sábado, março 26, 2005

Esquina (PONTE)

Esquina (Ponte)



(...) Era o método, talvez, talvez fosse o medo afinal que o levasse a fazer aquele tipo de coisas, até porque não eram coisas banais do dia a dia, eram mais que isso, eram afazeres, afazeres normalissímos que o mais comum dos mortais faz, ora agora, ora mais logo, mas ali parecia metódico, não havia desvios das suas tarefas diárias o que tornava um ser enfadonho, sem vontade própria, sem ponta de auto-estima. Num daqueles dias, mais um que passava de uma série de dias infindáveis, revoltou-se com ele próprio, chutou contra qualquer coisa que estava pelo chão escorregou, caiu, bateu com a cabeça na esquina de qualquer coisa. Nada melhor que uma esquina para se parar, encostar e ver os vários ângulos do que por ali se passa, a visão periférica torna-se mais aconchegante, mais certa, mais verdadeira, mais qualquer coisa, ou seja menos rectilínea.




São as esquinas da vida que nos despertam, que em vez de nos afunilarem os sentimentos, dão-nos alternativas, basta encostar-nos e ver as soluções que ali se tornam de múltipla escolha. Aquela esquina deu-lhe vontade de dormir, desmaiou e adormeceu, um sono profundo. Estava deitado no mármore frio, estupidamente frio, de um chão limpo, estupidamente limpo, acabado mesmo de limpar. O seu corpo inerte, estava de lado enroscado como quem está a dormir, parecia de propósito, mas não. Tinha mesmo caído, estava mesmo magoado, tinha mesmo sangue, tinha, mas estava deitado com uma tranquilidade impressionante, as mãos estavam unidas puxadas até ao cimo da cabeça que despenteada assentava sobre elas, que faziam de almofada, os lábios estavam com um vermelho intenso de sexo, de quem está perto de um orgasmo, os olhos fechados, tranquilamente fechados, as suas pálpebras não estavam tensas, sentia-se actividade cerebral, porque notavam-se pequenos movimentos por dentro daquelas membranas finas e tão especiais, o corpo estava curvado, aconchega-se a si próprio. Aquela queda, aquela prostração, parecia mais um aconchego, que um qualquer desastre doméstico que vítima milhares de pessoas por ano.
Parecia ali abrir-se uma janela nos seus pensamentos, que corria a velocidade alucinante dentro do seu Cérbero, espirais de luz, fluxos de pensamentos, histórias que corriam estonteantemente por ali, os seus lábios vermelhos de sexo, esboçavam pequenos sorrisos, a sua face contraia-se levemente, a testa enrugava, e aconchegava-se como se os seus sonhos o estivessem a levar para sítios que só os predestinados tem direito.
Aquela janela levava-nos a imagens que corriam desenfreadamente, um desfilar de emoções que começavam desde que se conhece, desde a sua existência, eram imagens de todas as cores, formas e feitios, eram imagens de vida, da sua vida dos seus mais recônditos pensamentos, dos seus pensamentos mais clandestinos e mais obstinados, de uma beleza rara.
Uma imagem parou, focou e desfocou varias vezes, ficou côncava, depois girou 180 graus para um lado 180 para outro, parecia que se ia dobrar ao meiou até a imagem, centrar-se com nada, com porra nenhuma, com coisa alguma, focou-se, de lá saíram uns grandes olhos, os olhos de felino rasgados esverdeados e penetrantes, era uma entrada para uma viagem, uma inversão do tempo, do espaço e da realidade, o paradoxo da realidade e da oportunidade de se saber qualquer coisa, era despropositada aquela sequência de viagens, quase absurdas. As quedas eram constantes, os cadafalsos, emitiam estranhos prazeres, admiráveis sensações, que naquela altura ditavam imagens pouco concretas, a realidade era outra, aquela entrada aqueles olhos rasgados, de olhar penetrante aquela entrada, era um túnel de entrada única, em que a sua entrada dava lugar a uma estranha viagem em direcção ás emoções de alguém perdido numa esquina.

Apeteceu-me

BOA PÁSCOA A TODOS

12 comentários:

Lília disse...

«Nada melhor que uma esquina para se parar» e, digo eu, nada melhor que uma esquina para decidirmos por onde ir, para que depois vejamos que afinal não fomos a lado nenhum porque, mais à frente, está outra esquina... e depois outra e mais outra... sempre a mesma, ou não!

Boa Páscoa!

D disse...

Carlos passei para desejar uma boa páscoa. Vou de férias.
Beijos

mj disse...

Páscoa Kmanek Charles Doben!
beijo enorme

BlueShell disse...

...mas as esquinas da vida podem magoar TANTO....
Ó Carlos, e tu sabes disso...eu sei disso...Fica bem.
Grata pelas palavras ternas...
Uma Páscoa abençoada para ti e os teus. Beijo, BShell

Vera Cymbron disse...

A vida é dobrar e conhecer esquinas...quem o fizer melhor e sem bater nas paredes por erros de paralaxe, vive melhor de certeza!
Vou-me repetir, gosto muito como expões as questões!
Jinhos

..::Lissinha::.. disse...

às vezes é imperioso bater nas esquinas da vida...conheço algumas pessoas que bem estavam a precisar disso!beijos e desejos de1bboa Páscoa,com montes de alegria e guloseimas;)*

Cris disse...

As esquinas obrigam-nos a escolher direcções. Pelo menos, depois de tomada uma decisão, teremos a certeza de q a opção foi nossa... seja ela uma viagem ao interior da alma ou simplesmente a derradeira fuga a essa mesma viagem...

beijinho

Manoel Carlos disse...

Justapondo contrários, você tece toda uma trama, em nenhummomento sabemos se chegaremos a algum lugar, em que esquina ficaremos... apetece.
O fundo musical de hoje está excelente.

Anónimo disse...

sabe, estive lendo seus textos. Como são maravilhosos! Quem sabe quando eu crescer possa ser quase igual a vc... Sulamita... by: www.coletanea.zip.net

maria disse...

eu passo-me com as tuas bandas sonoras::))) esta é fabulosa... isto para não falar nos textos que embora eu tenha sempre muito que ler diáriamente, os teus nunca escapam::))
Porque andei por àfrica... não a dos brancos, mas a dos negros...essa, sim, adorei, aprendi e amei...
xi

O Micróbio disse...

Há esquinas mesmo difíceis de "dobrar"...

c(ri)arme disse...

gosto da telha e de se ter mantido assim...do texto... e lamento não ouvir a música porque o meu pc não deixa, bloqueia.