quinta-feira, março 02, 2006

Mata dos Medos (não há que duvidar)




8 Da noite, o Sol começava a baixar na Mata dos Medos, sentia-se a brisa do mar, ouviam-se as ondas a bater, estava uma temperatura amena de Primavera.
3 Miúdos atrevidos que faltaram à escola andavam por ali, pelo meio do pinhal. A natureza que ao sol se mostrava estava agora a esconder-se, viam-se tocas de ratos de campo, zimbros, troviscos, medronheiros e carrascos, ouvia-se o chilrear de pássaros de muitas espécies, era um cenário pintado quase à mão, uma mata mandada plantar por D. João V, já naquela altura era assim que se travavam as dunas.
Aqueles 3 miúdos andavam a colocar visco nas árvores, (um suco glutinoso que se extrai da casca do azevinho, com o qual se envolvem as varinhas para apanhar pássaros). Era desumano ver os pássaros a lutarem contra aquele suco que mais parecia ranho, aquele ranho esverdeado, nojento, acabado de sair das narinas de um carnautaro, ou de um tiranossauro, mas aqueles miúdos não pareciam ficar muito comovidos com o assunto, ficavam felizes riam-se do sofrimento dos pobres pintassilgos.
Um melro, com o seu bico de cor de ouro, observava atento o que se estava a passar, assobiava melodias tristes, parecia estar a adivinhar o fim de alguns da sua espécie, mas não se deixava enganar, o cheiro do visgo servia de repelente ao melro.
A noite caía abruptamente, os 3 amigos viram-se de repente numa situação complicada, muito complicada, os pinheiros mansos parece que se fecharam entre eles, entrelaçaram as suas agulhas para taparem o céu.
Pouco ou nada se via, sentia-se o cheiro a maresia, mas adensavam-se outros odores, sentia-se o cheiro a medo, estavam ali os 3 parados, costas com costas, formavam um tridente. Ao mínimo movimento, os sons criavam ainda mais medos, os galhos a partirem-se debaixo dos pés serviam para as cabeças ficarem geladas, os olhos encherem-se de sangue, o corpo ficar hirto, as pernas ficarem bambas.
Estavam a cagaçados, amedrontados, apavorados. Naquela altura, a Mata dos Medos parecia estar em pequenos murmúrios.

- O mais novo do grupo, o João, pensava nas coisas que o irmão mais velho lhe costumava contar, no homem que raptava jovens para depois os comer, que geralmente se arrastava pelas matas, era um homem muito grande, vestia-se com gangas e aproveitava-se do restos de trapos que encontrava por aqui e ali e enrodilhava-os a volta do corpo. Diziam que era Húngaro, que tinha vindo para Portugal para jogar à bola, mas um desgosto de amor emaluqueceu-o e “comeu” a namorada que o enganava, que a partir dai nunca mais foi visto. Sabe-se que anda pela Mata dos medos, que o seu cheiro nauseabundo o persegue e quando o vento lhe dá de feição os cães uivam como os lobos.
O Irmão, lembrava-se ele, também lhe disse que houve uma vez um grupo de 3 miúdos que desapareceu, só encontraram um sapato sujo de excrementos humanos.
O João estava assustadíssimo, ao mínimo respirar dos seus amigos, de murmúrios da mata, do som da coruja, do cantar do melro, ele estremecia. Só queria sair dali, queria gritar, mas os seus lábios estavam imóveis, da sua boca não saia qualquer ruído, parecia que estava cozida, estava completamente petrificado.

- O Rodrigo, que era o mais espiritual do grupo, era um miúdo negro, de raízes profundas Africanas, os seus olhos lentamente começaram a cerrar-se, sentiu um formigueiro pelo corpo, começou a sentir a Mata, as suas Almas perdidas que esvoaçavam por ali tipo balões soltos a despejarem.
Começou a recordar velhos feitiços que ouvia contar lá em casa à sua avó, ela uma velha macumbeira, amada e odiada por todos, recordava estar escondido na escuridão, afastava silenciosamente a cortina feita de uma velha manta ribatejana, feita de mil cores escuras que representam o campo, a cor do campo, afastava a cortina que dava para o quarto da avó, o único quarto daquela casa que só tinha um inquilino, recordava ver uma imensidão abrupta de velas, milhares de pontinhos de luz acesas e o curioso é que a luz não brilhava, muito menos iluminava, ouvia os murmúrios da sua avó a rezar e a evocar demónios e espíritos para derrotarem a paz de quem ela odiava. Esses pensamentos eram tão fortes que quando abriu os olhos, parecia ter uma névoa de sangue e, à sua frente, levitavam velas acesas, no meio, uma enorme poça de sangue com uma cabeça de um galo e as suas patas cruzadas, ao longe pareceu ver o galo a esvoaçar sem cabeça nem pés.

