terça-feira, agosto 10, 2010

Vidas (Em)cruzadas) - Pancada VII

O que me está neste momento a irritar… a verdade é que a dor de cabeça continua sem parar e eu sem saber o que a “velhota” anda a fazer por aí, com um envelope na mão e toda sorridente… Raios que me partam a mim e ao que me atormenta, há dias em que só me apetece desaparecer, para falar a sério, agora apetecia-me mesmo era estar numa igreja vazia, sem ninguém, de olhos fechados, sem ouvir nada a não ser aquele silêncio profundo, dá-me a calma suficiente para…?! É fenomenal, pouca gente, claro que pouca gente sabe, e porque havia de saber o que eu vou fazer à igreja! Devem pensar que eu vou pedir aos anjinhos ajuda divina para qualquer coisa…tipo os exames, mas não?! Claro que não… vou lá em busca de calma, três quilos de calma e quatro quilos de concentração… é uma boa fórmula, uma óptima fórmula de descompressão e descontracção e alguma estupidez natural.
Depois de uma porrada de anos a estudar… aqui estou eu feita parva, deitada na minha cama, pois de quem havia de ser, claro que sei de quem podia, até tenho uma boa lista de possíveis “gajos de a quem a dita cama poderia pertencer, mas… estou aqui na “minha”, como uma colegial à procura do prazer divino, ou será divinal? Pior, só mesmo estar com uma pancada na cabeça, que nem vejo, e ainda por cima desempregada, mas isso não importa grande Merda, não é que me possa queixar, não me falta grande coisa, mas… Pois é, por vezes, é um tédio, uma pessoa às vezes está no sofá e já não sabe em que posição deve estar, nem paciência, nem nada. Lembro-me do Ricardo, mais conhecido por RICHARD OSBORNE, era um dos gurus do meu curso de Sociologia: “A Sociologia explica o que parece óbvio a pessoas que pensam que é simples, mas que não compreendem quão complicado é realmente”. Este gajo sabia da coisa…
Estão a ver o dilema, onde estou metida nos meus pensamentos?! Qual dilema, eu digo que é um trilema! Estes meus pensamentos vão muito além do que se pode pensar, chegam por vezes ao absurdo do intelectual. Para quem pensa que eu sou uma menina fútil, gosto, adoro que essa seja a minha imagem de marca, gosto de a cativar à futilidade claro, às vezes assusta e dá muitas surpresas a quem não me conhece, grandes perturbações para assim dizer. Que o diga a Dra. Mónica, a psiquiatra que mora aqui no prédio, a senhora pensa ou deve pensar que eu sou parva, deve mesmo pensar que eu não sei, pois deve, ai deve deve… que eu não sei o que o Vasco andou por lá a fazer nas suas consultas! Foi, até parece que eu não conheço o “animal”, e mesmo que não o conhecesse… A maneira como ela o olha, há sempre outra hipótese e das duas uma, ou é fufa, ou o Vasco foi com aquela conversa da treta que andou a espalhar por aí há uns anos, espero que ele tenha aprendido com aquela pancada de 6 pontos e que me custou muita coisa, e mulher perdida por cem, perdida por mil, é o que se diz e acho que é bem verdade.
Mas eu sei lá, custou-me muita coisa boa na vida, entre elas custou-me muitas noites perdidas a pensar nele. Mas, mas… mais um mas e mais um… mas a Dra. deve pensar que eu sou parva, e mesmo que fosse, mesmo que eu fosse parva, tenho sempre um aliado de peso um excelente aliado, o meu grande amigo Pilitas que me conta tudo. Ah! Pois é! Sei que foi ela que o desvirginou, não ao Pilitas, mas ao Vasco, pois claro, deve ter sido bonito deve, ela com aquele ar sabido com os óculos a caírem-lhe pelo nariz, aquele cabelo apanhado com um lápis atrás, estou a ver o filme!
Às vezes vejo mesmo filmes, filmes de mais até! O que é certo é que não sei se o que sinto por ele é amor ou se é ódio. Ele deve pensar que eu ainda sou aquela “parvinha” como no dia em que foi contar aquelas histórias para a escola, onde reuniu meio mundo e contou aquelas alarvadas sobre mim. Ainda um dia gostava de perceber e entender o que é que realmente se passou naquela cabeça, naquela cabecinha tresmalhada, não sei se isso vai acontecer algum dia.
Apeteceu-me


"Nem sempre encontramos o que procuramos, porque estamos demasiados ocupados em não achar..." Charles de la Folie

terça-feira, agosto 03, 2010

Vidas (Em)cruzadas) - Pancada VI

Éramos umas espertalhonas, por exemplo, lá o nosso grupinho, tínhamos tácticas infalíveis para saber quem eram os rapazes que gostavam de nós. Tenho vergonha de pensar no assunto, tenho? Não tenho nada, quer dizer… envergonho-me do que andei a fazer, mas passa, é coisa de pouca dura… dura que horror… Mas que resultava a nossa minha táctica, resultava, era tiro e queda, então era assim: montávamos guarda à porta da casa de banho dos rapazes e íamos ver as portas das retretes, os escritos, o que lá andava escrito, tipo “Vasco Love Palmira”, ou a “Virgindade da Palmira mora aqui”, coisas deste género e com uma fluência literária que metia dó, de uma prosa e de um português, sei lá, será que se pode dizer vernáculo ou cavernáculo?!? Mas houve lá, naquele sítio digno de um Cervantes ou de um Marquês de Sade, uns escritos ou uns dizeres… hummm fabulosos… nunca mais me esqueço:
“Eu fodi a Camarão Diaz!”
“Eu fodi a Inona Radar!”
“Eu fodi a Catarina Fortuna!”
“Eu fodi a Fernanda da Serra!”
E depois, por baixo, estava uma piada medonha escrita com letras quase garrafais ou seriam… pois… mas estava assim:
“Tu fodeste foi a parede toda ao homem!”
Apesar de tudo, nas paredes da casa de banho dos rapazes, no WC, é tão giro dizer isto, liam-se algumas coisas interessantes, mas verdade verdadinha e que seja dita, quem não se sentava naquelas retretes, ai, ai, era a filha do meu pai, essa é que não era de certeza absoluta. Eu não me sentava pelo nojo que era e eram de uma imundice vergonhosa e assustadora. Engraçado ou sem graça, nem sei o que pensar, muitas raparigas…pois, já me lembro, arre!... com esta coisa nem raciocinar direito consigo, perco-me… ah!… haviam de ver como pensavam muitas raparigas… Naquela altura, ainda hoje infelizmente, quando aparecia alguma rapariga grávida, geralmente, era por contágio, sim contágio, tipo infeccioso, era sempre por artes mágicas do acaso. Aliás, havia por aí muito incesto virtual claro, ou era na toalha da casa de banho, ou na banheira, familiar portanto!
Hoje rio-me com isso, tem mesmo uma certa piada como se pensava antigamente, era fantástico, o problema é que os nossos, pois os nossos pais alimentavam-nos essas ideias, eram planos divinais que nos engendravam. Hoje, olhando para trás, vejo os atentados que fizeram à minha inteligência, mas não foram os únicos. Só de pensar na falta de informação, é inenarrável, como nunca ouvi falar do assunto, penso que deviam fazer abortos a atirar pedras às cegonhas… Meu Deus!
A grande verdade!... Tudo naquele tempo era tabu… o aborto, a pílula, a própria menstruação, nem maionese podia fazer menstruada, só comigo engolir essa tretas, histórias desse género, mas a culpa, não era nossa, era dos nossos paizinhos que parece que viviam na pré-história. Chego a pensar, deveriam querer que acreditássemos ter nascido de geração espontânea. Para que era tanto tabu… tanta Merda à volta das coisas, parece que andavam a criar flores de estufa. O que é certo é que elas aconteciam e se aconteciam, pois claro e depois é que eram elas.
Tive sorte na mãezinha que me tocou, quanto ao paizinho nem vou falar. Se ele não consegue falar, porque terei eu de falar dele. Assim à primeira vista nunca me bateu, também não me lembro de ele bater na minha mãe, mas gritava que nem… nem sei bem, era um misto de corneta, com bombos misturados com o som duma locomotiva a vapor, qualquer coisa assim do género. Felizmente que o meu pai está por terras Africanas, está lá debaixo da terra, já há uns tempos que deixou de nos chatear e de nos aborrecer com os seus gritos tipo Tarzan do raio que o parta, foi-se de vez, tanto para mim como para a minha mãe, é um alívio.
A Dona Henriqueta às vezes, por vezes mas não muitas, ainda chora, isto quando se mete a ler as cartas que tem guardadas. Eu não tenho grandes saudades, nem grandes nem poucas, claro fiquei com um belo carro, tenho uma casa só para mim, tenho muita coisa, imensas coisas, mesmo muitas… se ele ainda aqui estivesse, bem tramada estava, tramada não, mas sem coisas e que coisas!
É claro que às vezes tenho saudades dele, mas também pensar que ele ganha uma nota lá nas minas de Diamantes, e que é certinho aqui ao fim do mês, é pena não ser em diamantes, mas enfim não se pode ter tudo… Já agora, lapidados e enfiados num belo colar, claro e o cuzinho lavado com água de rosas?! Hi! Hi! Hi!
Mas também, lembrar-me agora do meu pai é um bocado tétrico, afinal coitado do homem, anda lá fora a trabalhar para me sustentar, ou pior, anda lá fora a trabalhar para não estar aqui dentro a chatear e não me sustenta só a mim, sustenta também, pois sustenta os meus vícios, já que a mãe não tem nenhuns.

"As palavras por muita alma que tenham, nunca deixam de ser palavras, às vezes basta ouvi-las!" Charles de la Folie

terça-feira, julho 27, 2010

Vidas (Em)cruzadas) - Pancada V

Grande susto enquanto estava aqui neste meus pensamentos de luta com a cama, a minha mãe chegou e mais uma vez me obrigou a privar da sua companhia e de seus beijos. Veio dizer-me que ia sair, mas que já vinha. Nem tempo tive para lhe perguntar se há garrafinhas milagrosas… estranho… ia com alguma pressa… Ela não costuma andar assim tão depressa, ou será impressão minha!? Talvez seja, nada que mate… estranho, estranho mesmo, para não dizer muito estranho, é que ela leva um envelope, e ao que me parece diz “Sr. Vasco”, ou “para o Sr. Vasco”, deve ser algo importante, mas Vasco?! Vasco?... Ora espera, nããoooo… não acredito! Não acredito mesmo… Sr. Vasco… não é de certeza para o louco insano e deficiente mental, não pode ser… deixa-me rir, mas… de qualquer forma já pergunto à Dona Henriqueta, penso que aquela carta deve ser a razão desta minha dor de tola, de mona ou do raio que a parta.
Que se lixe, a grande verdade é que nem para um berro, um grito à minha mãe tenho coragem… tenho muito medo que a cabeça me salte para algum lado, quem sabe menos conveniente se é que isso existe.
Enquanto nada acontece o melhor é tentar desvendar estes meus mistérios de uma noite atribulada, pelo menos se não foi deveria ter sido, mas por osmose… não foi por certo. Posso tentar chegar lá pelo hálito, mas é um cheiro terrível a tabaco, misturado com pasta de dentes e álcool… e depois sai tudo aqui do meu interior, chega em forma de arroto, que coisa, que horror mesmo. Não falo daquele interior, profundo e bom, aquele interior muito cristão, esse interior não faço a mínima ideia de onde surge, penso que tinha de ser mesmo lá do fundo, mas digo eu aqui que ninguém me ouve, que esse fundo a maior parte das vezes… Não! Não vou dizer, é melhor não, até porque não é esse fundo que faz parte do imaginário colectivo, é um outro fundo, do fundo sei lá de onde, devia ser das antípodas do outro fundo ou será do fundo social de coisa alguma?!
Adiante, outra das coisas que me interrogo é mesmo se as outras raparigas são assim como eu, ou se eu sou a excepção à regra. Tenho dúvidas se há muitas miúdas iguais a mim, com a mesma maneira de ser, de falar, de sentir, de fervilhar, de dizer, acreditem que eu sou muito durona. Lá no interior, sei que lá naquele fundo… às vezes choro por estas coisas, quer dizer… choro e não choro, alivia-me a alma. Estes pensamentos cada vez estão piores, acho que estou com a puta da emoção à flor da pele, a emoção e a comoção se é que isso existe e sei lá mais o quê...
As coisas que me lembro, estou aqui a recordar que para aí no meu 6º ano, estávamos ou andávamos todos a discutir na aula, aquelas conversas facciosas e sectárias, as do costume, tipo: que o homem é melhor que a mulher, que a mulher faz isto e tem bebés, que o homem tem “bobos”, tem o quê?! Claro que tem e estúpido para aqui, parvalhão para ali, mentecapto para ali, fuinha para acolá e eu lembro-me de dizer:
“Vocês têm a mania que são espertos e inteligentes, ainda gostava de saber quais são as vossas conversas entre rapazes”, à qual o Vasco respondeu:
“São as mesmas que as vossas, porquê!? Devem pensar que são as supra-sumo da batata!”.
E lembro-me que me saiu assim um:
“As mesmas que as nossas?! Ai que ordinários!”.
Ainda hoje me gozam por causa dessa história, mas tudo isto ou isto tudo, para dizer que eu posso ser assim meio… abrutalhada… pouco feminina nos actos, mas não devo ser a única… mas sou boa pessoa, sou sim, só posso ser, porque não havia de ser boa pessoa?! Sou sim!

