segunda-feira, abril 17, 2006

Ruído




(…) Era um pequeno barulho. – Esquisito, ninguém conseguia descobrir de onde ele vinha, um pequeno barulho que por muito pequeno que fosse, era, existia, estava ali.
Engraçado como um pequeno ruído, um pequeno carpido poderia incomodar tanto.
Sentado no chão com as mãos no rosto, os indicadores a pressionarem as fontes, o queixo sobre os polegares os restantes entrelaçados sobre o nariz, de olhos fechados, concentrava-se naquele estrupido.
O som, perante tamanha concentração, convergia como se fosse uma enorme massa para um só ponto, e não de um só ponto para a massa, para ser processado e conhecido, descobrir a sua origem e anulado, mas não.
Aquele pequeno som, aquele ruído, tornava-se agora num pesadelo que entrava pelos canais auditivos e inundava um corpo que tinha sido tomado, por algo insignificante. Agora conseguia quebrar toda a concentração, pior, agora quebrava-o, entrava a uma velocidade alucinante, percorria-lhe o corpo, derrubou-o.
Estava agora deitado no chão, com os joelhos junto ao peito, mãos sobre a face. Todo o rosto parecia estar a ser esmagado, por algo que não se compreendia, a sua pele parecia estar a quebrar, a abrir brechas e a expandirem-se rapidamente soltando raios de luz encriptados com gemidos de um corpo a rasgar-se.
Lentamente, algo se esvaía naquele centro de qualquer coisa, aquele corpo já não pertencia a nada, nem nada lhe pertencia a não ser aquele som que se transformou num enorme e poderoso ruído.




Num último esforço o corpo tentou repelir, todo aquele mal foi um acto de grande coragem, e sem destemor começou uma luta ilógica onde a coerência deu lugar a audácia e assim foi…
Numa fracção de qualquer coisa temporal, descobriu-se que o som nunca existiu.
Aquela imagem foi-se desdobrando vezes sem conta, multiplicando por aqui e por ali a velocidades nunca antes imagináveis. Talvez por isso um dia quando percorria aquele corpo fragilizado, percebesse que o prazer tem cores que se misturam com os sons.


Apeteceu-me

"Os sons muitas vezes não são mais que imagens de ilusões". Charles de la Folie

segunda-feira, abril 10, 2006

ESCURO





(…) Escuro, muito escuro. A escuridão que estava dentro daquele buraco contrastava com o dia, um dia muito claro, com o Sol bem espetado lá em cima a apontar para meio Mundo. Naquele buraco a opacidade cegava, como raios negros oriundos de um sítio onde ninguém lá conseguiria chegar.
Lá no fundo onde o homem não ousa chegar, os animais e o seu extinto não se atrevem a aproximar, há qualquer coisa de diferente.
Basta espreitar e lançar a força dos nossos sentidos, deixar o nosso espírito percorrer aquele caminho que ninguém conhece.
A velocidade a que percorre aqueles túneis é alucinante, as voltas, as espirais, corre, circula. Todos os palmos daquela escuridão sem fim a vista, são preenchido pela velocidade, pela rapidez e ligeireza de um pensamento.



Uma ideia sem razão está na origem daquele caos de entendimentos, mas é dado o máximo para chegar a um ponto. Mesmo que aquelas curvas, os loopings seguidos de curvas apertada a quase noventa graus, onde as subidas precedem as descidas e as descidas precedem-se a elas próprias, onde o ritmo nunca abranda, e os abrandamentos são constantes actos de cobardia. Os saltos sobre os precipícios são constantes e ininterruptos, vezes sem fim, onde o pensamento sai sempre iludido com circuitos fechados de imaginação, onde as alucinações são mutantes e rápidas e precedem sempre as vontades de nada acontecer.
A viagem continua, rápida e sem destino, em direcção a nada por enquanto, a rapidez é a palavra-chave, mas a chave de tudo continua ainda sem razão e sem gerência.
Mas a lá vai percorrendo aqueles corredores sem morte aparente, mas também sem vida alguma para poder perecer. Fogo, muito fogo rastejante como uma mecha, é a combustão de um espírito sem corpo, de uma alma, sem rumo de um pensamento sem dono.
As repetidas passagens deixam os rastos baralhados, quase que não se seguem nem sossegam, perdem-se em lado algum, perdem-se por ai. Esperam que algo aconteça mesmo que isso nunca aconteça. É tempo de parar.
E ai a calma fica, o silencio de nada, nada mesmo, parou…
Nada se sente, o próprio sentimento, está congelado, imóvel. Não há ruído, não há nada. Há paz de espírito, é nessa altura, que recomeça o salto no infinito a procura de um nova razão, de um novo percurso.



