quarta-feira, junho 29, 2005

A QUEDA

A Queda




(...) Parecia em camera lenta a sua queda, de braços abertos, os cabelos soltos, e desfiados, os olhos fechados, lentamente parecia uma arvore a tombar. Caiu redondo no sofá, aquela ultima passa tinha sido mortal.

(...) Naquele dia, naquele inóspito dia, lembra-se de estar á conversa com um aborigene, uma longa e leal conversa. O sitio parecia tenebroso, escuro como breu, mas cheio de significados que demoravam a aparecer e a saltarem cá para fora.
O seu interlecutor, era uma pessoa escura, muito escura mas de cabelo branco, um cabelo liso, desgrunhado, mas simétricamente desalinhado, cada desarranjo do seu cabelo parecia estar no sitio certo.



Os olhos eram uns olhos escuros, penetrantes, com muita história, e também histórias, muitas, eram uns olhos sábios, com muito, bastante mesmo para dizer. Um nariz grande, enorme, com umas narinas que abriam de uma forma espantosa cada vez que enalavam e expeliam ar, dai aquela caixa toráxica fora do normal.
Uns lábios finos, cada vez que debitavam sons, palavras, frases, pareciam musicas, se uma janela imaginária se abrisse de par em par, e só focasse aqueles lábios poderiam vê-los dançar ao som da sua música, da musica, da sua própria musica.
As suas mãos, as suas enormes mãos, eram rasgadas por grandes linhas, daquelas que se querem da vida, do amor e de muitas outras que só as ciganas conhecem os segredos. Eram umas mão cheias de Estórias, cheias de trabalho, cheias de grandes silêncios e segredos.
Era, era um enorme homem, um grande judicioso, um grande fazedor de carácteres.
A conversa com este homem, este sábio homem, a conversa, dizia, corria como as cerejas. Conseguia dizer, sem nunca o referir, que a vida, a "sua" vida levava uma direcção errada, muito errada, que as consequências poderiam ser graves, muito graves e irreversiveis.
Mas era a forma como o fazia, a sua calma, até a sua transpiração parecia falar, parecia desenhar no seu rosto respostas ás dúvidas, ás suas imensas dúvidas. Olhava para as mão aquelas mãos, que já foram desenhadas por ai, que hà muitos anos, mãos iguais foram, escritas, escrevinhadas e redesenhadas em grutas, há mesmo muitos anos. Aquelas mãos, que agora manuseavam com habilidade, uma pasta, era uma mistura, que só ele sabia e conhecia, era um segredo bem guardado que tinha sido transmitido pelos seus antepassados, de geração em geração.
Focava a massa, a mistura, mas gentilmente e suptilmente, fez-o olhar para os seus olhos, para aqueles olhos que pareciam uma televisão, estava a ver os erros que cometera, aqueles erros que poderiam modificar a sua vida para sempre, parecia ver, a sua morte ou algo parecido, estava algo deturpado. Os olhos iam dizendo coisas, tais como as mortes que iria provocar, os muitos “males” que ia fazer.
Aquilo ia mesmo acontecer ele sentia-o. Aquele velho sábio tentava dizer-lhe alertar-lhe, parecia encolher-se, cada vez que se soltavam coisas más na vida que estava a passar de relance naquela visão ou naqueles olhos, talvez não fosse muito nitido para ele, mas para o aborigene, era claro. A posição e pelo esgar de dor, pareciam facadas que se estavam a cravar naquele corpo cheio de história e de histórias era evidente que a vida seria um inferno e que tornaria um inferno a todos que tocasse, por isso... aquele alerta, ele o velho não era uma visão, mas sim um alerta.
De uma bolsa feita de pele, uma pele vermelha, bem curtida, curtida pelas suas mãos tirou, um cachimbo também ele vermelho cor do deserto, por onde toda a vida deambulou...
Agarrou no pedaço de qualquer coisa que manusiava, aquela pasta que só ele conhecia, enfiou com muito jeito, dentro do cachimbo. Acendeu-o, puxou com uma força infernal, esperou alguns segundos e expeliu um fumo cor de nada cá para fora, passou o cachimbo, ao nosso personagem, que naquela altura, no seu primeiro folego, caiu redondo no sofá, na sua primeira e ultima passa.(acordou 2 dias depois)


Apeteceu-me

“ Os alertas existem, mesmo que não se dê conta” Charles de la Folie

48 comentários:

SaltaPocinhas disse...

Será por isso que já vais no dia 29??

Betty Branco Martins disse...

