quinta-feira, janeiro 03, 2008

Não me lembro...


(…) Cruzava-me entre o nada e o tudo. Era dia, não um dia do mês, mas mais um dia numa vida que se queria, entre a esperança e a ansiedade –, de não a ter de desdenhar. Um sorriso, mais um passo no vazio que se preenche com um futuro que rapidamente nos presenteia com o passado. Entrelaçava os dedos, suspirava fundo, tentava esquecer os pensamentos rotineiros das verdades indesmentíveis que não fazem qualquer sentido – só por isso falsas.

(…) De braços abertos à espera de um corpo para abraçar, contento-me com a aragem que me envolve. Descubro bem no fim do meu olhar aquilo a que chamam o horizonte, perfilo-me na sua direcção, mas permaneço imóvel. Só o olhar, numa desenfreada luta com o convencional, o puxa (horizonte) em direcção à minha alma. Espero pelo embate, fecho os olhos e sinto-o a chegar –, mais uma vez dou por mim de braços abertos.


(…) O rio corre barrento, lá dentro milhares de muitos quês e porquês. Está na hora de deixar de pensar. Afinal tudo existe, realmente tudo depende de tudo. O barco que só faz sentido na água, o óbvio que só é óbvio por isso mesmo e a disciplina, só o é pela indisciplina. Cruzo-me em mim e por mim. Desfaço as probabilidades de me duplicar, resisto à tentação de me banalizar e permaneço – por vezes eu.



(…) Pertenço às palavras que não sei escrever, mas sinto-as. Quero-as por direito de as poder repartir. Ouço a música que chega do fundo, bem do fundo das minhas fantasias. Um dia vou rescrever uma vida inteira de pequenos nadas, há procura de um enorme tudo. Depois tocarei, com a ponta dos dedos nas melodias que se tornam opacas e em tons garridos. Depois do alto da nuvem que um dia conquistei, liberto-me e deixo-me cair.


(…) Lembro-me e relembro-me, do dia em que as ondas cresceram. Ficaram tão altas como o convencimento de alguns simples humanos. Volto atrás, lembro-me e relembro-me, do dia em que as ondas cresceram –, repito-me. Estavam altas, mas só me lembro da grandeza da natureza que nos percorre e nos deixa percorrer. Um dia sonhei ser o vento, nunca mais deixei de sorrir, no dia em que fui mar, cresci meio metro na minha humildade, outro fui chuva, no outro fogo – e hoje sou eu.



Apeteceu-me

"O óbvio nem sempre é o mais sensato". Charles de la Folie

4 comentários:

maria teresa disse...

Porquê??????????????

Claudia Sousa Dias disse...

Amei sobretudo o último parágrafo.

Está perfeito.


CSD

Outonodesconhecido disse...

"Pertenço às palavras que não sei escrever, mas sinto-as". Gostei d afrase, gostei do post.
Bom ano

Cymbron disse...

O ultimo excerto é fantástico, desconhecia, excelentes escolha.