quarta-feira, maio 05, 2010

Vidas (Em)cruzadas) - Ressacas III

(...)Tive de a agarrar… agarrado e de que maneira, vou chamar-lhe a bebedeira carraça, mas tive de a agarrar em algum lugar, deve ter tido algum objectivo. Afinal, e ao que parece, segundo se diz e se sabe, eu ainda sou dos poucos que pensam que para beber tem de haver duas razões. A primeira e a segunda, sendo que a primeira é por tudo e a segunda por nada, quer dizer se eu fosse de pensar até que arranjava pelo menos mais umas quantas, tipo mais uma. Se o Tico e o Teco estivessem com a sua veia inspirada, diria que para uma boa bebedeira basta uma “boa”, pois uma “boa”, ou muito “boa” razão, ou por uma “boa” causa, ou por uma “boa” zanga, ou uma “boa” discussão, nunca por uma “boa” queca. Aqui passa-se da conta, ai, ai, até me custa a dizer, este dizer é mesmo a admitir, adormece-se e faz-se uma figura medonha… mas muito pior, mas muito pior que a figura que se faz… ai podem crer que é o reencontro… quando se chega ao local habitual e se tem aquela conversa:
- Então?
- Então, como vai isso?
- Então!?
- Então, tudo bem?
- Sim, só os sapatos um bocado apertados?
- E a tua avó ainda é motard?
- Sim. E o teu avô, sempre bateu o «recorde» de comer pastéis de Tentúgal?
- Pois!?
- Sim?!
- Então…
- Então…
- Ok… chau ai…
- Ok, chau… ai… foi muito mau?
- O quê?
- Sabes?!
- Sei o quê?
- Chauzão então…
- Pois correu mal, mas eu safei-me.
- Ahhh... imagina!
- Pois, imagina mas esquece.
- Chau! Ok!
- Chau... fica bem...
Pois e sabem o que é o pior dessa conversa? É que tu sabes que aquela foi a oportunidade perdida. Ela queria, tu querias e agora?
Bom a “estória” mantém-se, eu quero muito, só que ela já não quer nada.
Mais negas, mais desilusões, mais psiquiatras - quer dizer se forem do calibre da Dr.ª Mónica que venham, mas agora tenho de ir mais devagar - mais uma série de interrogações que só as mulheres sabem. Ora Porra!!!
Estava a pensar ligar-lhe, mas agora com este recalco dá-me algum receio. Dá-me?! Não me dá nada, fico com algum receio, ora agora, alguém dá alguma coisa a alguém? Claro, ela devia e deve estar furiosa, aquela noite, supondo, pois claro isto supondo que existiu, teria sido, ou foi mesmo uma noite tramada, levada da breca. Nem sequer quero pensar nela, noite lógico, a verdade é que todos os vestígios são comprometedores. Ai o álcool, mas como diz o Pilitas “mais vale um bêbado amigo que um alcoólico anónimo”, por isso, “toca p’ra diante que já se faz tarde”.
Mas lá está, não me sai da cabeça nem a Puta da dor, nem se terá sido uma noite catastrófica, terá? Terá? Nãããã… nem quero pensar nisso, não é bom pensar nisso, nem devo pensar nisso, mata-me pensar nisso…
Estranho… a porta da rua está aberta, é estranho, muito estranho, porque está a porta aberta? MISTÉRIO… alguém terá saído à pressa ou será que alguém entrou muito torto, muito mesmo? Torto entrei de certeza, essa não era uma dúvida por certo, mas estava com a esperança de que ela não tivesse estado ali comigo… provavelmente trouxe-me a casa, pois provavelmente…
Hummm… Essa é uma ideia fantástica, fabulosa mesmo, podia ter feito uma péssima figura, mas a minha virilidade estava lá presente. Boa… boa… o Tico e o Teco estão a fazer um bom trabalho de raciocínio, lá vem mais uma dúvida, odeio a palavra, mas estou a ser assolado por mais uma dúvida, ou seja: - quando ela me veio trazer a casa devo, claro que devo ter tentado que ela subisse, certo?! A não ser que estivesse ebriamente morto e sem vestígios de poder ressuscitar.
Hummm!!!! Deixa cá por a cachimónia a matutar…
Visto assim à distância, à distância de poucas horas, a coisa deve ter sido engraçada, muito engraçada mesmo. Esta dor de cabeça continua violentamente a aborrecer-me, mas… espero que ela dê uma desculpa… pois espero que ela me dê uma desculpa. Qual desculpa… um desconto, eu preciso é de um desconto, mas já pareço, sei lá quem a tentar adivinhar os meus passos, um verdadeiro puzzle… ai a desgraça, imagino o diálogo:
- Meu amorrrr sobe comigoooo…
- Não! Tenho de ir para casa.
- E, então, esta casa é tua.
- Minha?! Não brinques com coisas sérias.
- A minha coisa é seria demais… a minha coisa… claro o meu amor.
- Vá lá… sobe, estás uma desgraça.
- Qual desgraça?! Eu quero é a tua graça. Vá sobe, sobe, sobe que ficas calada… ou será cansada?
- Não, não tenho de ir, já é muito tarde.
- És o meu amor, minha flor!
- A tua flor vai para casa...
Tipo duas horas depois.
- Acorda e vê lá se não me vomitas o carro!!
- Ahh!… Humm!… Ah!… eu não estava a dormir estava a pensar em ti, pois… na tua graça.
- Desculpas, pira-te, até amanhã...
Bom este pensamento, não dá com nada, dei-lhe o flanco todo, agora ela tinha-me onde queria, bem amarrado aos... pois, talvez nada disso tivesse acontecido, se... pois se... estes ses, que grande porcaria se está a passar comigo, eu não era assim.
Mas esta dor de cabeça não me larga e pior, muito pior e no meio disto tudo o que é certo, o que é realmente certo, é que a porta está semi ou se-mi aberta… que se lixe… e o Cão Guru acaba de me mijar nos pés.
Há quem diga que quando um homem anda em maré de azar até os cães lhe mijam nos pés.
Ora Porra!... Que grande Porra!... Que raio de vida a minha, e ainda é um quarto para as nove, pensando melhor antes fosse um grande quarto para as nove, mas grande não era e as nove não cabiam mesmo no meu quarto, ai não cabiam não! Como diria a fadista, até que a garganta me doa, só que em versão sexo.
Um quarto para as nove… e só de pensar que tenho de ir trabalhar, esse é outro mistério… E… eu trabalho?
Talvez, quem sabe?! A cabeça é que não pára, não pára de pensar, não pára de doer, muito menos pára de andar à roda.
Até que enfim, consegui tirar o Cão Guru daqui da perna, agora o melhor é tentar tomar um banho retemperado… mas… bolas…
É mais difícil do que eu pensava, convinha primeiro limpar a casa, mas como???
(...) Continua
Apeteceu-me

"Perde-se a oportunidade mas ganha-se um principio" Charles de la Folie