Apeteceu-me


"Sempre que o instinto nos provoca, arremessamos com o destino ao acaso" Charles de la folie

terça-feira, julho 20, 2010

Vidas (Em)cruzadas) - Pancada IV

Um dia ainda faço uma cruzada a casa dela, e posso sempre levar o Pilitas, olha, ah! ah! o Pilitas é um bom partido para ela, ai se é!!
Até que tinha graça, muita mesmo, é o tipo de moço que os pais de qualquer garota adoram, adoram mesmo odiar, o Pilitas, é um “Moçoilo”… como posso explicar!? A melhor maneira de explicar como ele é, é mesmo não explicar, porque ele é absurdamente e absolutamente inenarrável… É simples, é barato e dá milhões, é um grande amigo, mas tem um defeito, não muito grande, mas não deixa de ser um defeito, é que ele não mente, tipo:
- Ó mãe! Ontem estive em casa da Susana (namorada do Pilitas - será?) a noite toda, até adormeci e se não acredita pergunte ao Pilitas.
- Ó Pilitas… é verdade, o que a Palmira está a dizer?
- Bem… Dona Henriqueta, tecnicamente é verdade, mas basicamente não! Ela passou por lá, quer dizer, disse-nos que ia passar por lá… Ela, Dona Henriqueta, como lhe vou explicar, ameaçou-me há 2 minutos, para lhe dizer que esteve lá. Claro que, Dona Henriqueta, espero que não me leve a mal.
- Estás a ver Palmira, nunca posso confiar em ti, aqui o Pilitas é sincero, nunca mente e diz-nos sempre a verdade, não é?
- Sim claro, quer dizer, pois é essa a minha intenção, às vezes, sabe… omito… omito umas coisas de nada, aliás eu penso que a Palmira também é assim.
É talvez por isso que digo que o Pilitas é único, muito sincero, é óbvio que desta vez eu sabia que até era mentira, mas disse à minha mãe que ele me tinha pedido para não passar por lá, porque queria dar uma valente “trancada” na Susana - isso queria a Susana. A minha mãe, só não lhe deu um treco porque já me conhece de ginjeira. Quanto à “trancada” na Susana, o Pilitas acha que a namorada é para levar virgem para o altar, eu disse a namorada, porque ele podia ser dado à religião, mas de parvo não tem absolutamente nada, ai não tem não, e acho que essa de ir virgem para o altar também é uma treta dele, ou um fetiche, apanhar a igreja vazia e pimba no altar.
A verdade é que a catadupa de pensamentos parvos não passam e eu, quanto mais sei que tenho de me levantar, mais fico pregada ao colchão. É uma briga, uma briga exasperada entre eu, a minha pessoa, o colchão, a almofada, a vontade de não me levantar, a consciência de ter de me levantar, a almofada que não deixa a cabeça levantar e os pés que se auto prendem no edredão. A verdade é que este género de coisas excitam-me, excitam-me muito mesmo, de uma maneira descomunal, agora há um pequeno problema que é o perceber porquê, o porquê desta excitação toda que me persegue. Não sei, até porque tudo me excita… acho que tem a ver com o foro psicológico, ou qualquer coisa da mesma classe… às vezes só me apetece auto-flagelar e dizer: “sua tarada, sua miúda sem escrúpulos sexuais, sua isto, sua aquilo”, mas suar nada…
O problema é que me dá uma vontade, uma enorme e desconcertante vontade de rir, e rio, rio quase até sufocar, parece que estou pedrada, com uma bela ervinha, vinda ali do… psiuu… Não se pode dizer se pois ainda vão à varanda dele, ou à sua estufa ou sei lá mais onde… ih! ih! ih! e lá se vai a nossa produção caseira. Foi aqui que eu percebi o que é uma empresa familiar, ou uma empresa de amigos “mais bem falando”. Aquilo é do melhor, ele planta, seca-as no forno e eu testo o produto, eu e muito mais gente aqui neste prédio. Ainda não fizemos dinheiro nenhum, claro como é que uma pessoa se separa de uma planta que é tratada com tanto amor, é como aquelas pessoas que criam um coelho ou um pato e depois não conseguem comê-lo, e também porque estamos há dois anos em testes de qualidade, sempre ouvi dizer que uma empresa, para ser uma empresa, deve testar bem os seus produtos. E é o que nós fazemos sob o signo da qualidade, aqui o problema maior é que eu sou a “testadora” oficial. Problema porquê?! Nunca chegamos a grandes conclusões porque ficamos E.H.L., ou seja, num Estado Hilariante Lastimável…
apeteceu-me


"Basta pensar novamente para que o dia amanheça num instante, mesmo que seja o escuro que te proteja" Charles de la Folie

terça-feira, julho 13, 2010

Vidas (Em)cruzadas) - Pancada III

Mas hoje a coisa parece estar a correr bem… melhor do que é costume, anda tudo à roda, mas por enquanto nada de muito complicado, pior é quando estou mareada, quando estou virada para essas travessias atlânticas, hoje a coisa está calma, o mar não está revolto está calmo, tipo mar chão. O pior… o pior mesmo é sair da cama, tem de ser de uma só vez, ou de uma vez só, quem sabe se de uma vez acompanhada ou acompanhada de uma vez. Acho que não digo mais nada é só asneiras que saem da minha boca… bom, tem de ser de uma só VEZ, e depois rodar o rabo, tipo Break Dance… meter os pés no chão, apoiar as mãos nos joelhos e upa que se faz tarde, upa para cima. O pior é que as pernas vão bambolear, dar de si, até parece que já estou a ver o filme, e que filme, o melhor é passar à acção, vamos lá a isso… um, dois, três e... ai, ai…
Pois, é tudo fácil, mas aconteceu aquilo que se chama o efeito sempre em pé mas, em versão deitado, eu sou a sempre deitada… e sei, tenho a certeza que tenho de me levantar e que é um dia importante para mim, muito importante mesmo, se não é passa a ser, claro… ou nem por isso…
Nesta altura preciso mesmo de duas coisas: de relaxar e que esta pancada me passe, o melhor é continuar deitada e fazer algo que, alguma coisa que adoro, com este silêncio sepulcral (estas coisas não se devem dizer, mas eu digo tudo como os malucos, talvez por isso é que pensam que eu sou uma rapariga meio esquisita e não se enganam grande Merda). Adoro tirar macacos do nariz, fazer umas bolinhas apetitosas e depois lançar - os macacos - para o vazio e ouvi-los a bater estrondosamente contra o chão, ou contra o guarda-vestidos, ou contra a secretária que não tenho ou… sei lá… Mas fico frustrada quando caem no tapete, odeio mesmo, depois daquele trabalho todo de construção macacal e depois não poder ouvir, escutar aquela sinfonia, aquele belíssimo plock, um plock divinal feito de um belo macaco de uma narina imaculada e depois ejectada. Continuo com esta história, a pensar que devia haver olimpíadas do macaco, tipo: o arremesso do macaco, o mais belo plock do macaco, o maior macaco, o mais viscoso macaco, a colagem do macaco na retrete (no urinol para a classe masculina), o mais expansivo macaco no vidro do WC…seria uma forma de dar a conhecer a arte do macaco ou do macacão a todas as classes. Na verdade há umas menos privilegiadas que não sabem o que isso é, acho que estou certa, acho que pode ser uma bela forma de se estar na vida.
Depois desta dissertação sobre os macacos o melhor é continuar a treinar o meu plock, plock. Macacos mais macacos, a chamada “macacada final”, ou a “última grande macacada” ou ainda a “ grande macacada em cuecas”. Nada de muito especial fazer estas coisas ou não fosse eu mulher, mas as coisas que me lembro, uma mulher que devia ter muito tino, mas… claro, evidente e visível… não tenho! A minha mãe até que é uma “gaja” porreira, senhora “gaja” diga-se em bom da verdade, porque, por exemplo, eu nas mãos da minha Tia Luísa bem lixada estava, a esta hora já tinha um enxoval completo, completo não, faltava-me o essencial… o “gajo”!
A desgraçada da minha prima Ana que tem 24 anos, mais coisa menos coisa, o melhor é dar-lhe um intervalo de dois anos quer para cima e também para baixo, acho que ainda nem cheirou a coisa, coitadinha, o mais perto que esteve de um beijo foi na missa, no casamento não me lembro bem de quem, mas não é muito importante, o casamento claro. Na missa, naquela parte, em que se beija o nosso semelhante assim na Terra como no Céu, a minha prima Ana beijou um miúdo todo bom, na cara, claro, mas foi o mais próximo que ela esteve do sexo ou de um linguado ou de qualquer coisa que dê calores, que aqueça a alma e a faça transpirar, a alma, não vão pensar em outras coisas… Aliás, segundo sei, o meu Tio Manel, nesse casamento, já não tirou os olhos do rapaz, devia estar com medo que acontecesse alguma coisa de grave, quer dizer, o grave aqui devia ser mesmo o rapaz tossir e poder engravidar a prima Ana ou coisa do género, aquelas cabeças são um bocado para a esquisitice. Pois, é triste quando se tem a mania da pureza, quando pensam que um homossexual é alguém que lava a pila com OmO, pois branco mais branco não há, ou haverá… que se lixe a taça. Voltando à miúda, miúda uma fava, ela é mais velha que eu, mas coitada, o que ela sofre à brava com o período – menstrual. O médico mandou-lhe tomar a pílula para regular a coisa e a desgraçada quase foi deserdada só de pensar naquilo, na pílula, não foi de coisar seguro, foi mesmo na pílula… Aliás nem vale a pena porque a pílula, naquela casa, é heresia, se o meu Tio a deixasse tomar, qual tomar, utilizar… O homem é tão… nem sei bem a palavra para o definir… retrógrado, arcaico… não me ocorre nada mais…o meu vocabulário não chega para o definir, pressupondo que ele a deixava usar…
A pílula seria usada, pressionada entre os joelhos para nunca a deixarem cair, uma boa forma de nunca abrirem as pernas. Que horror, ou seja, se em vez da pílula meter uma granada, também faz um belo efeito, aí deve ser uma pílula abortiva. Não vou gozar mais com esta história, é tramado estar na situação dela e isto tudo é uma forma de dizer que a minha prima Ana é uma desgraçada. O que eu penso, e estou a ser muito sincera, é que se ela não se impõe depressa, ainda vai ter um valente desgosto, um não, dois, além de casar virgem, vão-lhe escolher o noivo. Acho que essa é a pior maldade que podem fazer a uma mulher, mas ela nunca se vai aperceber da maldade porque vai para o casamento com tanta “fominha” que nem se apercebe, nem se lembra do que lhe fizeram.

