Estou na minha última folha de notas, respiro fundo. Bem fundo onde uma pequena dor parece arrancar-me o estômago do sítio. É desconfortável. Tenho a sensação que a densidade do oxigénio se solidificou. Custa a entrar; custa a seguir o seu caminho pelas vias respiratórias. Algo carrega às pazadas para dentro de mim o ar que crava e grava um ardor à sua passagem. Mais facilmente sai o dióxido de carbono que me deixa descansar naquele limbo temporal entre a vida e a morte. Não é uma expressão dramática ou de dramatismos exacerbados. Nem sequer uma metáfora. É simplesmente um aspecto da nossa sobrevivência. Se ficássemos para sempre entre a inspiração e a expiração sucumbíamos asfixiados com as nossas dúvidas. Na realidade enquanto descrevo o que sinto, não me vejo obrigado a passar os olhos pela folha de letras – certas no seu formato – que me recordam o que não me sai da mente nem por um segundo. É difícil explicar: serenei essas visões, aprendi a viver com elas a toda a hora, mas ainda não recuperei o sorriso. Precisava de voltar atrás no tempo para devolver os sulcos que me rasgam a fronte e recuperar as covas do meu sorriso. Tenho que enterrar o azedo da vida, o machado de guerra, da minha guerra e acreditar como o Carlos Oliveira que: “Não há machado que corte a raiz ao pensamento…”

Apeteceu-me
"Nem sempre descobrimos o que queremos esconder" Charles de la Folie