Apeteceu-me

"Nem sempre os caminhos são para serem percorridos". Charles de la Folie

segunda-feira, abril 03, 2006

Ela – Insónia





(…) Bastava olhar para Ela para perceber que, não era mulher para mim, mas lembrava-me sempre das palavras sábias de um amigo quando tínhamos 18 anos:

- O não é certo, esse é garantido.

Olhar para Ela provocava-me doses exacerbadas de sensações compulsivas, se é que isso se pode dizer. Era um misto de revolta que me angustiava e de um sentimento de perda, o corpo contrai-se e por vários minutos assim ficava. Era uma verdadeira tormenta olhar para Ela. Por varias vezes tentei traduzir o que via, mas era quase, para não dizer impossível.
O seu rosto não muito cândido, mas de uma enorme pureza, mesmo que aquele sorriso de difícil expressão pudesse ser entre o cínico e o ingénuo, era difícil estabelecer a fronteira, da mesma forma que é difícil entender e perceber uma mulher.
Os olhos, lembravam-me amêndoas doces, de um castanho avelã onde o brilho lhe acentuava a Alma. A definição do seu rosto era de alguma forma acentuada pelas maçãs de rosto, demasiado bem delimitadas, pelo contorno do seu nariz. Um nariz de fino recorte, um tudo ou nada levantado, umas narinas que abriam lentamente no seu expirar, eram pequenos sinais se quem sabe estar na vida e no amor. Uma boca de lábios delicados, carnudos mas de traço fino, de um vermelho prazer, de quem está prestes a ter um orgasmo. O cabelo de um castanho muito claro, que os sol realçava, cortado de um forma estranha, mas que lhe assentava de uma forma quase magnifica.
O pescoço, fazia-me sonhar, com noites de carícias, de poder utiliza-lo para meu belo prazer, para poder descobrir cada poro, cada sinal, cada milímetro de pele que espelhava, sentir-me naquele colo eternamente.
Tentava não sonhar com o que restava, davam-me arrepios só de pensar, que o poderia imaginar, aquele corpo despido só para mim. Mas era quase irredutível, não pensar que o poderia sonhar, desenha-lo na minha imaginação só com cores sóbrias de ternura, mas garridas de paixão.
Mas conseguia descobrir a sua silhueta através das roupas que usava, roupas sensuais, não muito justas, mas que pactuavam com a sua beleza e com a sua enorme ousadia de ser linda.
Ela, era tudo o que sempre sonhara com alguém, foi assim que a perdi e que me senti perdido.
Aquele não, que Ela nunca me dissera, também esse ficou perdido por ai, nalgum quadro pintado por mim numa noite de insónia. O sim esse casei-me com ele e com Ela, mesmo que ainda hoje não entenda o significado daquelas sensações compulsivas, de uma revolta angustiante.




Apeteceu-me


"A beleza pode ser um entrave" Charles de la Folie

segunda-feira, março 27, 2006

Onde… ir.




(…) Quando terminou de subir as escadas com um gesto decidido pousou a mão sobre a maçaneta da porta, feita de madrepérola e com um gesto do pulso rodou-a para a sua direita. Devagar, muito devagar empurrou aquela enorme porta de carvalho maciço, pesada muito pesada. As suas dobradiças já com muitos anos rangiam como se gritassem uma ladainha de uma qualquer carpideira num pranto sem destino.
Era difícil, mas não impossível fazer com que aquela porta ficasse pelo menos com uma brecha com que a pudesse passar, transpô-la para o outro lado, um lado desconhecido e sem propósito aparente.
Estava escuro, sentia-se o cheiro a humidade, havia sons, pequenos sons num silêncio quase intransponível, a meia altura numa parede de caliça estava um interruptor muito antigo, feito de porcelana. A alavanca, não era uma alavanca, mais parecia um pequeno osso que se girava. Podia-se quase ouvir a electricidade em movimento naqueles fios antigos, um pequeno estalido naquele interruptor quando suavemente entre a porta e o desconhecido se dispões a rodar aquele interruptor. Não foi imediato, durou uma fracção de segundos, sentiu-se a electricidade a percorrer aqueles fios ainda feitos de um só bordão.
Naquele instante ficou um cheiro estranho no ar, um cheiro agressivo, que a velocidade da electricidade foi queimando até chegar ao seu destino depois de rodado o tal botão feito de cerâmica.