Apeteceu-me



"Não percebo as vontades por isso me deixo levar..." Charles de la Folie

terça-feira, julho 06, 2010

Vidas (Em)cruzadas) - Pancada II

Entre as coisas que me vêm à cabeça são - dois pontos, parágrafo:
- Onde é que passei a noite, porque a passei, com quem passei, que me fizeram e porque fizeram e com quem fiz? Atenção nada de pensamentos promíscuos, porque falo simplesmente e quem sabe, infelizmente, de copos, não falo de quecas… - que grande suspiro - isso são outros quinhentos paus, são mesmo outras histórias, e claro histórias de um outro rosário. Quer dizer, podem ser deste, mas só são ou só serão quando eu quiser, e agora não quero mesmo pensar nisso, agora o que eu mais desejo e que mais quero, é como conseguir alcançar a cozinha. É que neste momento parece-me um objectivo, uma batalha inatingível. Só espero que esteja lá o meu extracto de guaraná, o meu querido amigo desintoxicador hepático, uma coisa amarela, com um sabor horrível, horrível de se tomar e de beber. Aquilo parece - num copo de água, num simples meio copo com água - ter concentrado uns vinte quilos de açúcar, mas é inegável que é tiro e queda. É “espantástico”, “fabulástico”, incrível, é um arrebatador de ressacas e pedradas, já pareço uma daquelas anunciantes de publicidade manhosa no canal de compras. Só peço a todos os santinhos que ainda tenha algumas bombinhas daquelas, porque caso não tenha… ai se não tenho, estou completamente, perfeitamente lixada com PH! É coisa para me suicidar, tipo enforcar-me pela barriga claro, pelo pescoço depois faltava-me o ar. Só espero que sim, aquelas pequenas garrafinhas são e serão sempre uma dádiva de Deus...
A história é rápida, foi uma vez num churrasco brasileiro, num rodízio, eu provei a caipirinha (bebida feita com lima, cortada às rodelas ou macerada, açúcar, gelo picado e cachaça, muita de preferência). Os rapazes, os rapazes, as raparigas sei lá, toda a gente trazia carne à força toda, mas antes e depois de provar aquela dádiva dos céus parecia que o mundo ia acabar e bebi o mais possível. A primeira vez que fui à casa de banho, ainda me lembro, aliás, só me lembro dessa vez, as outras… contaram-me. Lembro-me que olhava para o espelho e ria-me que nem uma louca, que nem uma perdida! Claro, estava mesmo perdida, falava comigo ao espelho, tipo a madrasta da Branca de Neve, só que para mim, não é como nas histórias de fadas, cá comigo os espelhos mentem muito, são muito mentirosos, falta de um bom correctivo.
Figuras, pois figuras tristes, muito tristes, mas existem figuras mais tristes, digo eu aqui que ninguém me está a ouvir. Ah! isto tudo para dizer que fiquei em coma etílica, por outras palavras, com uma bebedeira monumental, daquelas de caixão à cova - deixa-me cá bater na madeira.
E aí entra a garrafinha milagrosa, a tal, a maravilhosa, a inefável garrafinha milagrosa. Deram-me daquilo e parecia que me tinham dado um choque, daqueles dos filmes, com um desfibrilhador - duas coisinhas que se esfregam uma na outra, parecem dois ferros de passar a roupa, depois espetam com aquilo no peito e damos saltos que parecem os do cão do Pilitas. Por falar no cão do Pilitas, o que é feito do Cão Guru? O que é feito dessa alma linda e babada?!
Continuando (a contar) a minha experiência da garrafinha milagrosa, abri os olhos de uma maneira que nem vos conto… Conto sim… foi de uma tal forma que no dia seguinte parecia que tinha uma distensão muscular na pálpebra, simplesmente maravilhoso, é quase inexplicável tal é a velocidade de actuação daquela Porra, que quase parece irreal, quem sabe se não é mesmo?! É mais uma daquelas coisas que só a nossa cabeça pode explicar, ou seja, acção psicológica, mas enfim.
Sempre que há alguém conhecido que vá ao Brasil, não mando um bilhete postal, mas peço sempre para me comprar as benditas garrafinhas de extracto de guaraná.
A caipirinha, essa enjoei-a de uma forma que nunca mais bebi, a não ser umas Caipiroskas com Vodka, ou Caipirissimas com Tequilla, o que me irrita muito, porque com a caipirinha lembro-me… lembro-me… não me lembro de coisa alguma, mas contaram-me depois que estive e estava sempre alegre!
É que sou um bocado maníaca ou depressiva e passo logo à fase do choro, tudo isto por causa daquele filho de um comboio de melancias do Vasco. Mas, mesmo assim…claro que não posso estar só e sempre a pensar em coisas alegres, porque não resolvem nada, e mesmo que resolvessem!? Sinto-me terrível, parece que acabei de ser atropelada por um camião Tir. Só espero, espero mesmo, verdade verdadinha, que haja aqui em casa alguma coisa milagrosa. Faço votos para que exista.
Eu sei que tenho de alcançar a cozinha, eu sei quais as coordenadas para lá chegar, da minha cama até à cozinha são…
Isto parece o mapa do tesouro, nesta altura do campeonato é mesmo um tesouro o guaraná, é ouro puro, purinho da Silva. Ora então, da minha cama são sete passos para abrir a porta do quarto; depois virar à esquerda; doze passos dos meus ou seja, são passos pequenos, virar à direita, abrir a porta; dois passos, rodar à minha direita, esticar o braço e vasculhar a cestinha que está em cima do microondas e encontrar o remédio milagroso. Se for para chamar o Gregório, em vez dos doze passos, são só seis, virar à direita, mais quatro passos, ajoelhar, puxar o tampo para cima e gritar por ele até à exaustão, até que a garganta me doa, isto não é tema de um fado?! Será que se chama o fado do Gregório?!


Apeteceu-me

"No principio pensamos no fim e no fim já não há tempo para pensar" Charles de la Folie

terça-feira, junho 29, 2010

Vidas (Em)cruzadas) - Pancada I

Capítulo II - Pancada

- Mãe, Porra, já basta… já estou acordada que Merda… já não chega o raio da dor de cabeça que tenho e ainda vens para aqui pôr-te aos beijos a lambuzar-me toda?!
Se há coisa que odeio é ser acordada com beijos. Odeio, a minha mãe sabe disso e passa a vida a fazê-lo…Guardem os beijos para… sei lá… para… para… para um dia mais tarde recordarem ou coisa do género. Para quem haviam de servir os beijos… Os beijos… cada vez que me lembro de beijos… Terei eu a culpa de acordar assim? Acho que não! Feitios são feitios, ou será que não?! Mas cada vez que me lembro de beijos, lembro-me de cerveja, de imperiais, da espuma a cair alarvemente no balcão e a escorrer pelas mãos… Uma pessoa sorve ruidosamente e fica-se com aquele bigode branco que rapamos com a língua e depois olham todos para nós, com aquele ar de desaprovação, e só nos apetece, logo a seguir, arrotar à camionista e despenteá-los a todos. Eu sei que fica mal numa menina, mas que se lixem, alguns… para não dizer todos.
Que horas serão? Dói-me a alma para olhar seja lá para o que for. Que chatice, já são oito e meia da manhã, que grande porcaria… Até estou com medo de subir as persianas, pior mesmo que beijos é levantar as persianas de repente e levar… “levar” é bom, até que me apetecia… mas, dizia eu, levar com aquela luz toda de uma vez só nos meus olhos, parece o milagre de Fátima, cheio de cor e luz. Do milagre de Fátima precisava eu agora… pois precisava e de que maneira, até agradecia. A minha cabeça gira que gira…
Mas o que preciso agora mesmo é de uma velinha em honra e memória de Nossa Senhora dos Gregos ou será do Gregório? Se não é deve ser de coisa parecida. Que enjoo, estou mesmo enjoada! Grávida, garanto-vos que não estou, só se foi obra do espírito santo, quem sabe… quem sabe… sei eu, ora que coisa! Se não for eu quem saberá? Só mesmo eu e se eu digo que não estou, é porque não estou. Preciso é de muita calma e paciência que a coisa não está nada famosa e pior... pior mesmo é que ali do outro lado… só ouço…
Pois do outro lado só ouço a minha mãe a zurzir, praguejar e outras coisas que nem me quero lembrar. Anda ali, de um lado para o outro, a dizer: “a Palmira isto, a Palmira aquilo”… Arre! a Dona Henriqueta ainda me gasta o nome, de tanto andar para ali tipo uma barata tonta, é o que parece, pelo que sinto, mas o que sinto mesmo é uma enorme vontade de… Que engraçado e ao mesmo tempo que estranho… sempre me lembro de tratar a minha mãe por Dona Henriqueta, porque será?! Pois sei lá, também nunca ninguém me explicou porque é que o Stevie Wonder não podia ver o Ray Charles, eles que até parecem pessoas simpáticas, porque terão assim um ódio tão grande um pelo outro?!
A minha cabeça anda num corrupio ou antes num inferno. A noite foi de borga, uma grande borga mesmo, mas o mais curioso é que não me lembro porquê, estou, com uma estranha sensação… Bolas, até mesmo o “Cérbero” está completamente entorpecido.
Lembro-me que é sábado, que tenho qualquer coisa para fazer e não sei bem o quê!? Trabalhar não é de certeza, emprego não tenho, fundo muito menos… fundo de desemprego claro, é que não faço a mínima ideia do que é trabalhar, quer dizer, eu lá no fundo até sei, mas óbvio é um fundo tão… mas tão… longínquo que não o quero imaginar… Bom só se fosse nu, mas nu quem? Acho que ando a ficar com alucinações muito complicadas, terei eu andado a tomar alucinogénios, ou lá como chamam a essas coisas que nos dão, para andar aí a imaginar coisas esquisitas…
Grande pedrada que eu ainda tenho em cima, tenho e ao que parece é para manter, quer dizer mantenho não por opção, mas porque… ai nestes dias tudo o que me vem à moleirinha é disparate, se não é disparate anda lá perto, ou então é dor, ora dor por dor… prefiro o disparate. Eu sei que a maior parte das pessoas dificilmente consegue compreender o porquê de uma rapariga dizer e fazer tanto disparate, não é pelo disparate, é pela rapariga em si. As pessoas não conseguem conceber nem imaginar isso no seu reino cinzento, ou no seu meio palmo de testa, pois uma rapariga dizer disparates e fazer disparates… Ah! e muito menos, já me esquecia, a “enterrar” uma panela pelos “cornos”, pode ser “chifres”, fica mais bonito uma donzela dizer assim, mas fica melhor pelos “cornos” de um gajo abaixo. A história do Vasco fica para outras núpcias… “péra” lá! Eu disse núpcias?! Pois, ora núpcias, núpcias está-me a tentar dizer qualquer coisa, mas... não chego lá por enquanto, nem por enquanto, nem por nada, não chego e “prontos”.
Eu, quando estou assim, não é que tenha estado assim muitas vezes pelo menos esta semana, eh! eh!, mas quando estou assim… ai ai… Antes de conseguir abrir os olhos, todos remelosos, gosto… adoro… sinto-me mais aconchegada assim, de barriga para cima, quer dizer, deitada de barriga para cima, não quero que ninguém pense em coisas esquisitas. Barriga para cima, pernas abertas, braços a agarrar na almofada para a poder puxar para cima até me tapar as orelhas, é a maneira de eu não sentir nem dores nem o quarto a andar à roda, parece um carrossel, anda que se desunha. Quando este meu quarto lhe dá para isto, só me apetece dizer coisas ruins, mas ele não me liga nenhuma, é um safado, um grande cafajeste isto para não dizer já aqui um chorrilho de asneiras.