Olá Carlos

Muita coisa se pode ler na entrelinhas deste teu texto a "A Queda" está completo, perfeito! O teu talento não tem limites nem fronteiras

Parabéns!

Um beijo

contadordehistorias disse...

E deixou-se estar. Corpo abandonado no sofá e uma alma turva a pensar no preço cada vez mais elevado das mortalhas...

abraço

carmuue disse...

eu juro que ia comentar... mas fiquei arrepiada pela música!!!(Brrrr!!!!)
bigadax pla vizita... não deixes nunca de escrever assim!

inesita disse...

carlos, o abnegado

miss caipira disse...

Queria retribuir a visita...
E olha, vou me tornar visita.
Que texto!!!

agua_quente disse...

Não é por nada, mas esse pedaço de qualquer coisa até fez com que te adiantasses no tempo... :)
Como sempre, o teu texto está delicioso de ler. Beijos

lique disse...

Começo a habituar-me à tua escrita delirante. Escreves sempre num plano intermédio entre o sonho e a realidade. Muito bom. Beijos

A. Duarte Lázaro disse...

Mais uma das excelentes histórias a que já nos habituaste. Os alertas existem sim, o difícil é (querer) entendê-los.
Eu fiquei com vontade de cair em queda livre, como referes no teu texto, mas não para o sofá. Vontade de dormir, mas não por 2 dias... por 10. Vontade de sair de mim e atirar-me no breu. Desaparecer. E renascer para a luz daqui por 10 dias...
Beijos aos dois

mfc disse...

Mas ca granda passa!
Quer dizer... cachimbada!

miss ursula, vidente disse...

a sua aura está muito matizada. é difícil para já perceber a cor dominante. penso que terá a ver com a dispersão pela blogosfera.
o carlos é do sporting. isso vê-se bem. sportinguista fanático, aliás.
é dificil perceber o estado civil. será talvez um problema de definição ou de precaridade.
continua

Bino (Abrupto Sexual) disse...

Ena, fui promovido a Kamarada. Para mim, isso vale muito mais do que imaginas.
Um abraço, do Bino

Rei Urso (e)vidente(mente) disse...

A aurea é de Rei, é mais uma Coroa, não Sueca como o vil metal.
Vê-se que o verde predomina nas suas roupas apesar de andar sempre nú, pode ser o verde [de]funto.
o estado, nunca é civil e culpa nunca morre solteira, por isso é mais que [E]vidente para entender que é Bem casado.

" não queiras assinar documentos em papel molhado, porque ao fim ao cabo sais sempre casado..."
In Malta a Porta IODO.

gine brejnev disse...

o kamarada bino foi aceite pelo comité central?!
kamarada benvindo à luta da classe operária

Bruno Maia disse...

Obrigado pelo comentário no www.sobremusica.com.br .// Espero que volte sempre ao site.

Abraços

tovarisch Brezjniev disse...

Levaste ko martelo na pinha, tá visto.
Olha, prá semana, FIL?

lazuli disse...

és demais:)

Micas disse...

Gostei do alerta que passas nas entrelinhas. Gostei imenso deste texto.

Elise disse...

"Apeteceu-me"

E ainda bem!

Abraço!

silviaflor disse...

retribuo a tua visita.

Comida? Gorduroso. E logo eu que estou a tentar emagrecer estes pneus.
AI AI

Morsa disse...

Tá giro... Sim senhora

Anónimo disse...

Oi...

passei para retribuir a visita! Obrigada plo coment lá no meu mundinho!!! Volta sempre, serás bemvindo, pois eu também voltarei mais vezes dado que gostei deste blog!!!

Bom restinho de semana...

Jitos.....

Mónica Duarte, Sons Lunares

Freddy disse...

Bem escrito...Mto bem escrito mesmo...

E, mal que te pergunte, para qdo a queda de alguns pilares (pseudo importantes) da nossa sociedade...?

Abraços da Zona Franca

francis disse...

Se os textos são teus, então estás de parabéns, pois escreves muito bem.
Quanto ao gajo... pá, pensei que fosse um taliban :-)

Daniel Aladiah disse...

Estás convidado...

vi disse...

primeiro k td vim agradecer e retribuir a visita ao meu blog... dp venho informar k voltarei cá, pk gostei d k li... bjos

Janinha disse...

Olá... vim retribuir a visita e dizer que voltarei ... tens um blog 10*. Textos lindissimos. Parabéns e obrigada ...gostei da tua presença no meu humilde blog.

Cetus disse...

acordar dois dias depois!
gostei muito, e a subjectividade é imensa, tal como o mundo, um abraço

Adryka disse...

