(…) A tua violência contrasta como a enorme capacidade de seres sempre belo. Hoje numa veemência incomensurável, ontem doce e meigo. Hoje a espuma branca cavalga no ímpeto do teu cinzento, que no horizonte se confunde com a melancolia do empíreo. Ontem um prado azul, cheio de sal e decididamente como tu mulher. Destróis-te no ribombar de um trovão, quebras-te para voltar a resnascer. Mas nem sempre és assim.
(…) O gélido pensamento, cruza um emaranhado de rumores sem importância alguma. Na quietude desse pensamento surge o nada e deixo-me cair no seu vazio. Há um mutismo relativo. Respira-se com dificuldade os sorrisos de quem nos acode. Num lado levanta-se a alma, no outro regride o desejo. Firme, assim fico à espera do seu vaivém.
(…) Saltam de ti, desordeiramente, ínfimos seres. Percorrem-te, como os dedos que varrem o meu cabelo. Audazes, velozes, num brilho que percorre toda a vastidão da tua curvatura. Do branco do sul ao branco do norte. Entre ventos, marés e marinheiros. Entre vergonhas, saudades e lágrimas. É profundo, confunde-se com o sentimento, com a nostalgia da tua partida, mesmo que esteja sentado na areia a olhar para ti.
(…) Perco-te entre dedos, desafiando a memória de coisa alguma. Ensino as minhas mãos a sossegar perante a tua constante fuga. Num deserto que me acompanha pela vida fora. É o retrato imaginário dos meus pensamentos, ora impetuosos, ora afáveis. Suspiro, naquele olhar de anuência, em que tudo é grande, tudo é belo, tudo é infinito, perante a tua grandeza. És meu, eu sei, pelo menos enquanto por aqui estou.
Apeteceu-me
"Foge-me entre dedos a esperança que nada aconteça nos dias que passaram" Charles de la Folie