Era um balão enorme, transparente, cheio de filamentos, era uma lâmpada estranha, aquela que ali estava bem por cima da sua cabeça. A sua luz também era muito diferente das lâmpadas que conhecia, era uma luz amarelada com pouca intensidade apesar da imponência do seu tamanho, uma luz que pouco ou nada iluminava.
Demorou um bocado a habituar-se aquela luz, ou por outra, aquela escuridão, os seus olhos, de um castanho quase negro, brilhavam… brilhavam a procura de algo que não conhecia, estava a procura do desconhecido era a primeira vez que por ali passava ou que tinha curiosidade de ali ir, sabia que no cimo daquelas escadas havia uma porta, sempre soube mas ao longo dos anos nunca teve apetite de lá chegar. Os anos aguçaram-lhe a apetência. Sempre foi assim com tudo, só 10 anos depois é que descobriu que as broas da sua Avó eram angustiantes, como uma droga, imparáveis de se degustar, andou uma vida inteira para descobrir os deleites de andar de bicicleta.
Ali estava parado, entre as escadas, uma porta entre aberta e o desconhecido.
Deu dois passos em frente, enfrentou a escuridão, descobriu um novo interruptor feito de cerâmica com um botão giratório que mais parecia um pequeno osso, girou-o, sentiu um leve clique era ali que deveria parar, engoliu em seco, respirou fundo, fitou a escuridão que o desafiava, ouviu novamente o percorrer da electricidade, sentiu um enorme deja-vu…

(…) Estava enfiado num enorme corredor como quem está dentro de um colete-de-forças.

Apeteceu-me

"Ainda que em sobressaltos o desconhecido sabe bem". Charles de la Folie


terça-feira, março 21, 2006

CORPOS




(…) Ali a respiração esbarrava na solidez do ar que o rodeava. Estava um dia lindo. Um rapaz com os cotovelos apoiados no mármore que rematava aquela varanda, olhava para além do horizonte. Via-se no fundo dos seus pensamentos, dos seus sonhos da sua imaginação, conquistava ai os monstros que no dia a dia o venciam.


(…) Do outro lado do mundo, uma rapariga deitada sobre si, sobre os seus cotovelos, apoiava aquele queixo frágil de traço único sobre aquelas mãos delicadas, com unhas que cegavam com o seu brilho. Uma espécie de fio da navalha que encandeia ao sol. Ela com um ar descontraído olhava para um quadro, uma paisagem de um horizonte longínquo, de um pintor desconhecido mas que emoldurava a sua maneira de pensar e de sonhar, um traço único de uma rapariga que nunca conheceu a vida, a dura vida que acreditava existir num qualquer local longe daquele quadro.


(…) Algures num qualquer recanto de um pais atravessado pelo Equador, uma criança saltava sorrindo atrás de uma miragem que nunca conseguia alcançar. Cada vez que parava, via-a, olhava-a, pensava e sonhava que um dia ia ser como a miragem que desconcertava a sua imaginação e descontrolava todas as manhãs o seu acordar. Ali o Sol era como a chuva, chegava de uma forma arriscada e inexplicável, tal como os sonhos.


(…) Sentia todo o corpo a congelar, mas a sua curiosidade era mais forte que a dor. Dor talvez fosse forte de mais para explicar a sensação de andar perdido no gelo, na neve do fim do mundo. Ali o branco coincidia com a absorção dos dias complicados que passara na grande cidade, como um mata-borrão. Consoante o frio se apoderava do seu corpo, as decepções da vida iam desvanecendo. Passo a passo ia subindo aquela ilusão e morrendo a sua desilusão.




(…) No palco olhava para a multidão como se nada existisse. Estava só, sentia-se só. As palavras saiam-lhe, a musica ecoava por cantos que nem ela imaginava. Parecia mecânico, parecia não era. Ali naquela porta do tempo onde pouco ou nada importava a musica não passava de um enorme vazio de sons, as palavra um enorme vazio de qualquer coisa de difícil digestão.


