terça-feira, setembro 11, 2007

Imagem brutal

(…) Sentia-me tranquila a pensar em mim. Sentada na borda da minha cama puxava calmamente as minhas meias novas de rede – pretas. Sorria, gostava de o fazer, enquanto tirava partido de mim. Adorava seduzir-me, olhava para o espelho enquanto as puxava. Tinha umas pernas bonitas, brilhantes e bronzeadas. Uns joelhos sem marcas, umas coxas compridas que terminavam nuns quadris carnudos e apetecíveis. Gostava de passar a mãos devagar por elas, senti-las. Nada como fazer jogos de sedução comigo, fazer umas meias percorrer por cima daquela pele sensível e cheia de vontades.










(…) Tinha ao espelho a mesma sensação de quando sou olhada e apetecida - naquele momento fiquei envergonhada. Fixei-me nos meus próprios olhos, embaracei-me comigo. Tinha medo de mim, pensava que me podia negar aos meus belos prazeres. Estava a ser egoísta, preferia-me a ser preferida. A cumplicidade entre o meu espelho, a minha imagem e os meus prazeres assustavam-me, mas não me desanimavam.




(…) Enquanto me olhava, massajava a sola dos meus delicados pés. Eram sensíveis ao toque, havia partes que me faziam humedecer os lábios, me punha desconcertadamente atenta a sinais que me chegavam. Imaginava alguém a percorre-los com a língua, e sentia uma vontade incontornável de me ter. Com a ponta dos dedos sentia os tornozelos, contornava-os até ao peito pé, e massajava toda a parte inferior. Estava em mim o poder de me deslumbrar. Olhava para o espelho e … ali estava parada a espera de um movimento perdido em minha direcção.



(…) Cresci a olhar para mim, mas nem sempre me vi como hoje me vejo – com prazer. Houve tempos em que me odiei… odiei cada passo que dei até me conquistar. Sinto nas pernas o meu peso, como sinto nelas o meu poder de encanto e de poder subornar-me nas alturas em que me odeio. Gosto de passar as mãos de uma forma suave. Percorrer as coxas de uma forma calma e cativante, percorre-las e enganar sítios que me querem e humedecem com a violência de um olhar.



(…) Deixo-me cair para trás na cama. Com as mãos na zona abdominal faço força para conseguir levantar as pernas para cima. Observo-as, contemplo-as, deixo-me levar pela sua beleza. Vejo e revejo-me, dona dos meus próprios destinos, vontades e prazeres. Penso quem sou e quem fui, e desejo desejar-me sem que isso me provoque fúria, ansiedade, desespero, irritação. Dependo de mim para manipular os meus sentimentos e vontades. Olho para a imagem que se deixa reflectir no espelho, e cada vez mais sinto que sou dona de mim do meu corpo. Só eu me poderei magoar.


Apeteceu-me


"Revi ontem a tua imagem, mas só hoje me apercebi como sou". Charles de la Folie

4 comentários:

Carlos Barros disse...

Estou surpreendido...

augustoM disse...

Talvez seja o narcisismo da sedução ou uma sedução narcisista? Seja como for, gostei deste exercício no feminino.
Um abraço. Augusto

particula-RG disse...

Curiosas as imagens... com que ilustras os textos.

Claudia Sousa Dias disse...

:-)

Narcísica sedução!

bjo

CSD