(…) Ela adorava o campo, aquele verde, o cheiro a manhã, toda aquela zona envolvente onde podia usar de um pensamento, mais que um pensamento… de liberdade.
O seu olhar, um olhar sério, profundo e meigo, de quem ousa andar no limite da vontade, do prazer, do desejo e mais que tudo da felicidade.
Ela era acima de tudo feliz, não se lhe conhece amor, um amor carnal, mas sim vários amores, é verdade que físicos, mas ao mesmo tempo naturais (de natureza), o seu grande amor, aquela pradaria imensa onde podia correr como Deus e a sua mãe a meteram no Mundo, era o seu espaço, seu dela de mais ninguém e a sua vida só dela dependia também.
Quem a viu, dizia que era parecida com o seu pai, de uma elegância estrema, fina, uma coxa alta, um peito de nobre recorte, o cabelo escuro, muito escuro que tapava o seu olho esquerdo, muitas vezes sacudia a sua cabeça para poder olhar como só ela sabia, aquele olhar directo, ao mesmo tempo discreto. Adorava passear perto do lago, onde a só a aragem que corria por aquelas paragens parecia não estar imóvel. Tudo o que por ali se mexia era de forma tão perfeita que parecia um quadro, uma aguarela acabada de pintar, parado, imóvel, mas não morto. Por vezes via-se os peixes quase com a sua cabeça de fora, como a conversarem com ela, passava por ali horas sozinha, junta com a natureza, a sua natureza… uma natureza quase utópica, mas era a sua.
Ouve um dia, que esteve quase a ser apanhada na teia da rotina, do dia a dia, esteve perto de se deixar apanhar pela inveja do homem, a sua resistência naquele dia, a sua confiança esteve perto de desvanecer. Sentiu o cheiro a queimado, aquele cheiro que lhe chamava a atenção e que lhe despertava instintos, viu as chamas e fugiu, fugiu para longe, para muito longe, para onde o horizonte era desconhecido, mas que ainda lhe pertencia….estava assustada muito assustada e ai quase perdeu tudo o que tinha, tudo o que a definia, a sua liberdade, a sua vontade de ser, de existir pelo prazer disso mesmo.
Perdeu-se nos seus pensamentos, no medo, no próprio medo, pavor do que estava a acontecer, medo de perder a sua preciosa liberdade.
Ela era linda, muito mesmo, o momento… em que parou de fugir foi magnífico, parou, rodopiou sobre si mesmo.

Foi ali que olhou para trás e percebeu que não podia fugir.
De uma vez só, começou um galope estonteante, a sua crina solta esvoaçava por cima do seu negro dorso e quando chegou relinchou forte para que todos ouvissem que era livre e que nunca ninguém se havia de apoderar dela ou do seu dorso.
Apeteceu-me
“A chuva molha, mas a água mata a sede” Charles de la Folie