(…) O tempo corre para um lugar qualquer, foge-nos. As várias tentativas de o agarrar, são frustradas, é eficiente amadurece e corre. Um dia lá o encontraremos sossegado no canto para onde corre, para onde foge, para aquele horizonte onde os monstros não nos vencem. Descobrimos que está dentro de uma pintura que ninguém reconhece, no meio de uma linha imaginária que nos corta ao meio. O tempo congela-nos a alma, mas não a corrompe, esse é o nosso papel.
O tempo é o palco de uma vida que temos de viver por meio dos sonhos que nos atravessam.

Apeteceu-me

"Ele vai e volta e nunca chega ao mesmo tempo que a vida" Charles de la Folie

domingo, março 12, 2006

Cowboyada




Estava aqui a pensar no que havia de escrever e comecei a lembra-me do filme que tanta polémica tem gerado nos Estados Unidos – “Brokenback Mouontain” a estória de dois Cowboys a maneira antiga, só que com gostos modernos, isto aligeirando um pouco a estória que me merece todo o respeito.
Apesar dos Óscares terem sido no domingo e o Taiwanês Ang Lee ser o mais provável vencedor, (que não foi)não é deste filme que quero falar, mas sim de outros filmes e de outras realidades – a nossa.
Associei os cowboys aqueles empolgantes assaltos a Bancos em pleno Faroeste.
O Problema é que por aqui, são os Bancos que assaltam os portugueses.
Este ano os lucros dos 4 maiores bancos portugueses foram assim:
Contas feitas, já depois de pagos os impostos:

• O BCP ganhou mais de 753 milhões de euros,
• O Santander Totta 340 milhões,
• O BES lucrou mais de 280 milhões,
• O BPI 251 milhões.

Nada de especial, para a crise que se diz para ai instalada.
Na semana passada o Banco Central Europeu, aumentou a taxa de juro em 0,25%, o povo ficou boquiaberto porque vêm para ai mais aumentos nas taxas de juro, por outras palavras ficaram preocupados e é de ficar. – Só um pormenor que será por certo um “pormaior” é que os bancos já a pensar neste possível aumento já o tinha feito no princípio do ano, e assim começarem já a acautelarem os lucros a apresentar no próximo ano.
Mas como um roubo nunca vem só os Bancos agora andam a estudar como sacar mais uns “tustos” aos Portugueses com a Taxa de Multibanco, primeiro incentivaram-nos a fazer tudo pela caixinha milagrosa, para assim reduzirem custos em pessoal e agora dão o golpe final, quando toda a gente está mais ou menos dependente da “coisa” criam uma taxa. Cá para mim vai voltar a moda do tempo dos cowboys – não, não é a utilização de dinamite e bombas – mas sim guardar o pouco dinheiro que se ganha debaixo do colchão.

Apeteceu-me

"Um dia a indignação dá lugar a explosão". Charles de la Folie

quinta-feira, março 02, 2006

Mata dos Medos (não há que duvidar)




8 Da noite, o Sol começava a baixar na Mata dos Medos, sentia-se a brisa do mar, ouviam-se as ondas a bater, estava uma temperatura amena de Primavera.
3 Miúdos atrevidos que faltaram à escola andavam por ali, pelo meio do pinhal. A natureza que ao sol se mostrava estava agora a esconder-se, viam-se tocas de ratos de campo, zimbros, troviscos, medronheiros e carrascos, ouvia-se o chilrear de pássaros de muitas espécies, era um cenário pintado quase à mão, uma mata mandada plantar por D. João V, já naquela altura era assim que se travavam as dunas.
Aqueles 3 miúdos andavam a colocar visco nas árvores, (um suco glutinoso que se extrai da casca do azevinho, com o qual se envolvem as varinhas para apanhar pássaros). Era desumano ver os pássaros a lutarem contra aquele suco que mais parecia ranho, aquele ranho esverdeado, nojento, acabado de sair das narinas de um carnautaro, ou de um tiranossauro, mas aqueles miúdos não pareciam ficar muito comovidos com o assunto, ficavam felizes riam-se do sofrimento dos pobres pintassilgos.
Um melro, com o seu bico de cor de ouro, observava atento o que se estava a passar, assobiava melodias tristes, parecia estar a adivinhar o fim de alguns da sua espécie, mas não se deixava enganar, o cheiro do visgo servia de repelente ao melro.
A noite caía abruptamente, os 3 amigos viram-se de repente numa situação complicada, muito complicada, os pinheiros mansos parece que se fecharam entre eles, entrelaçaram as suas agulhas para taparem o céu.
Pouco ou nada se via, sentia-se o cheiro a maresia, mas adensavam-se outros odores, sentia-se o cheiro a medo, estavam ali os 3 parados, costas com costas, formavam um tridente. Ao mínimo movimento, os sons criavam ainda mais medos, os galhos a partirem-se debaixo dos pés serviam para as cabeças ficarem geladas, os olhos encherem-se de sangue, o corpo ficar hirto, as pernas ficarem bambas.
Estavam a cagaçados, amedrontados, apavorados. Naquela altura, a Mata dos Medos parecia estar em pequenos murmúrios.