Apeteceu-me
"Não há lógica na irracionalidade do pensamento, apenas temos de aprender a deixa-lo ficar" Charles de la Folie

terça-feira, junho 22, 2010

Vidas (Em)cruzadas) - Ressacas X

Este sorriso que me mantém, sem pensar que ainda me dói muito a cabeça, está para durar… É bom, pois eu não tenho coragem para fazer o que penso, deslocar-me ao 5º C com um ramo de flores, um sorriso de orelha a orelha e pedir para falar com a Palmira, pedir-lhe desculpa e perguntar-lhe se quer ir para a cama comigo, que coisa… ir beber um café comigo, esse desejo é mais forte do que eu possa imaginar. Às vezes acho que estou doente, que é um problema do foro psicológico. Olho para as mulheres, para as mulheres não, para algumas mulheres e vejo uma grande, uma enorme “vagina”, uma coisa assombrosa, mas essa é a grande verdade, não posso esconder isso de ninguém, aliás, foi com esta conversa que a minha psiquiatra a Dr.ª Mónica me desvirginou.
Mas essas são outras histórias, a grande verdade é a minha falta de coragem para enfrentar a realidade, duas realidades.
Há outra coisa que não compreendo em mim… é a bifurcação dos pensamentos. Os meus pensamentos nunca são contínuos, dividem-se sempre em dois, sempre para duas direcções, deve ser, deve mesmo ser, para me dar várias opções de vida, ou de escolha. O pior é que nunca escolho nada, escolhem-me, aliás, apontam-me, tipo: - olha, olha o gajo, é aquele mesmo. Mas se estão à espera que alguém me chame de falhado, tirem o cavalinho da chuva, porque a minha grande falha só eu a sei e já lá vão dez anos, dez longos anos.
Voltando às minhas duas realidades, a primeira é que a Palmira vetou-me, excluiu-me por sua livre e espontânea vontade e por minha deliberada estupidez. A partir desse dia comecei a reger-me por uma nova filosofia, que mais vale fazer amor num sonho que duas quecas inventadas. Diria mesmo que a sonhar com a Palmira foram incontáveis, se formos a medir pela minha vontade. A segunda realidade, é que não podia mesmo, ela não me queria. A mãe é uma querida, mas tenho impressão que também sabia da história, o que fazia todo o sentido, fazia parte daquilo que eu achava ser a segunda realidade. Ela, ou elas preparavam uma vingança requintada, pois, porque os meus seis pontos na tola não eram uma vingança, mas sim um vipe, um gesto espontâneo, um grito de revolta, uma vontade enorme de me matar. Na vingança ninguém pode morrer, a pessoa em causa tem que sentir na carne essa vingança, essa doce vingança, e eu, por mais que tente, não senti em lado nenhum alguém a vingar-se. Por isso, ando sempre de pé atrás, porque, quando menos esperar, sairá dali, daquele universo, algo cheio de alcatrão e penas de galinha. É como eu imagino essa vingança, ou então mais cruel, eu sei que ela consegue ser mais cruel.
Mais uma vez deparo-me cara a cara com aquele envelope branco, com o Sr. Vasco que tanto me intriga, julgo que foi a primeira vez que vi escrito Sr. em relação à minha pessoa. Cheiro-o e delicio-me com o cheiro, imagino logo a Palmira, a doce e bela Palmira, aquele cheiro… um misto entre cebola refogada e alho frito, faz-me lembrar ‘jaquinzinhos’ com arroz de tomate, qualquer coisa que eu adoro, tipo ovos de tomatada. Fiquei durante alguns segundos a olhar para o envelope, olhei para o relógio, marca 10 horas e 20 minutos, um imenso olhar vago, uma imagem deturpada, o branco do envelope transformava-o numa nuvem, numa imensa nuvem. A tempestade que paira na minha cabeça, parece que está a acalmar, a nuvem dá lugar ao envelope, os olhos concentram-se no envelope, estava centrado. Voltei a ler o Sr. Vasco e abri o envelope devagar, devagarinho, entre o nervosismo do momento e de não saber ao certo o que lá está escrito. Olhei para dentro e vi um papel de carta dobrada em 4 e lá está uma mensagem, parece-me manuscrita à mão, claro deve de ser à mão porque ao pé… antes fosse… mas pé de perto. Desdobrei-a calmamente a ponto de me fazer sofrer, tamanha é a ansiedade, olhei para a epístola, para mim é uma epístola de alguém para o Vasco, segundo os meus sonhos e pensamentos e sorri, dei mesmo uma gargalhada.
Pior foi quando olhei para a janela e vi alguém todo nu!
Continua...
Apeteceu-me


"Uma mulher só se torna perfeita quando perde toda a sua geometria" Charles de la Folie

terça-feira, junho 15, 2010

Vidas (Em)cruzadas) - Ressacas IX

Ela… penso eu que não sabe, mas a Palmira - essa parte sabe - por onde passa deixa tudo boquiaberto, porque é mais bonita, mais perfeita que a menina do Martins ou será da Martini? Adiante… naqueles dias em que eu ando mais irritadiço ela descontrai-me e sigo-a, vou pela cidade, pelos centros comerciais, vou atrás do seu cheiro, do seu perfume de menina, quer dizer de mulher, daquele perfume que as mulheres lindas emanam. Não vos passa pela cabeça o que eu sinto… mas não estive, nem estarei apaixonado por ela, isto é só uma visão desinteressada, clara e desapaixonada, é?! Ora Porra cala-te! Ou por outra, não penses nisso.
Bom, vou andando por aí a sonhar com o que podia ter sido e que parece irremediavelmente perdido.
Mas tudo isto para falar daqueles machões de meia-idade que se babam quando vêem uma mulher bonita e mandam aquela “bocas” horrorosas que nem piropos chegam a ser!
Um dia ouvi um que até me fez doer a alma. Mas lindo… teve resposta imediata e à altura… tudo porque ela levava aquelas botas até ao joelho, só de olhar até arrepia, estão a ver, não estão?
Pois eu já me arrepiei 2 vezes…
- Oh boa, onde está o cavalo? - diz o palhaço.
- Está a dormir com a puta da tua mãe. - Responde a Palmira com uma elegância digna de uma Deusa.
Depois, acho que ele não gostou e tentou, tentar tentou… ir atrás dela, mas não aconteceu porque eu, EU, estão a ver, tipo super-herói, saí da sombra vindo do nada, vindo da penumbra, sem ela a donzela perdida e insegura e frágil, sem ela se aperceber… fui defender a minha donzela, a minha… - eu não estou a dizer isto, ela odeia-me e eu também, ih ih ih - a minha amada.
O que aconteceu a seguir? Aconteceu o incomum, não o normal, mas sim o incomum, o oposto do que acontece aos príncipes que defendem as donzelas… Ali era cada salto que dava, era cada estalo que levava, mas fui firme nas minhas convicções de defender a minha… ok, percebem, e continuei com fé a defendê-la com… pois, em vez de unhas e dentes, muita cara negra. Fartei-me de levar porrada, mas como diz o povo, quem corre por gosto não cansa e lá continuei todo marcado, parecia o mapa mundo com a Austrália bem vincada no meu olho direito - nem parecia a Austrália, pois sempre tive em conta que a Austrália é um país aberto, mas estava demasiado fechado, mas fazia jus aos aborígenes - negrinho da silva.
Teria muito para falar da Palmira e teria muito mais se não tivesse sido estúpido, tivesse, claro, tivesse e sou, mas tenho de aprender a viver com isso e com a minha estupidez mental, mas porque hei-de eu de me preocupar? Mesmo assim tenho uma bela dádiva, duas, claro que são duas, morar no prédio dela… e ela, ao que sei, não namorar com ninguém, pelo menos que eu saiba, que eu veja, que isso transpire para a minha imaginação.
Eu sabia… desde aquele dia, daquela tarde, que a bela Palmira, que de parva não tinha nada… desbravava terreno para a pancada final e que pancada… já durava há dez anos, dez longos e horrorosos anos... dez anos é mesmo muito tempo para uma vingança.
Ao mesmo tempo que penso nisso, assola-me um sorriso… um sorriso malicioso, não malicioso, um sorriso sacaninha, adoro sorrir assim, sinto-me o Harrison Ford da Picheleira, uma espécie de Teresa Guilherme, mas em versão masculina e não tão minimalista.
Lembrava-me… Ah! Porra… já me esquecia do envelope que a mãe da Palmira me veio entregar, pois era a mãe da Palmira, chama-se Dona Henriqueta. Diz o envelope: para o Sr. Vasco, esse sou EU, que coisa tão formal, deve estar alguém para morrer, além do envelope ser estranho, também estranhei o pedido da Dona Henriqueta, se tinha um “guronsan” que lhe dispensasse, que raio de coisa para dispensar! Mas antes isso que um par de cuecas ou peúgas, não que não emprestasse ou que o pedido fosse insólito ou descabido, mas é que as peúgas que por aqui coabitam comigo parecem mais daquelas coisas que as mulheres usam nas aulas de aeróbia. Nunca percebi porquê, porque usam elas aquelas meias, deve ser por terem frio nos tornozelos, mas enfim. As minhas peúgas são assim um enorme buraco, uma imensidão de vazio, talvez por isso o cheiro nunca se pegue às meias, fica logo directamente ligado, em união de facto, aos ténis ou aos sapatos, nada de muito importante, mas muito mau cheiroso, o chamado pivete infernal. Aliás, se fosse realizador de cinema adoraria fazer um filme que se chamasse “ O Pivete Infernal, smell mortal”, para aí com o Norris, o Caldo e com o Estaladas, o Silvestre… não o gato.
Mas aquele pedido é estranho, muito estranho, a Dona, a mãe da Palmira, é abstémia, creio eu. Nestes dias de hoje é melhor não dar nada por certo… também acho que não fuma, para que quereria ela um desintoxicador etílico, ou por outras palavras, um tira ressacas, um amigo inseparável?
Mas teimo sempre em pensar atrasado, em não me lembrar que poderia ser para outra pessoa, pois claro, para a Palmira. Eu sei que é de propósito, não podia mesmo por duas razões, a primeira porque não devo pensar muito nela, porque não devo, porque me faz mal e além do mais faz-me calos na mão esquerda. A outra razão é que se andou na borga poderia ser pela mesma razão que eu, uma despedida de solteiro ou coisa do género… Estou ainda na escuridão, tudo muito escuro e enevoado em relação ao que aconteceu no dia anterior, não faço a mínima ideia, nada de nada, “rien de rien”, estou na perfeita amnésia, só mesmo palpites, mas tudo menos tripla, empate também não dá jeito nenhum, o que dava jeito sei eu o que era!? Mas não tenho a mínima hipótese… isso é que era bom.

Apeteceu-me


"Nem sempre o primeiro olhar é o primeiro amor" Charles de la Folie

terça-feira, junho 08, 2010

Vidas (Em)cruzadas) - Ressacas VIII

Mas… a pequena mentira que mudou a nossa vida para sempre, espero que para quase sempre, porque ela é uma excelente amiga, aliás ela e o Pilitas são os meus únicos e verdadeiros amigos. A Palmira, mesmo sem me falar, tem demonstrado isso, eu sei que a maior parte dos fracassos amorosos na minha vida têm a ver com ela - para meu bem, claro! Ela considera - penso eu - que é um sofrimento estar mais de uma semana comigo, que eu não sou homem para grandes voos, que gosto mais de planar nas minhas idiotices.
Tanta conversa fiada, a minha inocente mentira que levou ao descalabro da nossa forte - como betão - e duradoira relação, foi num dia em que sonhei com ela. Sonhei que, como posso explicar isto… que ela me tinha dado um beijo, e depois a coisa foi-se complicando, fomos fazendo coisas que hoje são ridículas e que me fazem corar mas… naquela altura com 14 anitos, faziam-nos muito bem ao ego. Olha, outra coisa para tentar descobrir, alguém aos 14 anos tem ego?
Mas esse sonho foi, para aquela altura, uma curte e uma heresia. Seria uma heresia ou um contra-senso? Talvez, quem sabe?
O que eu sei é que acabei, acabei e acordei todo molhado e só depois…. depois descobri porquê… Ah pois, lembro-me de acordar todo pegajoso ali, na zona do pirilau, e não percebia nem a razão, nem o porquê. Lembrava-me do sonho e lembrava-me de ter tido umas sensações estranhíssimas, assim como se fosse uma sensação de absorção, só que para fora - pois, a cabeça ainda não está a funcionar muito bem, mas já melhorou substancialmente -, mas uma excelente sensação. Olhei para a cabeceira não vi lá nenhum pacote de iogurte, não tinha comido nada com creme que me lembrasse, sei lá…
Foi mesmo um sonho fabuloso, dois protagonistas… disso lembrava-me muito bem mesmo, Eu e a doce e linda Palmira.
Bom… a história daquele creme ou liquido pegajoso… eu quis tirar a limpo, é claro que quis, mas era meio complicado perguntar uma coisa destas à minha Mãe, porque… acho que ela iria sempre perceber e perguntar-me como foi, se fosse ao meu Pai já estava a ver o número:
- Pai!
- Sim, filho.
- Sabes, acordei pegajoso hoje na cama…
- Hum… isso parece-me interessante. Lembras-te daquela vez na Ericeira?
- Sim, pai.
- Pois, lembras-te do nome daquela loja de chapéus-de-sol?
-Sim, pai.
- Pois, filho, já fizeste os trabalhos da escola?
- Sim, pai!
- Então… porquê filho?
- Porque sim pai (devo ser estúpido).
- Diz filho?
- Nada pai!
Fiz-me à pista e fui para a escola. E sabem o que aconteceu?
Pois, o que fiz lá na escola… é aquilo que nunca se deve fazer a uma rapariga.
Que se roube uma ideia a um amigo e se vá para a escola dizer que a ideia é nossa, que se consiga dizer mais rápido que essa ideia é nossa, que tens umas ideias brilhantes, mesmo que depois não as consigas pôr em prática e vejas depois esse amigo que deixou de falar contigo, cheio de amigos novos, porque se tornou o “idiota” da escola… Isso é uma coisa feia, é verdade, muito feia mesmo, mas acaba por passar sem grandes danos morais, pelo menos é o que eu penso.
Agora, sonhares com uma rapariga, não perceberes bem o que se passou, sabes que aconteceu ali uma mutação qualquer que sujou os lençóis, e depois ires dissertar para a escola onde reúnes com uma assembleia notável e contas a história, neste caso o sonho, como se fosse a mais pura das realidades… Isso aí… penso que é já muito complicado… Agora penso, mas apreendi a lição!
Não me lembro já bem como foi, mas foi mais ou menos assim:
- Sabem?! Ontem estive com a Palmira.
- Ohhh, então? (em coro)
- Nem sabem o que aconteceu!
- Conta…. (em coro)
- Estive com a Palmira, e…
- Foi?! E? (em coro)
- Nus.
- Nus?! (em coro)
- Sim, e foi muita bom, até deitei… sabem…. não sabem?!?
- Ah... vieste-te? - diz um ou uma mais esclarecido ou esclarecida.
- Vieste-te?! (em coro)
- Sim, vim a pé, como é normal, o meu pai tem o carro na oficina.
- (riso geral) Ah ah… maganão, conta lá, não disfarces - diz o mais esclarecido.
Claro que fiquei vermelho, mas não me descaí.
- Sim, sim, pois claro e depois, sabem… foi sempre a abrir…
- E a Palmira? (pergunta geral)
- Ela? Ó pá, estão a ver, a coisa foi de tal maneira que ela nem se apercebeu. (evidente foi um sonho)
- Ela deve ter gramado? (pergunta geral)
- Pois, até já nem era a primeira vez…
Mais conversa, menos conversa foi isto que se passou, de um sonho para a realidade, da realidade para o boato, do boato aos ouvidos da Palmira foi um tirinho, pior, muito pior que isso… Tenho quase a certeza que ela estava no meio da RGA (Reunião Geral de Alunos) e que foi daquelas vozes isoladas que gritava lá do fundo:
- E depois, conta!
- Como foi? Tem cabelos nas pernas?
- Eh! Homem valente, deste-lhe a valer.
- Como é a tranca, vale a pena?
Como de parva a Palmira não tinha nada, nem tem… ela estava era a desbravar terreno para a pancada final, ela queria mesmo que eu fosse o mais longe possível, aliás queria que eu me enterrasse o mais possível, ela era meticulosa, cerebral. Eu hoje penso e sonho que se não fosse aquela estupidez de «cachopo», penso, quero, desejo e sonho que ela devia ser fantástica a todos os níveis, desde passar a ferro, a cozinhar… Tem um ar de quem deve fazer umas sopas substanciais óptimas, deve ser fenomenal a espancar os tapetes, deve varrer o chão de uma maneira assombrosa, bom o resto nem vos conto, não posso, quer dizer poder posso, mas será que quero?
Claro que quero, a Palmira é linda, escultural, olhos cor do mar, esverdeados, cabelo russo, não loiro, mas russo, queimado do sol, tem para aí 1 metro e 78 e não é magra, nem forte. É um espanto, um espanto de mulher!
Apeteceu-me


