terça-feira, julho 10, 2007

AMANTE

(…) Olhava-o nos olhos, fixava-os. – Eram doces como o mel, calmos como o prado, tranquilos como a tua imagem quando se reflecte em ti. Passava-lhe com a mão no pescoço, sentia a sua respiração, forte e quente perto do meu rosto. Sentia-me assustada sempre que estava diante dele, mas sentia-me mais que nunca, sentia o prazer do momento, de cada pedaço daquele instante. Estremecia só de o pensar.

(…) Gostava daquele ritual, não me sentia uma amante apesar de ser de outro. Eram diferentes, um a liberdade, outro a escolha que foi feita em tempos de paixão. Fitei-o novamente nos olhos, num movimento seguido senti o seu aproximar – a sua boca roça-me a cara. Ternamente toquei-lhe, juntei-o, e deixei-o estar junto a mim durante alguns segundos. Passei-lhe com a mão ao longo dele.

(…) Houve tempos em que tive medo, muito medo, estava presa em mim. Os gestos de liberdade fugiam-me, não que os não soubesse utilizar. Estava petrificada no meu mundo, na minha maneira de ser. Tive medo de ter perdido a mulher que existia dentro da minha alma, em que corria, lado a lado com os meus pensamentos mais incómodos e libertinos. – Não para mim, mas para eles que não se libertam do bom que a vida nos proporciona.

(…) Ali estava eu com ele, liberta de mim e em mim. Sabia-o desde sempre que ali, conseguia sentir o que mais ninguém conseguia fazer-me alcançar. Retirou o lenço dos seus longos cabelos ruivos, arregaçou as mangas da sua camisa de bombazina rosa, olhou-o mais uma vez nos olhos, sentiu-o ainda mais calmo. Abriu a porta, uma longa porta de madeira tratada, presa por duas enormes dobradiças de ferro. Um fecho de ferro forjado, bem oleado para não emperrar em situações mais complicadas.

(…) Era um bonito alazão, de um tom de ouro avermelhado. Uma enorme crina cor de palha dourada. A sua cauda também, palha dourada, muito bem penteada e arranjada. Olhando para ele, não se dava conta que descendia de uma linha evolutiva de sessenta milhões de anos. Lentamente punha-lhe o arreio, calmamente colocava-lhe um freio que não o ferisse na boca, tal era a confiança e a empatia que existia entre nós.



(…) Enquanto lhe fazia festas no dorso, colocava-lhe uma manta, para depois lhe colocar a minha pequena sela de couro, um couro muito suave com um toque muito especial. Ali estava eu, sentindo a sua disposição para lhe apertar a sela junto à barriga, e ajustava os estribos. Estava pronta para a minha viagem. Entre nós não havia mais nada, nem esporas, nem chicotes, éramos só os dois em direcção a liberdade.

(…) Tomava-lhe as rédeas e partíamos, para os campos junto ao rio, onde o gado costuma pastar, gostava de ver o rio descer. Dava-lhe a liberdade de me tomar. Dava-lhe rédea solta, e galopava, num galope solto e continuo… a minha sela sentia-me tocar-lhe passo sim passo não, era um sobe e desce constante. O corpo começava a ceder, o cheiro do campo entrava pela alma. Os gritos de prazer tornavam-se constantes.

(…) O seu corpo começava a derreter-se. No sobe e desce do galope, os seios iam crescendo ao roçarem-se na sua camisa. O vento batia-lhe no rosto. Olhos abertos cheios que lhe percorriam a face, provocadas pela emoção de se sentir livre e em perfeita harmonia com o seu corpo. Tinha-se e vinha-se num percurso que só aquele alazão de olhos doces como o mel ,lhe sabia provocar.

Apeteceu-me

"Gosto de percorrer caminhos diferentes, com o objectivo de voltar a percorrer outro diferente em dias iguais". Charles de la Folie

9 comentários:

Mikas disse...

A tua escrita prende-me sempre à leitura de uma forma fascinante, um beijo

marta disse...

gostei de te ler, voltarei com mais tempo. Adorei o nome do blog e foi por isso que cá vim parar.
* surfista!

mescla de cores disse...

Porque não me canso de ler e reler
Gosto das tuas palavras,
de como escreves e descreves,
gosto e gostei deste dia.

E desejo outros caminhos, em dias como este.
Uma viagem que alegra e inquieta.

Beijo

residente disse...

A população de uma rua da cidade de Almada está indignada com a falta de ética política e desrespeito a compromissos assumidos por alguns autarcas, nomeadamente a Presidente da CMAlmada, que não querem respeitar uma decisão democrática do Governo, a favor dos residentes locais.
Aceda a http://triangulodaramalha.blogspot.com e veja as razões dos moradores.
A imprensa escrita não divulga actualmente esta atitude antidemocrática da Presidente da Câmara e seus acompanhantes.

♥≈Nღdir≈♥ disse...

., . - . - , _ , .
.) ` - . .> ' `(
/ . . . .`\ . . \ Ofere�o uma rosa
|. . . . . |. . .|
. \ . . . ./ . ./
.. `=(\ /.=` toda perfumada
.... `-;`.-'
......`)( ... , para aromatizar
....... || _.-'|
........|| \_,/o teu Fim de Semana...
........|| .*��)
�.���.�*... �.�*�)
(�.�� (�.�` *
*��) мιℓ вєιנoѕ♥*♥
�.���.�*... �.�*�)
(�.�� (�.�` **♥*♥

Minda disse...

Somos um grupo de amigos, vizinhos da blogosfera, e estamos a pensar criar uma rede de blogs almadenses, uma espécie de “ponto de encontro”, blog-fórum, ou algo parecido, um lugar virtual onde possamos nos encontrar e saber uns dos outros, trocar ideias, partilhar experiências, conversar, rir... (em suma, fazer o que nos apetecer) e gostaríamos que aderisses ao projecto e nos apresentasses o teu contributo. Passa pelo INFINITO’S e deixa-nos a tua opinião. Obrigada.

D disse...

surpreendena forma cmo se vai lendo.. fiquei a pensar na frase a negrito!

Claudia Sousa Dias disse...

Excelente textO!

Volto cá para degustar as palavras (ou pêssegos) como deve ser...!

Parabens!

CSD

Lumife disse...

VOU DE FÉRIAS! BOAS FÉRIAS!