terça-feira, abril 26, 2005

(Mudanças) AVATARA

AVATARA (Mudanças)

(...) Era espantosa a sua capacidade de mudar, de se transformar, de se redescrever. A vida nele tinha vários sentidos e direcções, todas elas faziam parte de uma realidade, que tomava bifurcações meio estranhas.
A sua cabeça espartilhava-se, redobrava-se, fazia filmes.
O seu corpo mudava, a sua alma crescia, a sua preciosa vida, não era mais que isso mesmo, um conto, ou vários contos.
(...) Na sua secretária tentava escrevinhar qualquer coisa, sobre o que acontecia sobre o que via. Por ali nada mais que um ou outro casulo de uns animaizinhos que se acumulavam por ali, não sei ao certo, se seriam larvas de... não sei mesmo porque as aranhas não se transformavam. As aranhas essas sim eram uma excelente companhia, gostava de as observar, fascinava-me ver como elas produziam aqueles fios, por onde desciam, a uma velocidade estonteante, fascinava-me ver como aquilo acontecia, mas a verdade é que nunca conseguia ver nada. Os meus olhos acabavam por vidrar, desfocavam e entrava em processo de imaginar coisas,de imaginação extasiante, como: uma aranha enorme que andava por ai e fazia mal a todas as pessoas que eu não gosto e depois aparecia eu para os salvar.
Os seus pensamentos, eram muitas vezes despropositados, pensava sempre que era um super herói, que salvava toda a gente, quando afinal ele é que precisava de ser salvo.
Eram pensamentos, que se transformavam em realidades, que pareciam mais virtuais do que afinal eram. Complicada esta linha de pensamento, mas nem por isso os filmes, as comédias, os dramas, as ficções, mudavam, eram pequenas mutações na sua cabeça, mas também na sua vida a sua personalidade ia-se toldando conforme assumia a sua nova personagem. Era uma mistura de sensações, não sabia grande parte das vezes porque lhe aconteciam coisas estranhas, como acordava, em sítios completamente disparatados e nem sempre dentro dos parâmetros normais.
Gostava de olhar com olhos de animais, geralmente só via a duas dimensões, a preto e branco, tudo desfocado, mas era essa a imagem que tinha da vida do que o rodeava do que andava lá fora. Gostava de ver as pessoas desfocadas e ouvir as suas palavras empasteladas muito devagar.. como se fosse uma gravação avariada... ou em rotações erradas. As pessoas tinham-no magoado muito, por isso refugiava-se por ali, nos seus momentos, nas suas metamorfoses, eram gritos de revolta, que os transferia para o papel, para a sua tela imaginária, pinturas que ganhavam formas, cores e por vezes, grande parte das vezes vida. Era absurdo mas ao mesmo tempo fantástico, aquelas sensações, aquelas viagens alucinantes, aquelas amizades que fazia com a sua própria imaginação.
Gostava de ver os bichos de contas, com as suas múltiplas patas, que se fechavam neles próprios. Imaginava-os uma enorme avalanche, via-os a rolar, por um sitio qualquer...a crescer, a crescer, a ficar uma enorme bola cinzenta, grande, grande mesmo de meter medo. Depois abrir-se e com aquela panóplia de patas, começar a esmagar tudo e todos a sua volta...
Mas afinal, não passava de um pequeno bicharoco que brincava com a ponta da caneta em cima da secretária... de um lado para o outro.
Adorava ver aquela borbeletixas, que voam a volta das lâmpadas, para mim passavam logo a grandes pássaros que vinham do espaço que esvoaçavam perto da lua e faziam voos picados até a terra, entravam a velocidades loucas dentro dos oceanos onde pescavam baleias... os seus dejectos destruíam parcialmente cidades, mas eram animais pacificos, que sabiam viver e não se deixavam abater.
(...) naquele dia, não sabia bem o que tinha acontecido, mas não foi simples de assimilar, sentia dores pelo corpo, e tinha a face com sangue, a face e não só, escorria-lhe ainda pelos canto da boca algo esquisito era um pedaço de ti.


Apeteceu-me



"As mudança repentinas, mais não são que um movimento na nossa vida" Charles de la Folie

19 comentários:

UnaRagazza disse...