"O gosto por sorrir é tão forte como o desejo de o fazer" Charles de la Folie

quarta-feira, maio 26, 2010

Vidas (Em)cruzadas) - Ressacas VI

É verdade que o casamento tem coisas boas, lembro-me da parte em que há os comes e bebes… depois vêm os envelopes cheios de dinheiro. Lembro-me da parte do truca truca, lembro-me também da parte do truca truca, há aquela parte do truca truca muito boa, há aquelas novas técnicas do truca truca, enfim, o casamento resume-se ao truca truca e a novas técnicas de truca truca e dinheiro - cash muito cash! Mas claro, esta não é a minha ideia do casamento, esta é a parte que me assusta menos, a parte que mais vontade me dá de rir, em que não costumo dizer nada... em que não digo mesmo nada, será que havia de dizer alguma coisa? Pois claro! Eu sei que esta não é uma ideia minha pré-concebida, mas é uma ideia e isso até que me deixa feliz.
O que não me deixa nada feliz, é ter de descobrir as alianças, aquelas alianças que nem eu próprio sei se existem. Isto é tudo um mero exercício de memória, ou por outra, de me “desressacar”, de ver se a minha amnésia etílica se vai embora de vez e se descubro e me descubro. Se sei mesmo o que vai acontecer hoje, se é que vai acontecer alguma coisa, até pode ser que não seja grande coisa, que afinal seja uma festa normal. Só não entendo nem percebo o porquê, se era ou se seria uma festa normal, o porquê de termos contratado aquelas senhoras menos sérias, só se foi um fetiche… Será que já disse que adoro mulheres que se riem, não que sejam menos sérias, mas que se riam?! Adoro um belo sorriso, adoro sentir um belo sorriso a roçar-me pelos lábios, a acariciar-me a alma…
Calma, calma lá aí, concentra-te… Há alianças ou não? Isso é que importa, o que importa é o que vai ou não acontecer daqui a umas horas, ou quem sabe minutos, será que a trupe do croquete vai atacar, será?
Eu estou cheio de dúvidas, muitas dúvidas sobre o que se está ou vai passar, não me lembro realmente das alianças, não me lembro sequer se o Pilitas tinha namorada ou não, neste caso noiva. O meu consolo continua a ser o Cão Guru, que se mantém a fazer asneiras atrás de asneiras, o que além de normal e habitual, dá saúde e faz crescer, diz o povo e … lá terá de ser verdade!
A campainha? Quem é, quem será?! Espanto! Olha quem é… é a vizinha do 5º C, nem me lembro o nome dela, estou mesmo com mau aspecto, com aqueles olhos número 39 de goraz com 15 dias de frigorífico. Toma lá dois beijos a ver se acordas, eh eh…
A vizinha presenteou-me com dois beijos e deu-me um envelope branco e ri-se de uma maneira, está feliz, muito feliz, a julgar pelo sorriso e riso.
Estranhíssimo este envelope branco!
A minha vizinha do 5ºC diz-me qualquer coisa, mas não me lembro o quê, nem mesmo o nome… mas, tenho a certeza que a conheço muito bem, se há uma coisa que me lembro dela… é da filha… ai se me lembro, nem vos conto, é a minha “amiga” Palmira. Já vamos à Palmira… porque… havia a mãe da Palmira de estar a rir ao entregar-me aquilo e não se explicar? Pudera!! Só agora deparei com este pequeno, mas importante pormenor, um ridículo, caricato e grotesco, além de desencorajador pormenor, diria mesmo uma vergonha… uma enorme vergonha! Ruborizei, quer dizer fiquei de todas as cores, todas mesmo e só agora percebo que estou como Deus me trouxe ao mundo… Nu! Completamente nu! Que desgraça… admiro a coragem da Dona Henriqueta, a minha sorte é que ela é pitosga como o raio e pode ser que...
Nada que mais me aterrorize, que pensar no que poderia ter acontecido comigo, ficaria vermelho, verde, esbranquiçava...
Conheço-a desde pequenino, este apartamento era dos meus pais que mo ofereceram quando decidiram por cobro à vida. Cobro como quem diz… não se suicidaram, acabaram foi com o cordão umbilical, desapareceram, ofereceram-me o apartamento e disseram-me:
- “FILHO! É HORA DE TE DESEMERDARES, ESTAMOS FARTOS DE TE ATURAR, ÉS UMA MELGA DO PIOR.”
Não se suicidaram, é obvio que não, mas puseram cobro à vida de tormenta que tinham comigo, diziam eles, claro!
É evidente que, depois daquela conversa, nunca mais fui o mesmo, lembro-me de começar a frequentar a minha Psiquiatra, lembro-me perfeitamente, como se fosse hoje… Ai, ai a Dr.ª Mónica ainda hoje diz que não tenho grandes melhoras, que estou mais refinado, mas que sou um verdadeiro e grandessíssimo filho da mãe.

Apeteceu-me


"Nunca é certo o regresso para o jantar, mesmo que a fome aperte" Charles de la Folie

terça-feira, maio 18, 2010

Vidas (Em)cruzadas) - Ressacas V

(...) Pois, vamos é muita gente… e bem que precisava de ajuda… mas devia ser feminina, sabe-se lá porquê…fica-se já a saber… É mesmo a confusão que vai neste quarto.
Primeiro ponto, onde poderão estar escondidas, enfiadas as ditas alianças?
Segundo ponto, como poderei eu encontrar alguma coisa nesta pocilga?
Terceiro ponto, será que ando à procura de alguma coisa? Refazendo a questão será que existem mesmo alianças?
Começo pelo último ponto, espero bem que existam, espero que existam e que não as tenha perdido, ou espero que as tenha comprado ou que as tenha ido buscar.
Sei lá… mas também não é nada de muito complicado, nada que não se encontre em dois desses bolos da moda cheios de chocolate, ou num Hambúrguer de marca “roskof” de um qualquer país avançado, ou duas anilhas da sanita, qualquer coisa do género… Aliás, tenho ali umas argolas, nos cortinados que a minha mãe me deu, que servem na perfeição. Mas se acontecer o pior logo penso em algo. Vou então voltar ao princípio.
- Primeiro ponto, há naquilo que a minha vista pode alcançar, um amontoado exorbitante de coisas neste quarto, coisas do pior a roçar o bizarro, bizarrias portanto. Que coisa complicada, como vou achar algo neste quarto?! Acho que aqui não encontrava nem uma vaca, quanto mais duas peças delicadas… Só me interrogo onde podem estar, sim onde, digam-me!?
- Segundo ponto, que tem directamente a ver com o primeiro, aquilo é uma pocilga, para não falar do cheiro nauseabundo a “sarro”, um cheiro bêbado, ou por outra, um cheiro a bêbado. Sei lá, cheira a mim que tresanda, está lá o meu cheiro… mas o grave é que não o consigo suportar… Socorrooooo! Basta soprar para a palma da minha mão para descobrir o belo hálito que habita dentro de mim. Além desses cheiros… são camisas, camisinhas, calças, calções, t-shirts, swet-shirts… Sei lá, uma panóplia de roupa acumulada, amontoada há mais de 3 meses, sim 3 meses! Estão ali umas calças de ganga que se põem de pé, só falta dizerem papá e mamã.
Vai ser bonito, vou parecer o Indiana Jones da Buraca, no “Quarto das alianças perdidas”.
O pior é que se não há alianças, temo mesmo o pior!...
A história das alianças está-me a assustar, aliás tudo me assusta neste momento, confesso. Assusta-me o facto de me assustar, mas é evidente que há coisas bem piores, muito piores. Essas não me assustam, horrorizam-me, deixam-me num estado de demência latente e condizente com o meu aspecto, eu sei que sou o pior delator da minha pessoa… eu sei disso! Também sei que não sou assim tão imperfeito, que até tenho algumas qualidades, que até sou inteligente, que até tenho alguma graça, aliás tive uma que era mesmo uma gracinha, só era pena que fosse sobrinha do padre - liberta-se um imenso sorriso naquela altura… de orelha a orelha!
Há uma coisa que eu não compreendo, porque será que os padres têm sempre uma cunhada que vive com eles, a cunhada e a sobrinha? É quase como perceber porque vão sempre duas raparigas à casa de banho, pois não entendo nem uma, nem outra.
Mas, deixando para trás estas minhas dúvidas… agora tenho de me concentrar no meu pior receio, as alianças que não encontro, mas o meu pior receio, é mesmo…
Será que o Pilitas vai casar?
Porque razão irá o Pilitas casar, alguém me explica?
Terá explicação?
A esta hora já muitos se interrogam: - o que é que este gajo tem contra o casamento do Pilitas? Sabendo eu tão bem que vozes de burro não chegam ao céu, também ninguém vai saber disso, mas se for caso… eu digo que não tenho rigorosamente nada contra o casamento do Pilitas, nada mesmo. Eu tenho é contra o casamento em si.
Irrita-me a ideia de não poder meter as camisas debaixo do colchão para as engomar, de não poder andar de calças de ganga durante imenso tempo e elas ficarem tão sujas que ao despi-las fiquem de pé; encontrar peúgas com 15 dias de uso no congelador; poder colar as pastilhas elásticas debaixo da mesa; poder mexer entre os dedos dos pés e tirar aquela coisa preta e utilizá-la como se fosse rapé… Porra e a Puta da cabeça não pára de doer, será que já disse que quando a cabeça não pensa o corpo é que paga? O corpo uma gaita, a cabeça, como me dói ainda a cabeça, deve ser mesmo castigo.
Só de pensar nestes pequenos prazeres que uma pessoa tem, e só os temos quando somos solteirinhos da Silva! Desengane-se quem pensa que casado consegue fazer tudo como se fosse solteiro, segundo me dizem, pois essa experiência não a tenho, nada fica como no antigamente, nada mesmo… No princípio ainda parece, parece só… andamos tão extasiados, que nem ligamos.
Mas há mais, muito mais… porque terei eu de partilhar seja o que seja com alguém que nem sequer me viu crescer; não é minha amiga de infância; não quer jogar consola comigo até de manhã; que não me deixa ver os jogos da bola; que nem sequer quer andar na Internet a cuscar a vida das outras pessoas - ver gajas nuas -; muito menos ir ao Bar 25 comigo; passear pela sex shop?… Julgo que o casamento é a maior fraude que existe desde que há memória, deixa lá ver desde, desde, desde… hummm… deixa lá ver… pois, desde o “cagar” de cócoras. (...) Continua
Apeteceu-me


