terça-feira, janeiro 20, 2009

És o meu (A)mar


(…) A tua violência contrasta como a enorme capacidade de seres sempre belo. Hoje numa veemência incomensurável, ontem doce e meigo. Hoje a espuma branca cavalga no ímpeto do teu cinzento, que no horizonte se confunde com a melancolia do empíreo. Ontem um prado azul, cheio de sal e decididamente como tu mulher. Destróis-te no ribombar de um trovão, quebras-te para voltar a resnascer. Mas nem sempre és assim.


(…) O gélido pensamento, cruza um emaranhado de rumores sem importância alguma. Na quietude desse pensamento surge o nada e deixo-me cair no seu vazio. Há um mutismo relativo. Respira-se com dificuldade os sorrisos de quem nos acode. Num lado levanta-se a alma, no outro regride o desejo. Firme, assim fico à espera do seu vaivém.



(…) Saltam de ti, desordeiramente, ínfimos seres. Percorrem-te, como os dedos que varrem o meu cabelo. Audazes, velozes, num brilho que percorre toda a vastidão da tua curvatura. Do branco do sul ao branco do norte. Entre ventos, marés e marinheiros. Entre vergonhas, saudades e lágrimas. É profundo, confunde-se com o sentimento, com a nostalgia da tua partida, mesmo que esteja sentado na areia a olhar para ti.


(…) Perco-te entre dedos, desafiando a memória de coisa alguma. Ensino as minhas mãos a sossegar perante a tua constante fuga. Num deserto que me acompanha pela vida fora. É o retrato imaginário dos meus pensamentos, ora impetuosos, ora afáveis. Suspiro, naquele olhar de anuência, em que tudo é grande, tudo é belo, tudo é infinito, perante a tua grandeza. És meu, eu sei, pelo menos enquanto por aqui estou.

Apeteceu-me


"Foge-me entre dedos a esperança que nada aconteça nos dias que passaram" Charles de la Folie

sábado, janeiro 10, 2009

30 anos - Como cresceste irmão

(…) Resolvi ouvir-te na tua plenitude, fosse lá isso o que fosse. Eras tu, não eras? Então não havia mal. Não me lembro de te escutar a enunciar o meu nome ao longo de todos estes anos que vivemos juntos. Não é por isso que vais deixar de me acompanhar sempre que possas e a minha disponibilidade mental permita. Mas na nossa longa amizade tudo é permitido não é? – pergunto - isso mesmo, posso perguntar não posso, tenho margem para o fazer.

(…) Desejo a Lua, acreditas nisso? Acordei a meio da noite e senti um enorme desejo de te possuir – sim a ti Lua. Segui a linha ténue que nos afasta e verifiquei o enorme vazio em que me deitava. Foi assim que te conquistei no meio do nada, agarrei-me a meio do boléu a essa linha de traço fino, como a – tua – música. Percebi então que o rumo da minha vida tinha uma pequena direcção sem fim.

(…) Cresci numa pequena cidade à beira-rio. Não que ele existisse – o rio claro – a cidade ainda lá está. Era feito de pequenos sonhos que desaguavam em frente à tua porta. Já era grande quando ouvi pela primeira que tinha desfrutado os melhores anos da minha vida perdido sem nunca ter ouvido ninguém. Não era de um mutismo exacerbado, aliás não sou. Foi ai que me interroguei se afinal existia na realidade.

(…) Fecho os olhos e deixo-me cair na solidão da juventude. Preencho o vazio do canto mais apetecível do meu quarto. Sinto nas costas o frio de Janeiro, aqueço as mãos, com o vapor que vem de dentro de mim. Suspiro uma ou duas vezes, penso nela e o estômago remexe. Há um pequeno interlúdio antes do essencial – nota-se no silêncio o tremelicar do vinil – cresce a ansiedade antes dos primeiros acordes. O primeiro - acorde - da guitarra eléctrica eleva-me a alma, numa batida de vida. Parabéns.
Apeteceu-me
“Há um pequeno silêncio acompanhado que fere a solidão” Charles de la Folie

quinta-feira, janeiro 01, 2009

A mudança do tempo em pequenas nuances

(…) O ano passava por portas e travessas, através do teu olhar. Era com indiferença que ele – o ano - anunciava a sua chegada. Não era preciso dizer nada, até porque, aquele pequeno fitar não deixava marcas, como as tuas mãos pelo meu corpo. As carícias que tornavam húmido toda a minha imprevisibilidade, essas sim faziam-me olhar para ele como o melhor de sempre.


