domingo, março 06, 2005

Terrores (Mundo ao contrário)

Terror



Sentia-me longe de tudo, estava perdidamente sozinho, num ermo e sombrio casarão.
Lá fora chovia, era uma chuva forte batida a vento, mais parecia granizo, mas não era, era mesmo o vento forte. Cheirava a terra molhada, aquele cheiro que, nos corta a respiração, que nos sufoca, que nos alimenta as emoções e as tentações. E outras coisa que nós gostávamos de ter mas não conseguíamos.
A luz ora vinha, ora se ia. Acendi, ou por outra acendeu-se um velhinho candeeiro a petróleo que deixava um outro odor, sim, um antigo odor de quando nesta terra perdida bem longe de tudo, um odor que chegava com o petroleiro, o petroleiro que com a sua mula, traziam as mercearias a casa ,havia de tudo desde lixívia, a sabão azul e branco, a bolachas, eram velhas recordações que fugiam nos dias de hoje, mas que perduravam na memória e memórias de todos, que ainda sonhavam.
Como tudo e afinal ali era um dia difícil, a história também não ajudava. Começava a trovejar com a inquietude da chama, ou chamas, ou mesmo luz que produzia sombras num flash muito rápido, as sombras começavam a bailar lá por casa, estranhos bailados, nas paredes daquele casarão, com mais de 200 anos.
A lareira funcionava e estava acesa a funcionar, a trabalhar, ou mesmo a obrar como queiram, como gostem mais de ler e ver escrito, a lareira queimava e queimava, um enorme restolho de oliveira, o soalho rangia, deixava os sentidos de sobreaviso, caminhava-se e caminhavam, de um lado para o outro.
Com um enorme balão de Armanhac, a noite parecia perfeita para um cenário de terror naquelas terras que viram ensanguentadas batalhas.
Ao longe via e via-se descer uma sinistra personagem, ao longe era perceptível e notava-se que tal personagem tal sinistra personagem tinha um longo oleado vestido e um chapéu enorme que tapava a luminosidade do seu rosto, na mão um bastão ou um cajado que o ajudava a caminhar naquela altura.
Alí perto, estava uma janela, uma longa janela perfeita onde se via ou por outra onde se conseguia ver quase tudo alí á volta.
Por momentos perdeu-se o rasto à sinistra personagem, à volta nada mais havia, ou não havia mais nada a não ser aquele imaginários domínios, foram dadas varia voltas às varias janelas, não havia sinal de tal personagem, de tal sinistra personagem.
Bebeu-se mais um trago de Armanhac, começou-se a ouvir e a sentir barulhos mais estranhos, enquanto lá fora começava a trovejar ainda mais forte.
As sombras começavam a movimentar-se cada vez mais por dentro de casa estava realmente a ficar tudo apavorado, cada relâmpago iluminava a casa para depressa ficar o breu o escuro, muito escuro.
O soalho rangia, os quadros da sala pareciam observar todos os movimentos, atentos os olhares aquele movimentos menos atentos, estava cada vez mais assustado, o cenário parecia aterrador, muito aterrador, devagar tudo foi deslocado para a cozinha, roçando os ombros pela parede para sentir segurança, parecia que alguém perseguia o ribombar dos trovões onde se escondiam outros sons avassaladores de velhas utopias e magias. Havia medo, muito medo, terrivelmente agastado, frustado e aterrorizado com a situação.
Estava alí a cozinha, parecia o local perfeito para acontecer alguma coisa. Voltava para um lado e para outro, apetecia sentar no chão, fechar os olhos e adormecer rapido, uma sombra que parecia uma pessoa enorme, parecia alguém que tinha vestido um oleado, parecia a sombra também de um grande chapéu, queria gritar mas os sons não saiam, as cordas vocais não conseguiam emitir qualquer guincho, via-se na sombra, levantar-se um braço com uma faca pontiaguda na mão, sentia-se um respirar fundo e quando apareceu ou se ouviu uma voz arrepiante, sentiu a percorrer pelas pernas um fluido quente e descontrolado, aquela voz, aquela voz ... rouca e sôfrega que se ouviu antes de desfalecer, antes de abrir o frigorifico disse:
onde está o facalhão para meter a manteiga no pão.

Apeteceu-me

9 comentários:

Reporter disse...

Uma forma interessante de trazer "a público" estórias do quotidiano.
Realidades? Virtualidades?
Irrelevante. Deixamo-nos absorver pela simplicidade da escrita.
Boa semana, carlos.

mj disse...

Terrores...medos..e "O Mundo ao Contrário"...fica bem Charles (f)
beijos

contadordehistorias disse...

Meu caro amigo, uma bela história.
Encontrei-me por aqui.Forte abraço

Lília disse...

Confessa que esses finais se tornaram um vício!!! Céus, como detesto que, depois de criares o clima perfeito, tudo acabe com... com... "manteiga no pão"!!!

O Micróbio disse...

Carlos, obrigado pela visita lá pelo Micróbio.

Kal disse...

lol, pois eu ca adoro esse pao cm manteiga, ou com doce, cm tantas x nos habituas! eheh, para n falar do Tulicreme que e optimo! =) abraço

sonia disse...

depois de uma tempestade tão grande soube-me muito bem o final.
muito bom mesmo

isa xana disse...

muito interessante o texto, gostei:)

inglesinha disse...
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