- O Manuel era o mais racional de todos, mas, aquela noite, ou naquela noite, só lhe apetecia chorar, mas a lágrimas saíam secas, a força que fez para chorar, ele sabia que o choro afastava o medo, urinou-se pelas pernas abaixo, o líquido escorria por cima dos seus ténis, fazia um pequeno canal em direcção ao mar, de repente a urina começou a evaporar-se, fez como que uma nuvem, que se foi transformando num pequeno demónio, primeiro a cara da sua antiga professora, depois em formas rápidas, a do seu vizinho que todos os dias o espancava quando saíam da escola, depois do cão do seu avô que o mordeu quando era ainda bebé, por fim do seu pai, o seu rosto fechou-se, parecia querer sucumbir aquele episódio, estava pálido.

Os 3 continuavam imóveis de costas voltadas uns para os outros, um triângulo perfeito, no meio desse triângulo, desse tridente formado, pareciam sair sons de pessoas, os sons eram cada vez mais fortes, começaram a ver vindas de todos os lados, luzes.
Quando temiam o pior, eram só pessoas, pessoas à sua procura, tudo não tinha passado de um sonho mau, quando os 3 se voltaram, lá estava o galo sem cabeça e sem pés a esvoaçar, lá estava o pai do Manuel, lá estava o Húngaro refastelado a comer.

Apeteceu-me

"Nem sempre a ambição se sobrepõe a amizade" Charles de la Folie

24 comentários:

Maria Manuel disse...

Para este tipo de absurdo, bastou-me uma cadeira de teatro no 2º ano da fac...
Mas deixa lá, sou tua amiga na mesma e deixo-te um jinho sem medos :-)

Eric Blair disse...

13 de Maio - dia da subnutrição.

Talk Talk disse...

É para aprenderem, para a próxima já não se "baldam" às aulas!!
Um abraço.

Su disse...

o medo é fruto da imaginação:)
jocas maradas

Lumife disse...

Em Alvito acontece...

Já somos 44...

Esperamos muitos mais


Bom fim de semana

Daniela Mann disse...

Olá Carlos, que é feito de si? Tenho sentido a sua falta lá pelo meu blog!
Vim ver as actualizações e desejar-lhe a continuação de um bom domingo!
Um abraço e até breve!

Binoc disse...

Tavas com imaginação quando escreveste isto.
E depois, um final surpreendente à "Carlos Barros".

Binoc disse...

Aquele abraço.

Catherine disse...

Olá Carlos.
Obrigada pela sua visita.
Volto para ver suas postagens.
Abraços,
Catherine

calanda disse...

Te devuelvo la visita, muchas gracias por visitar mi rincon y por tus bonitas palabras, besos desde España

Patrícia disse...

Olá Carlos!
Vim espreitar seu blog.
Gostei viu. Dê uma passadinha lá no meu.
Um cheiro

Patty

Kat disse...

Interesante sitio.

Besos.

Catherine disse...

Muito bom esta estória.
É incrivel como a imaginação negativa trás para nós visões horrorosas e sofrimento
Beijos,
Catherine

Nadia disse...

gracias por visitar mi blog; yo no sé portugués :( pero me esforzaré por leerlo, y si no puedo, traduzco con el banner de la derecha...

cariños desde Chile

Patricia disse...

Gracias por dejar tu huella en mi blog.

Un abrazo.

Daniela Mann disse...

Muito obrigada Carlos pela visita e pelo comentário simpático que me deixou.
Tem aqui um excelente post!
Cada vez estou mais viciada na "República dos Pêssegos".
Um grande abraço,
Daniela.

Kat disse...

Gracias por tu visita mi rey.

Besos.

*Lady Laura* disse...

No entiendo mucho pero creo que me esforzaré por seguirte, un besito.

augustoM disse...

O medo é o reflexo do nosso subconsciente.
Um abraço. Augusto

Maria Manuel disse...

Esta(mo)s bloqueado(s)... Eu sei pq; tu tb?
Beijo

your disse...

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Binoc disse...

Parece-me que andamos os dois um pouquito ocupados demais para postar, não ?
Eu, pelo menos. Para postar e comentar. Enfim, um bom fim de semana.
Aquele abraço.

José S. disse...

O que é que eu posso dizer? que é um conto extraordinário e que vou passar mais vezes.
Bfs.

Arrebenta disse...

Olha que na Mata dos Medos sempre se fizeram valentes broches... :-)