terça-feira, abril 19, 2005

Motard

Motard (rasga-lhe o corpo)



(...) Parou a sua mota, mal chegava com os pés ao chão, encaixava-se na perfeição ali, era uma espécie de chopper, um motão, que andava que se desunhava.
Podíamos fazer aquelas comparações que toda a gente faz e diz, tipo: ela era uma “Easy Rider”, adorava andar com os cabelos ao vento pela “highay”.
Mas não! Parou a mota, numa rua escura, meteu-a no descanso, trazia um enorme casaco de cabedal que quase lhe tapavam as botas, umas botas muito elegantes da Donna Karan, tirou uma das pernas para o lado de cá, ajeitou-se, tirou as luvas de cabedal preto, com umas protecções na palma das mãos de metal, recolheu-as na sua mala, uma mala dupla daquelas de usar a tiracolo, como o bornal dos cowboys.
Tirou o capacete, um capacete escuro com uma viseira escura, de lá de dentro uma enorme cabeleira escura, morena, cor mediterrânea se é que isso existe, sacudiu o cabelo, de um lado para o outro com convicção, saltava a vista uns olhos verdes, um verde azeitona, quase que me atrevia a chamar verde Martini, mas essa cor só existe mesmo na minha memória ou na minha imaginação, era uma doce face, doce e linda, de uma ternura invejável.
Meteu o capacete em cima da mota, uma mota, cheia de cromados, digna de uma rainha, o seu tamanho assustava, o seu roncar era magnifico, a sua postura quase perfeita, era feminina, muito feminina, como a sua amiga, era uma Harley, uma mota, uma amiga , uma paixão. Apaixonadas uma pela outra, nunca se traíram. Ela tinha sido um presente do seu pai quando nasceu, esteve a sua espera 18 anos, 18 lindos anos.
Deixou o capacete no banco da mota como já tinha sido referido, olhou em frente e avançou, com um andar decidido, pé ante pé, como quem está numa passarela, uma andar decidido e seguro, quando chegou a porta de onde ia, o porteiro mandou-a avançar, entrou, calmamente jogou as mãos às golas do seu grande e pesado casaco negro que lhe protegia o corpo, quer das quedas quer do frio, e retirou-o.
Foi de cortar a respiração, foi um momento mágico, as pessoas que a conhecem recordam, que quem não a conhece, apaixona-se rapidamente.
Naquele dia tinha um vestido preto, simples, muito simples não muito decotado, mas que realçava o seu regaço e algumas curvas dos seus peitos, as alças descaiam pelos seu ombros, queimados do sol de outras paragens e férias. O seu pescoço era estupidamente atraente e aquele vestido dava-lhe ainda mais graça. O vestido caia direito, ligeiramente cintado, não muito, mas caia um palmo, um bom palmo acima dos joelhos, uns joelhos, de sonho, umas pernas torneadas, bronzeadas, nem muito magras, nem muito robustas, estavam num meio termo, entre a perfeição e o requinte, e aquelas botas cor de pele justas, quanto baste, estava magnifica.
Sorriu, primeiro deixou o bornal, depois o casaco, cheirava muito bem, os seus olhos verdes ali ganhavam outras tonalidades, quando a luz ganhava vida e a musica começava a bater, o seu corpo estremecia.
Deu dois passos olhou a sua volta, rodopiou umas duas vezes encostou-se de costas ao balcão, o barman já a tinha visto, ela inclinou a cabeça para trás, como quem vai lavar o cabelo, abriu a boca, e automaticamente o barmam, encheu-lhe a boca de tequilla quando ela levantou a cabeça empurrou-a .
Foi directamente para a pista de dança, o seu corpo começou a vibrar novamente, cada vez mais, as suas pernas não paravam, as ancas abanavam-se com uma sensualidade de fazer corar, não pelo arrojo, mas porque era difícil desviar o olhar, era como um vicio, não se conseguia tirar os olhos.
De cabeça baixa, abanava-a, os cabelos andavam soltos, de um lado para o outro era fantástico quando a levantava olhava em frente os seus olhos confundiam-se com os projectores, tal era o brilho, um brilho de prazer, de fascínio, de alguma loucura, de uma vontade de dançar. A musica , batia, batia, batia, tocava, tocava.
(...) levantei os olhos do estirador, suspirei, e disse bem alto: - que porra.
- Não conseguia encaixar aquela mulher, aquela história, no anuncio que tinha para entregar daqui a 1 hora, era difícil, meter ali uma garrafa de lixívia.

Apeteceu-me

"Um dia saltará um olhar, para dentro do corpo e ai cairás dentro de ti"

Charles de la Folie

12 comentários:

Vênus disse...

Olá
Passei para ler-te e pq não deixar
um bilhetinho:
Tenha um ótimo dia...
Beijos

O Micróbio disse...

Usa a lixívia para lavar os cromados da mota... vais ver que espanto de anúncio!

Menina_marota disse...

Estive a ler-te. E, não pude evitar um sorriso.

Abraço :-)

Manoel Carlos disse...

Gargalhei com o desfecho.
Sobretudo pela condução, a tensão reinante... excelente!

Å®t_Øf_£övë disse...

Gosto sempre de te ler.Não deixei de sorrir.
Obrigado pelas palavras deixadas lá no meu cantinho.
Abraço.

MIN disse...

Olá, obrigada pela visita no meu país... tb gostei desta república. Vou vir cá passar uns dias, pode ser?

LUA DE LOBOS disse...

fiquei perfeitamente alarmada!
pensei que lhe mudaras a cor dos cabelos apenas para disfarçar...
donde diabo conheces a minha filha?
estou aparvalhada...
xi
maria
(muito desconfiada desta história ) :::)))))

zezinho disse...

Confesso-me espantado com a tua imaginação.
Também, tal como o Manoel Carlos, não me pude impedir um sorriso.
Abraço cunhdão

D disse...

imaginação poderosa... :)
Beijo*

alfinete de peito disse...

A rapariga enquanto dançava olhava de forma predadora para um rapaz ao fundo da pista.
O barman está a fazer malabarismos com a garrafa de lexivia, que subitamente lhe escapa das mãos e vai parar de forma subtil junto da rapariga. Esta olha para a garrafa tira um post-it amarelo da carteira, escreve o número de telefone e enquanto se dirige para a harley entrega-lhe a garrafa de lexivia.
O rapaz olha espantado para o rótulo e diz - É biodegradável!

contadordehistorias disse...

Apeteceu-te e bem!

abraço

A. Duarte e Lázaro disse...

O Zé falou-me do teu blog, mostrou-me e, hoje, porque a cabeça não dá para o que devia, resolvi vir apreciá-lo melhor. Excelente contador de histórias!