"Não está no compromisso assinado a palavra de um homem" Charles de la Folie

terça-feira, maio 11, 2010

(...)As minhas interrogações são como pregos, cada vez que paro para pensar é uma encavadela, parece que levei com uma tábua na cabeça.
- Ó vizinho... Ó vizinho!
Quem é que está aqui agora, que foi, que fiz eu, que se passará, a quem devo eu alguma coisa, que será, que se passa?
- Ó vizinho... Ó vizinho!
Esta voz estridente parece-me a da dona Anunciação...
- Diga minha senhora!
O diálogo promete… ai promete, promete… Ela está com uma cara que até assusta, eu diria mais, está com uma cara que até assusta o medo, meio agoniada, mas não vou desarmar. Este cheiro… sempre que cheiro a noite, pois a noite, cheiro e cheira, arrasta-se comigo e entranha-se… cheira a copos, a ressaca, é enorme o cheiro claro. E ela… mas também caguei, faço o meu papel de “bêbado”, é mesmo esse papel - ainda estou completamente, absolutamente, etilicamente bem-disposto.
- Então diga lá.
- Ó vizinho ouviu o estrondo ontem a noite?
- Qual estrondo?
- Ai que horror, apanhei um susto que pensei logo o pior!
- Dona Anunciação… e era o quê?
- Ai não sabe vizinho, parecia mesmo que o prédio ia cair.
- Ai, sim!?
- Sim!
- E como é isso?
- Eu só me lembro de ouvir um estrondo… E pior, deslocava-se pelas escadas!
Fiquei intrigado, apesar de fingir que… pois… mas não me lembrava de grande coisa!
- Ó vizinho…?
- Sim?
- Olhe que parecia que entrou em sua casa?!
- Acha? Mas o quê?!
- Claro que acho, só não sei como não deu por nada!
- Eu? Não dei por nada!!...
- Olhe que… pelo barulho parecia mesmo o vizinho… a camisa e tudo!!
- Conseguiu conhecer-me pela camisa… só ouvindo?! Desculpe vizinha?!
- Bom, sabe, vizinho, ali a senhora Albana... blá blá blá blá…
Bom dia e um queijo… mas tenho de… até logo minha rica e querida senhora. As coisas que eu tenho de aturar ou as coisas que me aturam! Ainda por cima, não quero… nem quero pensar mais neste assunto. Mas a vida é isto, o que mais poderia acontecer a um miúdo mimado, abandonado à nascença? A minha dose de mimos é fabulosa… Ah! fui mimado sim, pela minha mãe e pelo meu pai, fui abandonado, mas foi pela parteira - caguei-lhe logo em cima.
Sim, sou mimado, faço beicinho, faço biquinho, ah ah ah e faço outras coisas que nem sequer digo, pois publicidade enganosa a esta hora não! Bom, falava de mimos, adoro mimos, adoro ser mimado, adoro adorar…
Mas há ainda no meu meio neurónio muitas incertezas, muitas perguntas e poucas respostas, mas que procuro eu?
Nada de especial, procurava-me, procuro o porquê de apanhar todas as noites uma carraspana como se o álcool fosse acabar, como se fosse a minha última noite. A beber desta maneira pode mesmo ser que consiga acabar com o álcool todo, com shots de tequilla, muito whisky, muita vontade de...
Às vezes até me falta o raciocínio para conseguir exprimir o que vai aqui dentro desta alma, que por certo estará dentro de uma redoma de… humm humm… deixa-me cá ver, formol? Nããã… creolina? Nããã… à pois, devia ter adivinhado, a minha Alma está dentro de uma redoma com muito Jack Daniels e nublada.
Ai… quer ver? Então? O que tem o meu bafo!? Hum!… Quem sabe… claro quem sabe se não é de uma ervita que chegou ontem da sanzala? (Deve ter sido de algum ex-combatente daqueles que têm um grande subsídio por causa dos traumas de guerra, não é que alguma vez tenham visto onde fica a guerra ou pegado numa arma).
Falava de alma, ou estava a falar de Alma, e por alma de quem? Ah… da minha que está em vinha d’ alhos! O que irá dentro… mesmo lá no fundo, da minha Alma? Um Titanic de horrores…
A minha infância terá sido normal? Talvez não, mas essa fica para outro capítulo, o meu problema será amoroso? Será disciplinar? De Édipo… complexo de Édipo - complexo de Édipo quando se sonha que a mãe é a Cláudia Shiffer? Terei sido abandonado em pequenino?
Nããã… acho mesmo que bati com a cabeça no penico, e pior, a minha “namorada” soube disso, uns anos mais tarde, e catrapus… deu-me com ele nos cornos, pois com o penico, raios que o partam ou a partam?!
Cornos?!! Cá está, descobri… Eureka… - quem foi o desgraçado que levou com a maçã na tola?
Ora cornos…, cornos… toiro…, toiro… toirada…, toirada… cavaleiros…, cavaleiros… forcados…, forcados… flores…, flores… casamento!
Casamento. Casamento! Casamento?!
Ai meu Deus! Ai meu Deus, que dia é hoje!?
Eu já vi este número num filme, o número da ressaca, do casamento, da despedida de solteiro… Eu já vi este número, juro que já. Ai a minha cabeça que está prestes a rebentar!
Será que… casamento?
Espera aí?! Serei eu padrinho de casamento?
Será que o Pilitas se vai casar?
Mas não me lembro de nenhuma namorada que ele possa ter, muito menos noiva - a Susana é namorada? …
Ora aqui está um problema que a ressaca arranjou, a ressaca? A bebedeira diria antes, não me lembro de nada e ainda estou ressacado ou será ressecado?
Por mais voltas que dê, não me ocorre nada, se for padrinho por certo terei aqui um par de alianças, hummm… que bonito, um par de alianças!
Alianças?
Ora, deixa cá ver aliança… O que será que diz o dicionário? Hummm, deixa cá procurar, isto está difícil, a cabeça continua a sua aventura explosiva parece mesmo que vai estoirar. Às vezes, mais valia, tipo quando se arranca um dente, dói… dói, mas depois, quando descola da carne, passa com uma velocidade, é um alívio magnífico, mas porque me havia de lembrar agora de dentes, daqui a pouco está a doer e depois são dois problemas. Deixa-me cá pensar e procurar a palavra… que isto está aqui uma baralhação nesta cabecita… Hummm… laralilala, ora aqui está:
- “Aliança: acto ou efeito de aliar; coligação entre estados, entidades ou indivíduos para a obtenção de certos fins; anel de casamento; arco da –; arco-íris.”
Aí está o que é arco-íris, magnífico!
Perguntam-te:
- Então? Tens uma aliança no dedo?
E tu respondes:
- Ó parvo! Não vês que é o arco-íris!!
Ou então…
- Olha lá “meu”, que linda coligação entre estados, entidades ou indivíduos para a obtenção de certos fins que tens no dedo!!
Pior seria…
- Olha lá “Manuel”, mete depressa o acto ou efeito de aliar no dedo que vem aí a tua mulher.
Isto tem muita graça, só não percebo porque não encontro as ditas cujas, será que estão no quarto? Vamos lá procurar, vamos?
(Continua)



Apeteceu-me

"Não tenho certezas, apenas o desejo de as procurar" Charles de la Folie

quarta-feira, maio 05, 2010

Vidas (Em)cruzadas) - Ressacas III

(...)Tive de a agarrar… agarrado e de que maneira, vou chamar-lhe a bebedeira carraça, mas tive de a agarrar em algum lugar, deve ter tido algum objectivo. Afinal, e ao que parece, segundo se diz e se sabe, eu ainda sou dos poucos que pensam que para beber tem de haver duas razões. A primeira e a segunda, sendo que a primeira é por tudo e a segunda por nada, quer dizer se eu fosse de pensar até que arranjava pelo menos mais umas quantas, tipo mais uma. Se o Tico e o Teco estivessem com a sua veia inspirada, diria que para uma boa bebedeira basta uma “boa”, pois uma “boa”, ou muito “boa” razão, ou por uma “boa” causa, ou por uma “boa” zanga, ou uma “boa” discussão, nunca por uma “boa” queca. Aqui passa-se da conta, ai, ai, até me custa a dizer, este dizer é mesmo a admitir, adormece-se e faz-se uma figura medonha… mas muito pior, mas muito pior que a figura que se faz… ai podem crer que é o reencontro… quando se chega ao local habitual e se tem aquela conversa:
- Então?
- Então, como vai isso?
- Então!?
- Então, tudo bem?
- Sim, só os sapatos um bocado apertados?
- E a tua avó ainda é motard?
- Sim. E o teu avô, sempre bateu o «recorde» de comer pastéis de Tentúgal?
- Pois!?
- Sim?!
- Então…
- Então…
- Ok… chau ai…
- Ok, chau… ai… foi muito mau?
- O quê?
- Sabes?!
- Sei o quê?
- Chauzão então…
- Pois correu mal, mas eu safei-me.
- Ahhh... imagina!
- Pois, imagina mas esquece.
- Chau! Ok!
- Chau... fica bem...
Pois e sabem o que é o pior dessa conversa? É que tu sabes que aquela foi a oportunidade perdida. Ela queria, tu querias e agora?
Bom a “estória” mantém-se, eu quero muito, só que ela já não quer nada.
Mais negas, mais desilusões, mais psiquiatras - quer dizer se forem do calibre da Dr.ª Mónica que venham, mas agora tenho de ir mais devagar - mais uma série de interrogações que só as mulheres sabem. Ora Porra!!!
Estava a pensar ligar-lhe, mas agora com este recalco dá-me algum receio. Dá-me?! Não me dá nada, fico com algum receio, ora agora, alguém dá alguma coisa a alguém? Claro, ela devia e deve estar furiosa, aquela noite, supondo, pois claro isto supondo que existiu, teria sido, ou foi mesmo uma noite tramada, levada da breca. Nem sequer quero pensar nela, noite lógico, a verdade é que todos os vestígios são comprometedores. Ai o álcool, mas como diz o Pilitas “mais vale um bêbado amigo que um alcoólico anónimo”, por isso, “toca p’ra diante que já se faz tarde”.
Mas lá está, não me sai da cabeça nem a Puta da dor, nem se terá sido uma noite catastrófica, terá? Terá? Nãããã… nem quero pensar nisso, não é bom pensar nisso, nem devo pensar nisso, mata-me pensar nisso…
Estranho… a porta da rua está aberta, é estranho, muito estranho, porque está a porta aberta? MISTÉRIO… alguém terá saído à pressa ou será que alguém entrou muito torto, muito mesmo? Torto entrei de certeza, essa não era uma dúvida por certo, mas estava com a esperança de que ela não tivesse estado ali comigo… provavelmente trouxe-me a casa, pois provavelmente…
Hummm… Essa é uma ideia fantástica, fabulosa mesmo, podia ter feito uma péssima figura, mas a minha virilidade estava lá presente. Boa… boa… o Tico e o Teco estão a fazer um bom trabalho de raciocínio, lá vem mais uma dúvida, odeio a palavra, mas estou a ser assolado por mais uma dúvida, ou seja: - quando ela me veio trazer a casa devo, claro que devo ter tentado que ela subisse, certo?! A não ser que estivesse ebriamente morto e sem vestígios de poder ressuscitar.
Hummm!!!! Deixa cá por a cachimónia a matutar…
Visto assim à distância, à distância de poucas horas, a coisa deve ter sido engraçada, muito engraçada mesmo. Esta dor de cabeça continua violentamente a aborrecer-me, mas… espero que ela dê uma desculpa… pois espero que ela me dê uma desculpa. Qual desculpa… um desconto, eu preciso é de um desconto, mas já pareço, sei lá quem a tentar adivinhar os meus passos, um verdadeiro puzzle… ai a desgraça, imagino o diálogo:
- Meu amorrrr sobe comigoooo…
- Não! Tenho de ir para casa.
- E, então, esta casa é tua.
- Minha?! Não brinques com coisas sérias.
- A minha coisa é seria demais… a minha coisa… claro o meu amor.
- Vá lá… sobe, estás uma desgraça.
- Qual desgraça?! Eu quero é a tua graça. Vá sobe, sobe, sobe que ficas calada… ou será cansada?
- Não, não tenho de ir, já é muito tarde.
- És o meu amor, minha flor!
- A tua flor vai para casa...
Tipo duas horas depois.
- Acorda e vê lá se não me vomitas o carro!!
- Ahh!… Humm!… Ah!… eu não estava a dormir estava a pensar em ti, pois… na tua graça.
- Desculpas, pira-te, até amanhã...
Bom este pensamento, não dá com nada, dei-lhe o flanco todo, agora ela tinha-me onde queria, bem amarrado aos... pois, talvez nada disso tivesse acontecido, se... pois se... estes ses, que grande porcaria se está a passar comigo, eu não era assim.
Mas esta dor de cabeça não me larga e pior, muito pior e no meio disto tudo o que é certo, o que é realmente certo, é que a porta está semi ou se-mi aberta… que se lixe… e o Cão Guru acaba de me mijar nos pés.
Há quem diga que quando um homem anda em maré de azar até os cães lhe mijam nos pés.
Ora Porra!... Que grande Porra!... Que raio de vida a minha, e ainda é um quarto para as nove, pensando melhor antes fosse um grande quarto para as nove, mas grande não era e as nove não cabiam mesmo no meu quarto, ai não cabiam não! Como diria a fadista, até que a garganta me doa, só que em versão sexo.
Um quarto para as nove… e só de pensar que tenho de ir trabalhar, esse é outro mistério… E… eu trabalho?
Talvez, quem sabe?! A cabeça é que não pára, não pára de pensar, não pára de doer, muito menos pára de andar à roda.
Até que enfim, consegui tirar o Cão Guru daqui da perna, agora o melhor é tentar tomar um banho retemperado… mas… bolas…
É mais difícil do que eu pensava, convinha primeiro limpar a casa, mas como???
(...) Continua
Apeteceu-me

