(...)Faltava uma prova de fogo: entrar na casa de sempre agora desabitada dela. Pela primeira vez não estava na varanda à nossa espera. Pela primeira vez a sua silhueta – debruçada no ferro que dividia o vazio do ar com o betão do segundo andar – não estava lá. Pela primeira vez engolia em seco aquele desespero que é recordar que nunca mais a vemos. Pela primeira vez aqueles quarenta degraus me pareceram inultrapassáveis. Eram demasiados. O folgo descontrolava-se, o oxigénio parecia escassear naquela subida ao tecto do Mundo. Nunca me tinha apercebido como o mármore podia ser frio. O corpo emudecido e dormente pela gélida subida resgatava todos os detalhes que dela se podiam tirar. Os nomes cravados na parede apenas escondidos pela tinta branca já envelhecida pelo tempo recordavam-me a infância que ali passei. Os amigos com que ali brinquei. Os amores – os primeiros – que nunca sobressaíram. Estavam ali gravados naquela penosa subida. Como sempre a minha irmã desbloqueou o momento na sua simplicidade e na sua eterna grandeza de ver as pequenas coisas, os pormenores. Na caixa onde está guardado o contador da água – recordou-me ela – o que lá costumava guardar. Sabes – disse naquele tom jovem que mantém e que o mármore fez ecoar – aqui guardavas as cobras que apanhas por aí – rematando – eras mesmo parvo. O sorriso libertou-se mesmo sabendo que o dizia há mais de trinta anos da mesma forma e no mesmo local. Era bom sorrir, sentir que juntos podíamos ultrapassar aquele medo do escuro. A chave cravou-se no segundo andar direito daquele prédio da Avenida António dos Santos. Um som cavo e metálico libertou as trancas. A porta abriu-se e uma escuridão abateu-se no primeiro pestanejar. Doeu. (...)

Apeteceu-me
"A ruptura em si não surpreende apenas nos mostra o caminho" Charles de la Folie
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