terça-feira, fevereiro 09, 2010

La vie en Rose III

(...) Escrever sobre Ela ao som de Edith Piaf é algo indescritível, maravilhosamente indescritível. Os dedos tombam sobre as letras, numa descida vertiginosamente suave. A arrogância da língua francesa quando musicada torna-se melífera, um doce a que só a voz de Piaf consegue conferir. No acordeão que enche aquelas canções descubro o olhar simples, mas penetrante de minha Mãe. Há um crescendo de cor cortado pelo sorriso que sobra dos lábios esbranquiçados da sua inocuidade. Estão longe do calor que lhe aquece o amor, apenas a reminiscência lhe oferece um desejo incorpóreo. A alma está presa no fundo da menina-do-olho, consegue-se ver pelo vítreo de uma lágrima que sufoca de saudade. A mesma que encontro prestes a bailar pela sua face. A música de Edith, a sua forma de se expressar, o sofrimento com que liberta cada nota conta-me histórias perdidas num vazio que se compreende, mas não se consegue explicar. Não é um vazio de espaço, mas sim o incorpóreo que nos rodeia onde acredito que se encontram todos os dizeres e sentimento que libertamos pelos poros; tudo o que sentimos e que se liberta está nesse vazio. Tão simples como isso. Volto a um quebra-cabeças antigo meu: para onde vão as lágrimas depois de choradas e vertidas. Os nossos sentires devem ter um armazém algures, são libertados por nós, as lágrimas, os choros, os gemidos, os gritos, a dor; acredito que estejam nesse vazio tão cheio de nós. Acredito que a nossa transparência se solte e viaje por onde nós não sabemos. Porque será que há gente a quilómetros de distância que sente saudades nossas, nos vêem e nos experimentam, tocam e escutam-nos. Porque estamos lá, mesmo que contra a nossa vontade há muito que é nosso que não nos pertence.

Apeteceu-me


"Gosto de perceber que o som dos dias se renova a cada dia" Charles de la Folie

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