"Perde-se a oportunidade mas ganha-se um principio" Charles de la Folie

terça-feira, abril 27, 2010

Vidas (Em)cruzadas) - Ressacas II


Aquele cheiro, cheiro não, mau cheiro, não me é estranho, seria… seria… ora que Porra, pois não seria… É mesmo cheiro a comida de cão comprada no X-super ou no Mini-super…

E que cheiro aquilo deita, bolas… afinal não é uma ela, muito menos, ok… ok… ok… admito, admito sim que pensei que tinha morrido e ido para um lugar qualquer… Céu não seria certamente e qualquer coisa não bate deste modo… ai bate, bate, tanto que bate que estou com uma ressaca filha da mãe…

Olha, afinal o cão em quem tropecei e que não me lembrava que estava ali, é o Cão Guru, o cão do meu amigo Pilitas! Um moço fabuloso que me acompanhou sempre nos maus momentos e nos maus momentos, pois…porque bons nunca tive, ter tive, mas não me lembro lá muito bem deles, mas também lembrar para quê?!

Lembro-me quando li a primeira Gina, lembro-me, como se fosse hoje, a primeira leitura da Playboy. Ahh! E mais importante que isso tudo, lembro-me como se fosse hoje, do meu primeiro beijo…claro na boca de alguém, alguém não, da minha prima Celeste. Foi lindo! Fui gozado por toda a gente, não é que aquela desgraçada meteu a língua dela na minha boca!? Fui logo, mas logo mesmo sem hesitar, e muito indignado, contar aos meus amigos, colegas e afins… e como devem calcular, fui o gozo de toda a gente na minha escola. Passaram-me a chamar o «Linguado», não é que fosse mau, quem não me conhecesse era enganado pela “alcunha”, porque eu dizia logo: sou o Rei do Linguado, o maior linguarudo da minha rua e transversais e mais uns apeadeiros que não vale a pena citar.

Bom, mas a questão aqui, agora, e no meio desta ressaca não é o Linguado ou mesmo a solha, o problema é o Cão Guru do amigo Pilitas. O que vou eu fazer com esta bestinha, um Grand’anoir, num T0?! Não é bem um T0, mas com ele aqui até que passa a ser um T1… e além do mais é meio complicado, para falar com franqueza, se é que eu tenho alguma - falo de franqueza - acho que comprei ontem 2 quilos da dita… Não me lembro a que propósito o Cão Guru veio parar a minha casa, é que eu e o Pilitas, de vez em quando, passam-nos coisinhas más pela cabeça. Quem sabe pode muito bem ter sido um jogo de lerpa, ou da lerda, ele perdeu e eu ganhei o cão… Pode ter sido uma troca, uma grade de minis ou mesmo um maço de cigarros, quem sabe? Mas quem quer saber? Além de mim!?

Pois, a mim dava-me muito jeito saber, dava-me imenso jeito descobrir. Acho que vou ter um ataque de… pânico.

- Pânico?

E isso é lá coisa que se tenha a uma hora destas? Pode ser, mas hoje não é dia disso, por isso, nicles batatóides, fica para outro dia.

A grande verdade que também me atormenta é que a minha cabeça continua a girar, parece que estou mareado, parece o carrossel da feira ali da aldeia do antipático do carteiro, parece que me enfiaram um capacete cheio de formigas e que me deram pauladas com um taco de basebol ou será de softbol?

Estas minhas dúvidas existenciais matam-me.

Que se dane, a minha cabeça está demasiado gasosa para pensar.

A minha busca pelo “guronsan” vai começar:

- 3, 2, 1… acção!

A cozinha está um nojo, nojenta mesmo…pizza com 3 semanas, ou mais, isto é ser bonzinho, dizia eu, pizza em cima da bancada…

- Olha o que eu descobri no meio do fiambre, a minha querida meia, a minha querida peúga, do meu único par e que já leva 15 dias de uso!

Mas dos «guronsan» nada e da minha cabeça tudo.

E o que faz isto aqui?! Não é que descobri um preservativo? Não me parece que tenha sido usado, mas está aberto, o que se terá passado?

Bom, o meu objectivo é outro. De descoberta em descoberta até à descoberta total, ou procura total, ou final. E ela, pois ela…a minha cabeça está uma confusão, está aquilo a que podemos apelidar de uma grande Merda… Merda?! Não propriamente, mas no estado em que se encontra assim entre o gasoso e o liquido, diria que lhe posso chamar mais de… diarreia… deixemos para lá estes pensamentos de Merda.

É isso… P… preservativo, descoberta, Eureka, Alberta...

Ai que horror, nããã… nem eu vou acreditar nesse número. Não é que seja uma má ideia, mas para o preservativo estar ali, sem ter sido utilizado, quer dizer que a Alberta saiu daqui com uma péssima impressão minha. Pois, ai “jasus”, estou a ficar com afrontamentos, a minha reputação está a ir pelos meus pensamentos abaixo, mas estes pensamentos podem estar, falhados… É isso mesmo, são os perdedores, mas não pode ser! Onde está a minha auto-estima, hum… onde anda a dita, e a impressão da outra!? Com o preservativo assim, acho que a impressão nem foi imprimida, mas sim deprimida, nem quero pensar neste cenário. Nem neste, nem em mais nenhum, não quero pensar, ponto final, mas acho que tenho de o fazer. Será?

Vamos lá continuar a busca… Hummmm… deixa-me pensar, lá tenho eu de pensar, no meio… pois nesse meio mesmo lá está o tubinho cinzento, com letras a branco, que dizem “guronsan”, mas no meio de quê? Agora, ai, ai… imaginem se estivesse vazio, imaginem, mas não imaginem muito, porque não está! Boa, viva, viva… agora meio copo de água, dois comprimidos efervescentes e zuca… para dentro da dita cuja…

- Que maravilha sentir aquelas bolinhas a bater-me na cara… como dizem os Xutos “amas a vida e eu amo-te a ti (guronsan)”.

Mesmo com aquelas bolhinhas milagrosas a entrarem diabolicamente por mim dentro, ou por dentro de mim a uma velocidade alucinante… - imagino-as como se fossem aquelas carripanas que andam no gelo, nuns túneis a velocidades alucinantes até pararem no estômago. Penso que se chamam tabogans, eu disse tabogans e não talibãs, não quero dúvidas sobre isso, não vá atirarem-me com alguma coisa à cabeça, ou talvez fosse melhor que o fizessem. Pois a minha cabeça não pára de rodar, mas mais uns segundos e esta injecção de cafeína que só o “guronsan” tem, torna-me num homem quase novo, quase... Pensando bem, é um alto flash, como diria uma amiga minha – “tu pensares pensas, mas não pensas grande coisa, já que o Tico e o Teco não são muito de se esforçarem”. Tico e Teco, os meus dois e únicos neurónios, segundo ela… pois e quem sou eu para a desmentir?! Digo eu aqui baixinho que ninguém me está a ouvir, quer dizer, digo eu em Grego.

Assim como quem não quer a coisa, o que eu gostava mesmo agora era de um cafezinho, aliás eu injectava-me com a seringa das farturas atulhada de café, mas….

Mas continuo intrigado… se estou com aquela ressaca medonha, se tinha estado ali alguém comigo e eu não tenho muitas bebidas em casa, onde fui eu agarrar esta tremenda bebedeira?

Apeteceu-me
"Nem sempre se acorda no fim de um sonho" Charles de la Folie

quarta-feira, abril 21, 2010

Vidas (Em)cruzadas) - Ressacas I

Está na hora de acordar, são 8 e 30 da matina, este despertador teima em ranger, tinir-me aos ouvidos, tolda-me a pouca sobriedade que ainda me resta, se é que há ainda alguma, mas, mesmo assim, consigo dirigir-me para a casa de banho, mesmo com os olhos semicerrados.
Há aqui qualquer coisa que não faz sentido. Olho-me ao espelho e continuo a dizer que há qualquer coisa que não faz sentido neste cenário meio dantesco, sim meio dantesco, meio qualquer coisa estupidamente terrível. A cabeça parece que vai estoirar, os olhos ardem-me, as pernas bamboleiam, o cheiro a “sarro” parece o fundo de uma vasilha de vinho. É imundo, um cheiro que não dá para acreditar, nem aguentar, eu não aguento, não consigo aguentar o meu próprio cheiro!
Mas a imagem do espelho continua esquisita, mesmo muito esquisita e deturpada, enviesada, está estrambótica ou estrambólica. O que está na boca parece… não parece, é mesmo, uma meia, a mais sublime e proeminente “peúga” do meu pé sagrado, oriunda de uma noite sabe-se lá como… de dentro do meu humilde e sinistro sapato.
Hummmmm!!... Estranho, muito estranho mesmo, uma peúga na boca!? E a outra?! Bom, a outra terei de a procurar se não quiser ir sem meias para o emprego. Emprego?! Será trabalho?!
O que quer que seja não estou na disposição de ir trabalhar neste sábado (mentiria se dissesse primaveril, com muito sol e os passarinhos a cantar), mas… sempre um mas… nestes dias de ressaca. Não sei se trabalho, se tenho um emprego e muito menos se o faço ao sábado, aliás nem sequer me lembrava ou lembro a quantas ando ou andava, a minha gramática não está a jogar na perfeição, tal foi a “tosga”... Nem as janelas abri, nem as persianas levantei, nem os olhos.
Aliás, nem sei se ainda estou a sonhar!
Apetecia-me urgentemente um café, mas antes terei de usar sabiamente, manipular… sei lá bem a definição para esse acto, de usar o bendito “guronsan”. Chamem-lhe o que quiserem, eu vou apelidá-lo de um acto divino capaz de me dar uma visão da realidade que por momentos me parece assustadora, por vários factores.
Primeiro, não encontro a cozinha, segundo, tenho de encontrar os ditos “guronsans”. Porra, o que é isto!? …
(Eis que tropeço no cão que nem sabia que tinha, bato com a cabeça na parede que não sabia que estava ali, e acordo dois dias depois no hospital.)
Era uma sala branca, meio esquisita. Naquele hospital sentia-me nauseado e estranho, aquela sala era demasiado esquisita mesmo para ser uma enfermaria, demasiado “familiar”.
Hmmmm!!… Realmente não me sai da cabeça que já tinham passado dois dias. Descerrei os olhos com uma dor de “cachimónia” infernal, estes olhões verdes, meios esbugalhados a olhar para mim, são uma imagem divina, será um anjo, uma fada, é assim, como se costuma dizer lá na minha terra, “dos Deuses”, mas ia-se fazendo luz, faz-se luz, talvez se faça alguma coisa, será mesmo!? Ao que me discorre destes neurónios tão maltratados, muito mesmo, não me lembro que anjos ou fadas tenham olhos verdes, lembro-me sim que os anjos não têm costas e que não se pode dizer qualquer coisa sobre as fadas, porque morrem, ou será bater palmas?! Devo andar a ver muitos filmes para adultos de meia tigela, pois, porque os adultos de tigela e meia são, pois são, não duvidem mas são, o quê… é que já não me lembro… talvez um dia o descubra.
Há aqui muita coisa estranha, uma delas é, como é que acordo dois dias depois… ainda por cima num hospital, e ainda estou de ressaca? Estranho não?! Até podia ter uma carrada de coisas meio partidas, ou partidas inteiras o que é difícil, mas eu sou o rei dos impossíveis, mas de ressaca ainda…eu apanho ressacas, algumas ainda em andamento, mas assim!?
E esta enfermaria, ou esta sala de operações tem algo de comum com a minha cozinha. Curioso… um bocado de casca de ovo colado no tecto, igualzinha à decoração lá de casa! Como costumo dizer, aqui só falta mesmo o Calimero.
Estou maldisposto, enjoado também, terá sido quiçá de alguma anestesia experimental, terei assinado algum documento que dissesse para fazerem experiências comigo?! Meu Deus, sou um zombie, ajudemmmmmmm-me… calma, calma… vou respirar fundo. Seja anjo ou lá o que lhe valha, a portadora, ou portador daqueles olhões verdes tem um mau hálito, de bradar aos céus, danado mesmo… como diz, alguém que… ok eu já me lembro!(...)

