terça-feira, julho 06, 2010

Vidas (Em)cruzadas) - Pancada II

Entre as coisas que me vêm à cabeça são - dois pontos, parágrafo:
- Onde é que passei a noite, porque a passei, com quem passei, que me fizeram e porque fizeram e com quem fiz? Atenção nada de pensamentos promíscuos, porque falo simplesmente e quem sabe, infelizmente, de copos, não falo de quecas… - que grande suspiro - isso são outros quinhentos paus, são mesmo outras histórias, e claro histórias de um outro rosário. Quer dizer, podem ser deste, mas só são ou só serão quando eu quiser, e agora não quero mesmo pensar nisso, agora o que eu mais desejo e que mais quero, é como conseguir alcançar a cozinha. É que neste momento parece-me um objectivo, uma batalha inatingível. Só espero que esteja lá o meu extracto de guaraná, o meu querido amigo desintoxicador hepático, uma coisa amarela, com um sabor horrível, horrível de se tomar e de beber. Aquilo parece - num copo de água, num simples meio copo com água - ter concentrado uns vinte quilos de açúcar, mas é inegável que é tiro e queda. É “espantástico”, “fabulástico”, incrível, é um arrebatador de ressacas e pedradas, já pareço uma daquelas anunciantes de publicidade manhosa no canal de compras. Só peço a todos os santinhos que ainda tenha algumas bombinhas daquelas, porque caso não tenha… ai se não tenho, estou completamente, perfeitamente lixada com PH! É coisa para me suicidar, tipo enforcar-me pela barriga claro, pelo pescoço depois faltava-me o ar. Só espero que sim, aquelas pequenas garrafinhas são e serão sempre uma dádiva de Deus...
A história é rápida, foi uma vez num churrasco brasileiro, num rodízio, eu provei a caipirinha (bebida feita com lima, cortada às rodelas ou macerada, açúcar, gelo picado e cachaça, muita de preferência). Os rapazes, os rapazes, as raparigas sei lá, toda a gente trazia carne à força toda, mas antes e depois de provar aquela dádiva dos céus parecia que o mundo ia acabar e bebi o mais possível. A primeira vez que fui à casa de banho, ainda me lembro, aliás, só me lembro dessa vez, as outras… contaram-me. Lembro-me que olhava para o espelho e ria-me que nem uma louca, que nem uma perdida! Claro, estava mesmo perdida, falava comigo ao espelho, tipo a madrasta da Branca de Neve, só que para mim, não é como nas histórias de fadas, cá comigo os espelhos mentem muito, são muito mentirosos, falta de um bom correctivo.
Figuras, pois figuras tristes, muito tristes, mas existem figuras mais tristes, digo eu aqui que ninguém me está a ouvir. Ah! isto tudo para dizer que fiquei em coma etílica, por outras palavras, com uma bebedeira monumental, daquelas de caixão à cova - deixa-me cá bater na madeira.
E aí entra a garrafinha milagrosa, a tal, a maravilhosa, a inefável garrafinha milagrosa. Deram-me daquilo e parecia que me tinham dado um choque, daqueles dos filmes, com um desfibrilhador - duas coisinhas que se esfregam uma na outra, parecem dois ferros de passar a roupa, depois espetam com aquilo no peito e damos saltos que parecem os do cão do Pilitas. Por falar no cão do Pilitas, o que é feito do Cão Guru? O que é feito dessa alma linda e babada?!
Continuando (a contar) a minha experiência da garrafinha milagrosa, abri os olhos de uma maneira que nem vos conto… Conto sim… foi de uma tal forma que no dia seguinte parecia que tinha uma distensão muscular na pálpebra, simplesmente maravilhoso, é quase inexplicável tal é a velocidade de actuação daquela Porra, que quase parece irreal, quem sabe se não é mesmo?! É mais uma daquelas coisas que só a nossa cabeça pode explicar, ou seja, acção psicológica, mas enfim.
Sempre que há alguém conhecido que vá ao Brasil, não mando um bilhete postal, mas peço sempre para me comprar as benditas garrafinhas de extracto de guaraná.
A caipirinha, essa enjoei-a de uma forma que nunca mais bebi, a não ser umas Caipiroskas com Vodka, ou Caipirissimas com Tequilla, o que me irrita muito, porque com a caipirinha lembro-me… lembro-me… não me lembro de coisa alguma, mas contaram-me depois que estive e estava sempre alegre!
É que sou um bocado maníaca ou depressiva e passo logo à fase do choro, tudo isto por causa daquele filho de um comboio de melancias do Vasco. Mas, mesmo assim…claro que não posso estar só e sempre a pensar em coisas alegres, porque não resolvem nada, e mesmo que resolvessem!? Sinto-me terrível, parece que acabei de ser atropelada por um camião Tir. Só espero, espero mesmo, verdade verdadinha, que haja aqui em casa alguma coisa milagrosa. Faço votos para que exista.
Eu sei que tenho de alcançar a cozinha, eu sei quais as coordenadas para lá chegar, da minha cama até à cozinha são…
Isto parece o mapa do tesouro, nesta altura do campeonato é mesmo um tesouro o guaraná, é ouro puro, purinho da Silva. Ora então, da minha cama são sete passos para abrir a porta do quarto; depois virar à esquerda; doze passos dos meus ou seja, são passos pequenos, virar à direita, abrir a porta; dois passos, rodar à minha direita, esticar o braço e vasculhar a cestinha que está em cima do microondas e encontrar o remédio milagroso. Se for para chamar o Gregório, em vez dos doze passos, são só seis, virar à direita, mais quatro passos, ajoelhar, puxar o tampo para cima e gritar por ele até à exaustão, até que a garganta me doa, isto não é tema de um fado?! Será que se chama o fado do Gregório?!


Apeteceu-me

"No principio pensamos no fim e no fim já não há tempo para pensar" Charles de la Folie

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