segunda-feira, outubro 16, 2006

Sentença

(…) Rodopiava entre o seu próprio silencio. A sua imagem projectava-se no seu próprio espaço, na ruptura entre o seu estado estático e a velocidade do seu rodopiar. A sua vida sempre foi um contra-senso, mas isso não significa que a sua vida seja uma mera forma de estar e de viver.
O pronunciar das suas formas é uma circunstância do que de bom existe na vida. Cheirar aquelas formas sensuais que se desabotoam na nossa imaginação, sugerem-nos fantasias que nos percorrem ao longo das nossas várias etapas, mesmo que sejam pequenas etapas entre a solidão dos nossos passos e a imensidão dos nossos sonhos.
Serão sempre nossas, todas aquelas partes que escolhemos para nos acompanhar.
Ali estava como se de um modelo tratasse, mas a espera de ser modelada, com contornos salobros e de desdém, intocável. Estava apanhada noutro contra-senso, a vida é assim um enorme contra-senso em contra-ciclo com tudo.



Um dia, numa tarde chuvosa, em que o vento nem sequer soprava, reparei:
Num corpo, numa roupa, numa imagem, em varias cores em muitos tons.
Reparei essencialmente numa coisa, ou em duas:
Como é simples apreciar um corpo e como é belo sentir esse corpo pelo seu odor.
Os cheiros fascinam-me a alma, conseguem que ela se arrepie de o esculpir.
Foi nesse dia em que apesar da chuva e do vento que não corria senti uma onda de calor abalar os meus sentidos, as pernas dobraram, os joelhos adormeceram, foi uma queda desamparada. Foram mesmo os joelhos os primeiros a embater na terra, os braços já inertes ao invés de ampararem o trambolhão, foram mais outros a embater violentamente, o peito quase que rebentou tal a força de tal desequilíbrio hormonal. A cabeça, bateu a primeira vez onde descolou os cabelos que estavam de forma alinhada colocados para a direita, o sangue saiu quase de imediato, com a força do embate a cabeça levantou e teve um segundo embate onde varias gotas de sangue saíram em forma de pasta de terra ensanguentada.
Estava ali prostrado naquele dia a ver-me cair sucessivamente. Enquanto as ondas de cheiros chegavam cada vez mais forte.
A verdade é que Ela é linda, sistematicamente linda, morfologicamente apetecível, incrivelmente sugestiva nos seus apetites e na forma de se dar a conhecer. Aquela queda só era possível de vislumbrar enquanto os olhos se vidravam em pensamentos tão nítidos que quase previam a minha queda num futuro próximo. Era num pedestal que talvez ela deveria estar ou numa redoma de cristal, para nunca mais de lá sair. Ao contrario disso estava fechada nos meus pensamentos que circulavam a uma velocidade quase estonteante onde o principio e o fim estavam colados quase que de imediato.
Mas lá estava Ela a rodopiar sobre o seu próprio silêncio. Nos poucos momentos de lucidez emocional, o pensamento fugia dali procurava o verde de uma água desconhecida e o azul de um céu infinito que se projectava a velocidades pouco prováveis nem mesmo sob alçada de uma imaginação abundante em acontecimentos de larga visualização. Estava difícil criar algo de muito belo, mas esse é o princípio... criar sempre algo de belo e transporta-lo para algum lado, nem que fosse aquela tela já tão gasta de tanta cor absorver.
Estava assim sentenciada aquela maldição de todos os dias criar, mesmo que fosse em falso, antes de chegar ao cadafalso.


"Ajudava-me saltar de mim próprio mesmo que em andamento." Charles de la Folie

14 comentários:

a Prinçusa disse...

a musica misturou se com as palavras e acabei por baralhar tudo... gosto de led zeppelin. e gosto do k escreves.


um beijinho

augustoM disse...

Criar e sonhar ou sonhar e criar, não se pode dissociar.
Um abraço. Augusto

Cocas disse...

Simplesmente fantastico!!!
Beijos

A Rapariga disse...

http://thumbsnap.com/v/4Yv9OPLt.jpg

esta prenda é para ti, fui eu que escrevi.

Como vês editei livros antes de ti
Quem diria?

Este teu texto fez-me pensar que muitas vezes o belo não está necessariamente associado ao belo, propriamente dito, mesmo que o acto de criar seja um acto de amor e muito belo.

Gosto imenso do que escreves, e já li o teu livro.

Parabéns!

João Mãos de Tesoura disse...

Depois de ler este texto... vou calçar umas botas com solas de borracha! :D
Abraço

Maria Manuel disse...

E podes! (Saltar de ti próprio...)
Pessoa abriu caminho!

≈♥ Nadir ♥≈ disse...

:) Muito bem!
Passei e não podia sair sem deixar votos de uma boa semana.
Beijos

Os 3 porquinhos disse...

apesar de estar parado é mais um texto que me ajuda a saltar de mim.
[[]]
AS

Binoc disse...

Led Zeppelin :) espectáculo.
E ainda há quem pense que a década de 70 foi má musicalmente.
Um grande abraço. Tens andado desaparecido.

O Micróbio II disse...

Bom fim de semana...:-)

≈♥ Nadir ♥≈ disse...

O tempo passa, a vida esmorece, mas…

No compasso lento das horas
Numa corrida contra o tempo
Marco presença mesmo
Que seja só para desejar
BOM FIM DE SEMANA!!!

Beijos
Nadir

Foxylady disse...

Mais uma visita, agradável como sempre...bjocas

O Anarquista Duval disse...

Binoc:

os gajos que acham que os 70's foram mal musicalmente, geralmente são palhaços que ouvem SÓ música dos 80's, que foi a época em que mais gajos que não sabiam música começaram a fazê-la!

Mónica disse...

"impossivel as portas não se abrem" digo eu