Apeteceu-me


"Os dias apenas passam por nós, não nos matam" Charles de la folie

sexta-feira, abril 09, 2010

"La vie em Rose" VII

(...)Faltava uma prova de fogo: entrar na casa de sempre agora desabitada dela. Pela primeira vez não estava na varanda à nossa espera. Pela primeira vez a sua silhueta – debruçada no ferro que dividia o vazio do ar com o betão do segundo andar – não estava lá. Pela primeira vez engolia em seco aquele desespero que é recordar que nunca mais a vemos. Pela primeira vez aqueles quarenta degraus me pareceram inultrapassáveis. Eram demasiados. O folgo descontrolava-se, o oxigénio parecia escassear naquela subida ao tecto do Mundo. Nunca me tinha apercebido como o mármore podia ser frio. O corpo emudecido e dormente pela gélida subida resgatava todos os detalhes que dela se podiam tirar. Os nomes cravados na parede apenas escondidos pela tinta branca já envelhecida pelo tempo recordavam-me a infância que ali passei. Os amigos com que ali brinquei. Os amores – os primeiros – que nunca sobressaíram. Estavam ali gravados naquela penosa subida. Como sempre a minha irmã desbloqueou o momento na sua simplicidade e na sua eterna grandeza de ver as pequenas coisas, os pormenores. Na caixa onde está guardado o contador da água – recordou-me ela – o que lá costumava guardar. Sabes – disse naquele tom jovem que mantém e que o mármore fez ecoar – aqui guardavas as cobras que apanhas por aí – rematando – eras mesmo parvo. O sorriso libertou-se mesmo sabendo que o dizia há mais de trinta anos da mesma forma e no mesmo local. Era bom sorrir, sentir que juntos podíamos ultrapassar aquele medo do escuro. A chave cravou-se no segundo andar direito daquele prédio da Avenida António dos Santos. Um som cavo e metálico libertou as trancas. A porta abriu-se e uma escuridão abateu-se no primeiro pestanejar. Doeu. (...)



Apeteceu-me

"A ruptura em si não surpreende apenas nos mostra o caminho" Charles de la Folie

segunda-feira, março 29, 2010

La vie en Rose VI

Já em Santarém a nossa amiga médica sugere-lhe comprimidos para as dores. Como sempre teimosa prefere suportar uma dor a tomar um comprimido. Rejeitou-os – fazem mal ao fígado – dizia rabujando, Julieta era assim nas suas convicções. A minha irmã – nas suas convicções e na simplicidade dos seus actos e agilidade de pensamento – em desespero deu-lhe dose dupla de um analgésico. A nossa mãe apercebeu-se e mesmo debilitada ainda tentou bater-lhe. Era assim um poço de convicções que também elas começavam a desvanecer-se. Debate-se agora com a fala: falha. Tem dificuldade em soltar as palavras. Deixaram de ser como as cerejas, como as ovelhas que pastam nos prados improvisados da paisagem da sua janela. O vento já não empurra as nuvens que se formam por cima de si. As figuras tornam-se ridículas e assustadoras. A força do seu sopro já não é suficiente para as afastar. É mais uma aflição que tem de gerir na tão debilitada cabeça. É preciso gerir. As emoções rompem com o corpo e formam um halo que nos segue. Há uma dificuldade extrema em viver os segundos que galgam no tempo, num tic tac constante e espesso. Apercebo-me outra vez que o tempo é contínuo, não pára. Mas sinto-o parado na dor. Abre uma ferida que o polegar do tempo oprime num cinismo descontrolado. Sem pudor. Defendo-me com respirares curtos para que as lágrimas permaneçam no umbral dos meus olhos. Quero olhar dignamente para Julieta, não a posso ver desfocada pelo choro incontrolado que tenho vontade. Vivo numa tortura constante tal é o meu egoísmo. Do outro lado está Julieta num sofrimento evidente, físico e psíquico. Aparentemente aguenta-se melhor que nós. Aparentemente conforta-nos. Aparentemente sobrevive nela o seu sorriso que mascara os esgares de dor. Aparentemente: só isso.
Estou na minha última folha de notas, respiro fundo. Bem fundo onde uma pequena dor parece arrancar-me o estômago do sítio. É desconfortável. Tenho a sensação que a densidade do oxigénio se solidificou. Custa a entrar; custa a seguir o seu caminho pelas vias respiratórias. Algo carrega às pazadas para dentro de mim o ar que crava e grava um ardor à sua passagem. Mais facilmente sai o dióxido de carbono que me deixa descansar naquele limbo temporal entre a vida e a morte. Não é uma expressão dramática ou de dramatismos exacerbados. Nem sequer uma metáfora. É simplesmente um aspecto da nossa sobrevivência. Se ficássemos para sempre entre a inspiração e a expiração sucumbíamos asfixiados com as nossas dúvidas. Na realidade enquanto descrevo o que sinto, não me vejo obrigado a passar os olhos pela folha de letras – certas no seu formato – que me recordam o que não me sai da mente nem por um segundo. É difícil explicar: serenei essas visões, aprendi a viver com elas a toda a hora, mas ainda não recuperei o sorriso. Precisava de voltar atrás no tempo para devolver os sulcos que me rasgam a fronte e recuperar as covas do meu sorriso. Tenho que enterrar o azedo da vida, o machado de guerra, da minha guerra e acreditar como o Carlos Oliveira que: “Não há machado que corte a raiz ao pensamento…”


Apeteceu-me



"Nem sempre descobrimos o que queremos esconder" Charles de la Folie

quarta-feira, março 17, 2010

La vie en Rose V

(...) No meio da escuridão há sempre uma luz que brilha, bem como na solidão há sempre alguém que nos guia. Perco-me nas metáforas neste espaço curto onde me prenderam, agrilhoado pelas palavras e pelas mentiras que dizem sobre nós. Sobre mim. É o que sucede quando me encontro às escuras só; aparece sempre uma sombra que vagueia na luz amiga e protectora que me vai acompanhado e alumiando caminhos tão dispersos como a minha alma que se concentra em ti. É uma vida ingrata, mas batalho contra a intempérie com o conforto que essas armas me dão. Claro. Quem é essa luz e sombra? És tu na tua intermitência, nos teus receios. Sabendo que estás sempre perto também sei o longe que estás. Sei o que o meu coração diz e lembro de como batia o teu. Só isso. Mesmo assim és a única alegria que tenho. São os meus monólogos eu sei mas servem para ir separando os meus medos, as sensações vãs e cruéis que me abafam a respiração e me obrigam a verter lágrimas. Dizimo o ânimo dos meus inimigos no meu subconsciente e vou vencendo as batalhas que me aparecem. Sei que é tudo tão frágil, tão impossível, tão volátil, mas acredito que lá chegarei.

Acompanhas-me nos pensamentos. Ficam mais racionais, mais autênticos com a tua presença. Deixam de ser apenas espirais e círculos que terminam sempre no princípio perdendo-se na sonolência que criam. Basta o vento soprar-te para te ter naquele teu jeito de menina rebelde mesmo que isso signifique apenas o desejo de te ter sempre ao meu lado. Nessa impossibilidade tenho-te em mim. A tua sombra desvia-me da mortandade do meu raciocínio pérfido e repetitivo. Levas-me para longe. Para sítios que acredito que não saibas que existam nessa perfeita ingenuidade. Só sei que me empurras para bons caminhos. Nem a arma carregada que se encontra perto da minha cabeceira me provoca tentações. Um dia sobrevoarei o desejo de mão dada contigo, agora apenas compadeço sonhando-te. Há sempre um braço amigo que me ampara quando me sinto perdido nos momentos mais sombrios. A escuridão da vida pecaminosa que me imputam vacila perante o teu braço. O braço da tua – minha – lei. Esse sorriso dá vida a um moribundo. Essa solidariedade não me deixa sucumbir perante a escuridão onde a tua sombra se move só para me libertar.

Não sei como te agradecer. Como pagar numa moeda plausível e indistinta o alento que me sopras. O pensamento mantém-se longe das mandíbulas que nos trituram o cérebro. Delicadamente afasto esses pensamentos para não te desagradar e assim evito-me. Leio nas nuvens que me envias que o tempo se esgota. Leio que é preciso aproveitar e alimenta-lo com amor. É preciso sentir. Paro de escrever para observar no reflexo da janela esta palavra: sentir. O sentir é mais forte que tudo. Está em nós, na nossa carne, nas nossas cogitações. No choro, no rir, na raiva e na angustia. O sentir aparece como uma flor na palma da nossa mão. Reaparece nos lábios nas palavras de cólera que arremessamos a quem se intromete. Reencarna no silêncio das pequenas agruras existenciais. Na música que nos anuncia a Primavera. No suor de quem trabalha a vida. Mas gosto de sonhar que um dia encostarei a cabeça no teu peito e vou sentir o teu pequeno coração a bater o meu nome. Sinto-o e pressinto-o. Não é só um desejo é também uma vontade. Tem a força de mil homens.

Nestas minhas palavras que se perdem neste papel que um dia irá amarelecer. Vejo-te na imensidão de todo o vazio que varro com o olhar. Apenas te recordo, o pensamento foge, galga barreiras para poder estar junto a ti. Essa saia recortada, essa blusa justa, os caracóis no negro do teu cabelo. Os olhos que sobressaem desse bonito rosto, coroado pelo veludo dos teus lábios. As mãos unidas. Os pés fincados num chão que não vejo. Pois a tua imagem está suspensa no meu respirar. Não te peço – mais – que tenhas confiança em mim. Sei por intuição que sabes quem sou e o que sou. Tens medo e o mundo está a desabar-te em cima. Respiro fundo por ti. Lembro-me do que me disseste um dia: “És pobre materialmente, mas rico de sentimentos e com um coração enorme”. Ainda hoje as sinto aqui dentro de mim. Funcionam como combustível na esperança do dia-a-dia. Sobrevivo com elas. Dedico-me a ti. Suponho-me num precipício onde abro os braços como Cristo na cruz. Pés juntos na fímbria do vazio. Na linha do olhar apenas nuvens que não consigo agarrar. Saboreio o frio que me toca no rosto. Os joelhos flectem-se com o peso da vontade. O corpo eleva-se num tremer descontrolado. Os olhos fecham-se. Flutuo agora numa descida vertiginosa. É minha. És minha. agarro-te antes de acordar desse sonho que avassaladoramente se queria tornar num pesadelo. Apanhei-te e acordei antes de me estatelar no chão. (...)



Apeteceu-me
"Um dia vou descobrir que o fim-do-mundo vive em mim" Charles de la Folie