Este texto trouxe-me imediatamente à lembrança "A Metamorfose" de Kafka. O mergulhar da mente, a transformação psíquica e corporal, a personificação do aparente absurdo...
Quando a metáfora perde algum do seu teor para se tornar quase inteiramente literal, funcionando entre uma semimetaforicidade e uma semiliteralidade...

Carlos Barros disse...

"She Danny" as coisas que tu sabes, até corei...
eu tentei conjugar o texto com a musica..e adoro o conceito AVATARA.
obrigada

Carla disse...

Também me recordei da metamorfose. É um texto intenso de presa e predador, em que ambos se confundem.. mas não é fácil comentar-te, as minhas interpretações podem estar completamente descontextualizadas. Beijos :)

Raquel disse...

Oi...
Valeu a visita...
Quanto ao ceguinho, eu acho que ele tem que apanhar muito pra aprender a me tratar bem...Rs! brincadeira.

Bjus.

caterina disse...

Aqui mesmo ao lado e foi preciso o Agrestino para me fazer vir até aqui ;)

Blasted Mechanism? Serve, sim senhor.

Vênus disse...

Carlos,
Quw música é essa?..ADOREI!

"Adorava ver aquela borbeletixas, que voam a volta das lâmpadas, para mim passavam logo a grandes pássaros que vinham do espaço que esvoaçavam perto da lua e faziam voos picados até a terra, entravam a velocidades loucas dentro dos oceanos onde pescavam baleias"

LEVO COMIGO ESTE TRECHO AO RÍTMO DA MÚSICA..Belíssimo!!

BlueShell disse...

Gosto quando te dão assim esse "apetites"...

(Só agora estou um pouco melhor da minha amigdalite.) Jinho, BShell

Cakau disse...

Divaguei nos teus devaneios. Acabei por perder a minha linha de raciocínio. Apareceu-me um mosquinho à frente e deixei-me ir com ele, na imaginação.

Induziste-me. Agora quero ver quem vai trabalhar :P

Beijinho *

Kal disse...

ontem tentei comentar, mas as birras das novas tecnologias n mo permitiram. como eu me sinto familiarizado e acolhido no meio das borboletixas e afim! sinto-me bem kd x k m deixo perder no meio de todos os bichinhos que sem querer invetamos. n sei o k significam, n kero saber, n kero nm pensar no modo cm psicologos ou psicanalistas possam interpretar, eu cago pas interpretaçoes. é bom e pronto :)

nane, a música e dos Blasted Mechanism, encotra-la no album AVATARA e chama-se Blasted Empire =)

abraço carlos

O Micróbio disse...

De repente até pensei que te estavas a referir ao novo álbum dos Blasted Mechanism - "Avatara"... e será que não estás? :-)

bb disse...

e por falar em apetites...e em metamorfoses... adivinha.

contadordehistorias disse...

Volto para reler com mais calma.

abraço

BlueShell disse...

Estou muito enjoada...Vim só dizer olá!

OLÁ!

Foi a medicação para curar a amigdalite...
Deu-me “volta à vesícula”....Jinho, BShell

(ai......)

Adryka disse...

Olá este post é de grande observaçõa literária, e bastante complicado falar sobre ele.Mas gostei de perder os meus olhos por ele .Vom para ver outro mais acessível.Um abraço

BlueShell disse...

Meu anjo...não, não estou!!!
O enjoo...é vesícula, mesmo!!!
LOLOL...ou não soubesse eu o que ando a fazer...Opsss
Jinho, BShell

zezinho disse...

Que tal passares pelo meu, para variar?
A crónica páááááá´!!!!!

Mitsou disse...

Pois, é o que dá chegar atrasada ( e ontem não consegui comentar a esta hora). Primeiro, quero agradecer a simpática visita. E agora queria dizer qualquer coisa original sobre o post...hum, pode ser só uma palavra? Não. Duas. Gostei muito. Bjs.

Anjo Do Sol disse...

E que maravilha de "apetecimento" rsss.
Bem, finalmente entro nesta República, depois de já ter visto por aí, nos blogs da Blushell, da Nane e acho que no do Zé também.
E adorei esta dissertação real, bem descrita. :)
Gostei mesmo! :)
I will be back.

pipetobacco disse...

{ ...

e gosto. e por vezes “Apeteceu-me” vir aqui ler-te (aqui; fora de tempo ou de moda, quando toda a gente (á pressa) já te leu) ... © pipetobacco

5* o texto - abraço

... }