- O mais novo do grupo, o João, pensava nas coisas que o irmão mais velho lhe costumava contar, no homem que raptava jovens para depois os comer, que geralmente se arrastava pelas matas, era um homem muito grande, vestia-se com gangas e aproveitava-se do restos de trapos que encontrava por aqui e ali e enrodilhava-os a volta do corpo. Diziam que era Húngaro, que tinha vindo para Portugal para jogar à bola, mas um desgosto de amor emaluqueceu-o e “comeu” a namorada que o enganava, que a partir dai nunca mais foi visto. Sabe-se que anda pela Mata dos medos, que o seu cheiro nauseabundo o persegue e quando o vento lhe dá de feição os cães uivam como os lobos.
O Irmão, lembrava-se ele, também lhe disse que houve uma vez um grupo de 3 miúdos que desapareceu, só encontraram um sapato sujo de excrementos humanos.
O João estava assustadíssimo, ao mínimo respirar dos seus amigos, de murmúrios da mata, do som da coruja, do cantar do melro, ele estremecia. Só queria sair dali, queria gritar, mas os seus lábios estavam imóveis, da sua boca não saia qualquer ruído, parecia que estava cozida, estava completamente petrificado.

- O Rodrigo, que era o mais espiritual do grupo, era um miúdo negro, de raízes profundas Africanas, os seus olhos lentamente começaram a cerrar-se, sentiu um formigueiro pelo corpo, começou a sentir a Mata, as suas Almas perdidas que esvoaçavam por ali tipo balões soltos a despejarem.
Começou a recordar velhos feitiços que ouvia contar lá em casa à sua avó, ela uma velha macumbeira, amada e odiada por todos, recordava estar escondido na escuridão, afastava silenciosamente a cortina feita de uma velha manta ribatejana, feita de mil cores escuras que representam o campo, a cor do campo, afastava a cortina que dava para o quarto da avó, o único quarto daquela casa que só tinha um inquilino, recordava ver uma imensidão abrupta de velas, milhares de pontinhos de luz acesas e o curioso é que a luz não brilhava, muito menos iluminava, ouvia os murmúrios da sua avó a rezar e a evocar demónios e espíritos para derrotarem a paz de quem ela odiava. Esses pensamentos eram tão fortes que quando abriu os olhos, parecia ter uma névoa de sangue e, à sua frente, levitavam velas acesas, no meio, uma enorme poça de sangue com uma cabeça de um galo e as suas patas cruzadas, ao longe pareceu ver o galo a esvoaçar sem cabeça nem pés.

- O Manuel era o mais racional de todos, mas, aquela noite, ou naquela noite, só lhe apetecia chorar, mas a lágrimas saíam secas, a força que fez para chorar, ele sabia que o choro afastava o medo, urinou-se pelas pernas abaixo, o líquido escorria por cima dos seus ténis, fazia um pequeno canal em direcção ao mar, de repente a urina começou a evaporar-se, fez como que uma nuvem, que se foi transformando num pequeno demónio, primeiro a cara da sua antiga professora, depois em formas rápidas, a do seu vizinho que todos os dias o espancava quando saíam da escola, depois do cão do seu avô que o mordeu quando era ainda bebé, por fim do seu pai, o seu rosto fechou-se, parecia querer sucumbir aquele episódio, estava pálido.

Os 3 continuavam imóveis de costas voltadas uns para os outros, um triângulo perfeito, no meio desse triângulo, desse tridente formado, pareciam sair sons de pessoas, os sons eram cada vez mais fortes, começaram a ver vindas de todos os lados, luzes.
Quando temiam o pior, eram só pessoas, pessoas à sua procura, tudo não tinha passado de um sonho mau, quando os 3 se voltaram, lá estava o galo sem cabeça e sem pés a esvoaçar, lá estava o pai do Manuel, lá estava o Húngaro refastelado a comer.

Apeteceu-me

"Nem sempre a ambição se sobrepõe a amizade" Charles de la Folie