(...) O ruído da tua chegada perdeu-se numa imagem de solidão. O teu segredo não será nunca desvendado. Também não é por isso que te esperei impacientemente, só para ultrapassar mais um e ficar mais velho. É como despir um velho casaco, virá-lo do avesso e retomar o caminho. Não o meu, nem o teu, mas sim os vários caminhos que nos embalam no dia-a-dia, até chegar o momento em que te findas e volta tudo ao princípio.


(...) Olhar perdido, rosto sem expressão, corpo adormecido pelos dias que passam e não voltam. Nunca voltam, nunca são os mesmo. E ele ali parado, como o homem-estátua sem conseguir pará-lo – o tempo – intempestivo e sugestivo. Sempre novo, mas sem novidades, a não ser que ninguém o consegue inverter, nem abrandar. O rosto de pedra, também ele ficou gasto pela idade do tempo, mesmo sendo intemporal.

(...) As mãos unidas desfaziam as dúvidas que tinha sobre o dia-a-dia. Pouco importava a não realização de mais uma fogueira naquele ermo desconhecido de todos. O Grito surgiu por detrás da pequena vereda, não sei como ele foi ali parar, mas foi descoberto pela sua impaciência. Estava despido e berrava como uma criança acabada de nascer. Afinal era o renascer das vontades, mesmo que nós nos mantenhamos iguais a ontem. Nada mudou a não ser o ano em que nasceste.


Apeteceu-me


"Nem sempre o ontem tem sequência no amanhã". Charles de la Folie

sábado, novembro 29, 2008

O Gosto a sangue dos meus lábios.


(…) Entranhava-se – vinda não sei bem de onde – uma sensação que se ia perdendo em detrimento daquele vazio perfeito. Numa mão a vontade de dar, na outra a vontade de tirar. Tornava-se demasiado perfeito negociar aquele pedaço de qualquer «coisa» parecido com nada. Um refúgio demasiado elegante para alguém o querer percorrer sem o saborear. Como um enclave, dentro das pregas da sapiência.



(…) Viveu demasiado tempo dentro da sua própria sombra, para se lembrar fosse do que fosse. Foi isso que lhe provocou a violenta metamorfose que o transformou na sombra que o perseguia. Os braços soergueram-se lentamente, a cabeça tombava em círculos e, tudo se manteve escuro. Nem os gemidos da sua própria erosão o demoveram, revelou-se e partiu.


(…) Um arrepio na espinha provocou-lhe aquele olhar perdido, sem expressão e sem chama. Procurava nas palavras que não saíam, a verdade. Caiu fulminado pela ilusão que se refugiava dentro de si. Alojava-se dentro de um parasita num local ermo dentro de si. Nem a melodia perdida dos sons graves da música lhe indicavam o caminho, era noite e chovia.


(…) Os dedos não paravam de baloiçar, numa energia sem precedente. Uma realidade cruel, ao mesmo tempo reconciliadora com o «processo»; reagiam assim, só isso. Estava cinzento o corpo tombado perto de ti, reflectia os pequenos silêncios que se acumulavam, como malmequeres tombados numa batalha longínqua e vegetante.


(…) Não me lembro do teu nome – e isso importa? Não me lembro do teu sorriso – isso parece grave! Como é grave não saber o sabor das palmas das tuas mãos. Nem a cor, nem de cor, do respirar que me mantém acordado, numa vida que se vai esvaindo, dia após dia. Reinvento-me, nada sobra dentro de mim, só o sabor a sangue dos meus lábios.


"Há sequências de nós que nunca chegam a existir". Charles de la Folie

quarta-feira, outubro 29, 2008

Não me lembro de ti, nem de mim

(...) Qual papel de donzela, limita-se a ser, somente isso. Na vida os papeis são distribuidos por nada de concreto. São simplesmente e por aí não há discussão. As sombras perdiam-se numa imensidão crua, sem que o destino tivesse nelas mãos. Isso provocava uma cegueira controlada, não se vê o que não se quer. Da mesma maneira que te escondes quando passas por mim, hoje deixaste que o dia te visse e não te perdeste, nem te refugiaste dele.

(...) Foi um salto felino aquele que vi na escuridão, da tua mente. Pregou-te uma partida, eu sei. Como sei que a verdade que me escondeste não sabia a nada, como a àgua. Só não percebo porque dentro de mim ainda sinto sede. Não só também medo. Continuas nessa sombra escondida, vejo o teu corpo transversalmente cortado ao meio, pela luz. És tu eu sei. Como sei o que é olhar para nada e desejar-te.

(...) As unhas cravaram-se no chão, foste puxada para um além distante – em ti tudo é distante é verdade. Confessas que estavas lá, só não me lembro desse local geométricamente desenhado por ti. Também não me lembro de ti. Desculpa, também não me lembro de mim. Choro pela minha alma que nem sequer sei se existe.