Olá Carlos o teu post é profundo diz muito nas entrelinhas, consegui perceber a tua mensagem. Um abraço meu amigo, tomara que muitos acordem das pasmaceira em que se encontram

Ana disse...

Um texto que não dá para ler obliquamente... temos que o ler atentamente... um texto interessante e profundo

mulhergorducha disse...

Gostei bastante. O texto dá que pensar... pelo menos a mim

nunomgl disse...

Grande som Carlos!

Espectro #999 disse...

   ⊆⊇   Carlos Barros   ⊆⊇   antes de mais, o agradecimento da praxe em relação à visita no meu território   ⊆⊇   que espero, se mantenha por muito e muito tempo.   ⊆⊇   Depois e já a comentar este teu post sugiro, talvez uma quantidade menor   ⊆⊇   de letras nos teus post's   ⊆⊇   pois pareceu-me estar a ler um livrinho das edições   ⊆⊇   Europa-América.   ⊆⊇   Não que seja mau [...] muito pelo contrário, está carregado de sub-intenções na transmissão da mensagem   ⊆⊇   mas de facto ajudava bastante que não fossem tão longos.   ⊆⊇   O tempo nem sempre nos sobra para podermos debruçar-nos sobre estes maravilhosos textos.   ⊆⊇

   ∇ Inté ∇

tamina disse...

MENINAS...e meninos... O CARLOS É O MÁXIMO, NÃO É?EMBORA ESCREVER O ELOGIO AO CARLOS?

madame ursula, vidente disse...

a sua aura hoje está um pouco sombria. penso que terá a ver com as vibrações pouco calorosas do carteiro. você dá-lhe muito trabalho e ele anda muito cansado.
continua

Rei Urso (e)vidente(mente) disse...

E[vidente]mente, que Pablo Neruda, nunca cansou o seu carteiro ou os seus poemas não tivessem 49 Kilómetros, porque se cansaria{en}tão o Carteiro?


"Chegou o carteiro
das nove p'ras dez
a vizinha do lado
de roupão enfiado
chegou-se à janela
em bicos de pés
e logo gritou:
"Traz carta p'ra mim?"
e o carteiro que é gago
espera um bocado
e responde-lhe assim:
"Não não não não não
não não não trago nada
só só só só só
só trago o pacote
da sua criada"



In O Carteiro
Antonio mafra

maria l. duarte (secret) disse...

Sem dúvida uma pérola em cada linha... todas as palavras fazem sentido num último sentido final de múltiplos significados. Gosto de reflectir por aqui... Parabéns. Beijo sincero

Maria Manuel disse...

Passei pela república, a colher impressões e a deixar mais um pêssego...

Gininha disse...

Vá lá que acordou...

Carla disse...

Naquilo que escreves, o facto surpresa mantém-se até à última linha. Sorri com aquele acordar dois dias depois. Por vezes precisamos mesmo de quedas assim... :) Beijos :)

Tão só, um pai disse...

... e a soneca foi boa, ou ressacada?

sylpha disse...

Como sempre um texto fantástico e que diversas inbterpretações terá. Mas...acordar 2 dias depois, tal seria a exaustão ;) Beijo enorme :))

Iluvatar disse...

maravilhosamente bem descrito, mesmo muito bom, adorei os pequenos pormenores e a forma como os exprimes, a música tá fabulosa, cria um pano de fundo, talvez um deserto na austrália, muito bom mesmo!! Cada vez mais impressionado!!
Grande abraço

Iluvatar disse...

maravilhosamente bem descrito, mesmo muito bom, adorei os pequenos pormenores e a forma como os exprimes, a música tá fabulosa, cria um pano de fundo, talvez um deserto na austrália, muito bom mesmo!! Cada vez mais impressionado!!
Grande abraço

O Vizinho disse...

Muito bem escrito, muito bem estruturado e com bastante subtileza na mensagem.
No entanto confesso que a minha primeira reacção foi a descrever um comentário do género "GANDA MOCA, MEU!!!"... mas contive-me, graças a Deus!

hehehe

Caiê disse...

De tudo até hoje, foi do que mais gostei. A Gata também... Miou e miou. Congrats.

La follie, estás cada vez mais conhecedor destes humanos! ;)

Tovarich Gina disse...

Cada vez que leio este teu texto me pergunto se não ando a fechar os olhos aos alertas que me surgem todos os dias...

Persephone disse...

fabuloso texto, acompanhado por sons bastante relaxantes. Fechei os olhos e desci em queda livre para um mundo que desconhecia. deixo as mortalhas de lado e viajo sem fumos

beijo