Cheguei ao IPO por volta das onze da manhã, estava calmo e respirável. Nas escadas o cheiro a desinfectante, nos corredores apenas os murmúrios das enfermarias. Os passos – que por aquele imenso corredor me levavam ao quarto onde estava a mulher que me deu à luz num qualquer verão de mil novecentos e sessenta e quatro – eram firmes. As lágrimas espreitavam pela janela da alma. Uma música saía tímida dos meus lábios, sei perfeitamente qual era: “To Sheila” dos Smashing Pumpkings; fiz dela a minha companheira das horas tristes, fez-me sentir vezes sem conta forte e real. Ultrapassava assim o crepúsculo das minhas incertezas mesmo que fosse num destino incerto. A porta do quarto estava entreaberta, no tecto um televisor debitava notícias. Ao fundo a rua entrava pela janela sombreada pelo silêncio dos vidros. Senti o vazio arrepiante do quarto, duas camas vazias e um respirar forte. Julieta estava encoberta pela porta. Óculos na ponta do nariz: a expressão regressara ao seu rosto. Um sorriso magnífico, igual ao sol que reflectia num prédio espelhado em frente. Nas mãos o jornal que lia com a vontade de todos os dias. A doença tinha-se ausentado para parte incerta e tinha deixado aquela alma entregue ao que ela sempre fora. Fiquei incrédulo – lembro-me – mas contente ao vê-la espantada a olhar para mim perante tamanha admiração. – Que se passa, parece que viste um fantasma – disse e voltou a olhar para o Correio do Ribatejo – já viste quem morreu – perguntou. Limitei-me a fitar o jornal sem o ver. Estava divertida como sempre fora. Fui atirado para dezenas de quilómetros dali, percebi que se sentia em casa apesar de estar naquela cama.

Apeteceu-me
"Grande parte do dia é alumiado pelos sonhos" Charles de la Folie
2 comentários:
e às vezes os sonhos são apenas uma pequena parte do pesadelo.
beijo grande em ti!
convite para seguir a história de Alice, lá no
--- continuando assim... ---
vai do capítulo 4 , e ainda há tanto para contar ;)
bj
teresa
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