domingo, abril 24, 2005

Rum Livre

De um Trago

(...) Era um homem pequeno, olhos cavados, escuros e cavernosos. Não era sub-nutrido, mas era muito magrinho, cabelo escuro, orelhas salientes, moreno, aquele moreno característico da zona das Caraíbas.
A sua roupa muito gasta, coçada do muito uso, as calças com fundilhos, o tecido dos remendos muito diferente da sarja de suas calças, as botas que usava, naqueles pés pequeninos, deveriam ser uns bons pares de números acima. As botas sem atacadores, os pés sem meias, o chão quase sem peso por onde passava.
O calor intenso, fazia aquele rosto sobrecarregado de uma vida sombria, talvez não seja esse o termo, de uma vida de sonhos que teimava em alcançar, a sua única companhia era um radio, um velho rádio de ondas curtas que mantinha a mais de 40 anos escondido. Desde o tempo de outras lutas, lutas que levaram os sonhos, na baia dos porcos. Gostava de mascar tabaco era um vicio que tinha aprendido com o seu avô que Deus o tenha, ali agora neste tempo de paz... podre, mas de paz, onde o pouco que havia era sempre repetido, durante dias, meses, anos... repetidos, e repetidos até à exaustão, até enjoar. Agora naqueles tempos o tabaco era para fumar, esfumaçar até se gastarem os pulmões. Aquela cabeça andava à muito tempo a pensar, a matutar, o que ali fazia naquela terra perdida, gasta de tanta verdura e tanta saudade, aquela terra escondida do mundo, de costas voltadas para o futuro. É verdade que também pensava que ali ninguém tinha falta de nada, havia casas para todos, a comida não faltava, os hospitais apesar de muito escuros e velhos eram óptimos, isso era indesmentivel, mas a verdade é que faltava a liberdade de pensamentos, de dizer o que se sente, era complicado escrever, para se escrever tinha que se esconder, a prosa escondida eram como pensamentos limitados a nada, limitados a inexistência de coisa alguma. Aquela fraca figura de olhos cavados, mas com um brilhozinho nos olhos, que fazia realçar ainda mais aquelas cavernas onde habitavam aqueles estranhos mas bonitos olhos, pensava, que a sua vida ali tinha chegado ao fim que não valia a pena viver mais ali naquele espaço, naquele pedaço de terra rodeado por agua, era lindo, ou não fosse a sua terra, o seu espaço de sempre, mas onde os seus
sonhos teimavam em esbarrar num muro enorme de indiferença, que o foi marcando e magoando à tempo de mais.
Estava ali parado, sentado numa cadeira recostado na parede, em pleno equilíbrio na sua cadeira, a mascar a seu belo prazer uma grande folha de tabaco, sob um calor quase infernal, mas habitual por ali bebia-se um Rum a tragos fortes (já lá vamos). Ouvia-se uma bela musica de Pablo Milanês, á sua volta naquela rua de terra batida as casas muito bem pintadas mas com a mesma cor à uma eternidade, mantinham-se com as mesmas pessoas a janela, só que mais velhas, os carros eram os mesmos de a 50 anos, mas impecavelmente limpos e arranjados, havia um chevrollett lindo de morrer, tinha uma fotografia no dia em que fez 18 anos, foi um presente do pai, guardava aquela fotografia religiosamente na cabeceira do seu quarto. Mas ali estava ele a olhar para aquela rua que começava num largo, onde ficava o coreto, onde um dia Che, o comandante Che Guevara gritou liberdade, e zarpou para outra paragens, era ali naquele largo cheio de história, que também se construiu aquele exílio que tanto o angustiava. Naquele dia os seus pensamentos voavam, à medida que bebia em tragos fortes um Rum, com muitos, muitos anos, que tinha guardado para uma ocasião especial, ele sabia para onde ia, não era preciso, não podia levar aquela garrafa, muito menos o seu conteúdo, era um néctar feito por Deuses, e para Deuses, sentia-se um Deus a beber aquele Rum.
Os seus pensamentos estavam turvos, a sua mente toldada já há alguma saudade mas a sua ansiedade, estava resignada a sua partida.
(...) era noite já, saiu de casa sem fazer barulho, apesar do cuidado a sua porta rangeu, fez um barulho de arrepiar a espinha, mas que importava aquela viagem não tinha retorno, numa das mão tinha a ponta de uma corda, o resto estava a volta do pescoço. Chegou ao sitio, onde imaginou e idealizou a sua partida amarrou bem a corda e saltou, saltou para o vazio, sentiu um arrepio na espinha, o cadafalso,o cadafalso estava preparado, era uma pequena jangada que o havia de levar em direcção aos seus sonhos....

Apeteceu-me

" A liberdade voa com os nossos sonhos "
Charles de la Folie

17 comentários:

Kal disse...

Gosto de pensar que ele não morreu. Um final à Apocalypse Now Redux... :P abraço

agua_quente disse...

Caramba, as coisas que te apetecem! :) O teu texto é uma reflexão profunda sobre a importância da liberdade. Apropriado no dia de hoje e ainda mais na madrugada de amanhã. Beijos

BlueShell disse...

Para reflectir...

Olha lá minha jóia? Tu abandonsaste-me? Não gostaste de mim? Buáá´´aáá´´á´...

VOLTA!
Jinho, BShell

alfinete de peito disse...

Curiosa a questão da pseudo-liberdade corpórea, num local em que apenas o deambular tem asas e o sonho teima a trair-nos a vida.
Quantas vezes nós sonhamos!

Belo texto Carlos

Abraço, Mercador e Grizo

Vênus disse...

Olá Carlos,
Passei pra desejar-te uma ótima semana..
Sobre teu texto: Sonhar mas nunca ficar preso aos sonhos...Sonhar mas não ser infeliz pq não
ralizou algum deles, outros virão...É por eles que a vida é bela...
Beijos

LUA DE LOBOS disse...

como sempre um texto de se tirar o chapéu... um dos meus::)))
xi
maria

P.S. viste a entrevista?

UnaRagazza disse...

Um brinde (ou um trago) à liberdade!

BlueShell disse...

Vais-me dizer (isto a propósito de um comentário que deixaste no alfinete...) que o teu cunhado é o A. Pinto C.

???????????

Jura!!!!!!!!!!!

ChuvaNegra disse...

Vi, agora, o teu comentário...sim a vida é um grande filme. às vezes uma "longa metragem"...outras vezes ...nem por isso..
Grato pela visita.

Carlos Barros disse...

claro que é pq???

BlueShell disse...

Conheço bem...só isso!
O mundo é piqueno...

Cakau disse...

Olá! :)
Vim agradecer a visita tão simpática no meu Paraíso e retribui-la!

Arrepiei-me com o final da história. Na verdade, quando o Homem se apercebe da liberdade que (não) tem, só lhe resta ir procurá-la noutro sítio. Achou-a na morte. Ou talvez não...

Beijnho grande *

Micas disse...

Gosto imenso de te ler, mas este foi um dos textos que mais gostei. Excelente este teu "apetite".
Gostei de te ver por lá, já tinhas saudades ;)))
Beijos e boa semana

Carlos Barros disse...

O homem não morreu...saltou para a sua jangada..e rum(ou) em direcção a Miami... quem sabe?!!!

UnaRagazza disse...

Ora nem mais! Porque há-de ser o final tão trágico? Fica ao critério de cada um...

Vera Cymbron disse...

Vi esse "Rum Livre" de que falas...e gostei muito.
Jinhos

D disse...

ele rumou em direcção a miami!
;)
beijos