela folha de letras – certas no seu formato – que me recordam o que não me sai da mente nem por um segundo. É difícil explicar: serenei essas visões, aprendi a viver com elas a toda a hora, mas ainda não recuperei o sorriso. Precisava de voltar atrás no tempo para devolver os sulcos que me rasgam a fronte e recuperar as covas do meu sorriso. Tenho que enterrar o azedo da vida, o machado de guerra, da minha guerra e acreditar como o Carlos Oliveira que: “Não há machado que corte a raiz ao pensamento…”


Apeteceu-me



"Nem sempre descobrimos o que queremos esconder" Charles de la Folie

quarta-feira, março 17, 2010

La vie en Rose V

(...) No meio da escuridão há sempre uma luz que brilha, bem como na solidão há sempre alguém que nos guia. Perco-me nas metáforas neste espaço curto onde me prenderam, agrilhoado pelas palavras e pelas mentiras que dizem sobre nós. Sobre mim. É o que sucede quando me encontro às escuras só; aparece sempre uma sombra que vagueia na luz amiga e protectora que me vai acompanhado e alumiando caminhos tão dispersos como a minha alma que se concentra em ti. É uma vida ingrata, mas batalho contra a intempérie com o conforto que essas armas me dão. Claro. Quem é essa luz e sombra? És tu na tua intermitência, nos teus receios. Sabendo que estás sempre perto também sei o longe que estás. Sei o que o meu coração diz e lembro de como batia o teu. Só isso. Mesmo assim és a única alegria que tenho. São os meus monólogos eu sei mas servem para ir separando os meus medos, as sensações vãs e cruéis que me abafam a respiração e me obrigam a verter lágrimas. Dizimo o ânimo dos meus inimigos no meu subconsciente e vou vencendo as batalhas que me aparecem. Sei que é tudo tão frágil, tão impossível, tão volátil, mas acredito que lá chegarei.

Acompanhas-me nos pensamentos. Ficam mais racionais, mais autênticos com a tua presença. Deixam de ser apenas espirais e círculos que terminam sempre no princípio perdendo-se na sonolência que criam. Basta o vento soprar-te para te ter naquele teu jeito de menina rebelde mesmo que isso signifique apenas o desejo de te ter sempre ao meu lado. Nessa impossibilidade tenho-te em mim. A tua sombra desvia-me da mortandade do meu raciocínio pérfido e repetitivo. Levas-me para longe. Para sítios que acredito que não saibas que existam nessa perfeita ingenuidade. Só sei que me empurras para bons caminhos. Nem a arma carregada que se encontra perto da minha cabeceira me provoca tentações. Um dia sobrevoarei o desejo de mão dada contigo, agora apenas compadeço sonhando-te. Há sempre um braço amigo que me ampara quando me sinto perdido nos momentos mais sombrios. A escuridão da vida pecaminosa que me imputam vacila perante o teu braço. O braço da tua – minha – lei. Esse sorriso dá vida a um moribundo. Essa solidariedade não me deixa sucumbir perante a escuridão onde a tua sombra se move só para me libertar.

Não sei como te agradecer. Como pagar numa moeda plausível e indistinta o alento que me sopras. O pensamento mantém-se longe das mandíbulas que nos trituram o cérebro. Delicadamente afasto esses pensamentos para não te desagradar e assim evito-me. Leio nas nuvens que me envias que o tempo se esgota. Leio que é preciso aproveitar e alimenta-lo com amor. É preciso sentir. Paro de escrever para observar no reflexo da janela esta palavra: sentir. O sentir é mais forte que tudo. Está em nós, na nossa carne, nas nossas cogitações. No choro, no rir, na raiva e na angustia. O sentir aparece como uma flor na palma da nossa mão. Reaparece nos lábios nas palavras de cólera que arremessamos a quem se intromete. Reencarna no silêncio das pequenas agruras existenciais. Na música que nos anuncia a Primavera. No suor de quem trabalha a vida. Mas gosto de sonhar que um dia encostarei a cabeça no teu peito e vou sentir o teu pequeno coração a bater o meu nome. Sinto-o e pressinto-o. Não é só um desejo é também uma vontade. Tem a força de mil homens.

Nestas minhas palavras que se perdem neste papel que um dia irá amarelecer. Vejo-te na imensidão de todo o vazio que varro com o olhar. Apenas te recordo, o pensamento foge, galga barreiras para poder estar junto a ti. Essa saia recortada, essa blusa justa, os caracóis no negro do teu cabelo. Os olhos que sobressaem desse bonito rosto, coroado pelo veludo dos teus lábios. As mãos unidas. Os pés fincados num chão que não vejo. Pois a tua imagem está suspensa no meu respirar. Não te peço – mais – que tenhas confiança em mim. Sei por intuição que sabes quem sou e o que sou. Tens medo e o mundo está a desabar-te em cima. Respiro fundo por ti. Lembro-me do que me disseste um dia: “És pobre materialmente, mas rico de sentimentos e com um coração enorme”. Ainda hoje as sinto aqui dentro de mim. Funcionam como combustível na esperança do dia-a-dia. Sobrevivo com elas. Dedico-me a ti. Suponho-me num precipício onde abro os braços como Cristo na cruz. Pés juntos na fímbria do vazio. Na linha do olhar apenas nuvens que não consigo agarrar. Saboreio o frio que me toca no rosto. Os joelhos flectem-se com o peso da vontade. O corpo eleva-se num tremer descontrolado. Os olhos fecham-se. Flutuo agora numa descida vertiginosa. É minha. És minha. agarro-te antes de acordar desse sonho que avassaladoramente se queria tornar num pesadelo. Apanhei-te e acordei antes de me estatelar no chão. (...)



Apeteceu-me
"Um dia vou descobrir que o fim-do-mundo vive em mim" Charles de la Folie