(...) Segredaste-me que afinal te lembravas. Só não me lembro do que te deverias recordar. As tuas palavras souberam-me a silêncios perpétuados em pequenos quadrados, recolhidos de lugares nenhum. No meu mundo já não há lugares, deixaram de existir. Nada existe o mundo ficou branco, provocado por uma espiral de desespero. Afinal lembro-me que o que querias dizer, pediste-me para partir e eu quebrei o silêncio e gritei.


“As palavras proferidas nem sempre têm o mesmo significado quando escutadas:” Charles de la Folie

quinta-feira, outubro 09, 2008

Canto de mim

(...) Quando descobri o teu lado vazio, dormia pelo menos há mil anos. Não me recordo do teu aspecto, da cor dos teus olhos, do teu cabelo, nem sabor dos teus beijos. Lembro-me apenas do teu cheiro – uma pequena brisa de volúpia em tons carmim – diferente de todos os outros que alguma vez presenciei olfativamente.

(...) Aquelas mãos macias não podiam ser minhas – as minhas estavam atadas –, tinham que pertencer a alguém perdido entre a vontade e o desejo. Suaves e doces como o mel, recolhido da sua própria vontade. Mantive dentro de mim a vontade de lhes tocar, não tive coragem de lhe pedir que me acariciasse no meu leito de morte.

(...) Vi nitidamente a cor do teu odor – uma transparência irreal, presa na minha imaginação -, um tom pastel, sublinhado a carvão. Na realidade não me recordava de ti. Sentia a tua presença naquele vazio transposto por mim. Nem sequer entendia esse vácuo, a diferença entre o mutismo gerado à volta do que eu pensava sermos nós, puro engano. Estavas sozinha.

(...) Não consegui prever a minha morte, mas ali estava estático perto de ti. Sentia o teu respirar, como um ciclone que transpunha a minha barreira ilusória. A lágrima que se desprendeu do teu rosto, tocou-me fundo e ecoou durante uma eternidade. Muito mais que aquele ranger de dentes durante a paralisia do meu fenecimento. Irreal dentro de um mundo real e fingido. Será sempre assim, mesmo que não me lembre.

(...) Percebo agora a tua mensagem quando escreveste: “Leio-te pungentemente, até que a morte nos separe”. E depois lembrei-me, e se lesses as mensagens ditadas pelo meu corpo. São telegrafadas em pedaços de satisfação. O corpo rasga-se delicadamente sob a incidência do teu olhar e ali fico. Posso perguntar por ti?


Apeteceu-me

“Nem sempre o sonho é corrompido pelo acordar mais longo da nossa vida”. Charles de la Folie

terça-feira, setembro 09, 2008

Papel de parede

(...) Soltei aquele grito caracteristico de gente crescida – de uma forma lancinante – na penumbra daquele local. Não era a imagem que tinha de ti, perdido num qualquer local que não davas conta. Passei-te a mão pelo cabelo, senti aquele suor frio - que se escapava da testa - ficar agarrado às minha mãos. Quando olhei de uma primeira vez, vi sangue – não podia ser, era frio – depois de olhar outra vez, era apenas a minha mão.


(...) Diz-me só mais uma vez, só mais uma. Gosto das tuas palavras, da forma como as entoas. Percorrem-me os sentidos e descobrem-me emoções que pensava estarem inutilizadas para sempre. Só mais uma vez diz-me qualquer coisa para poder redesenhar-te dentro da minha alma. Como se estivéssemos numa cama – deitados e juntos – perdidos em silêncios.


(...) Não acredito que não sejas o homem que conheci – hoje prostrado dessa forma pérfida. Crescente dentro de mim e fizeste-me crescer para sempre. Não me lembro bem ao certo quando foi – a memória trai-me da mesma forma que fui traido por ti. Já nem esse sorriso te descontrai e deixa esse dilúvio de disparates desvanecerem-se. Acorda ainda pertences a este mundo – eu sei do que falo.

(...) Enquanto pensava nas palavras que não ouvia, reflectia nos movimentos do Mar – na perpetuação da nossa incapacidade de resistir. Soltei-me com se fosse uma fúria, na direcção exacta do passado. Lembro de bater em vão – com força – num vazio desconcertante. Já não estavas lá – senti o teu paladar – quando percebi que nunca lá tinhas estado.

(...) Das vezes que te vi, não eras tu, nunca foste. Nem as palavras foram - disparadas – por ti. Não existes eu sei. Já eu fui vetado a estar aqui eternamente, escondido em cada palavra que me sai – é isso eu sei. Morro de medo, só de saber que ninguém me entende.



Apeteceu-me

"Dentro de ti re-descubro-me" Charles de la Folie