segunda-feira, maio 23, 2005

ARAGENS (NOUTRO LUGAR)

Aragens (noutro lugar)





(...) Nada que o fizesse corar, nem pelo trabalho, nem pelo aparato da situação. O dia era um dia normal, um dia de trabalho, um dia com e sem esperança, nada que não acontecesse todos os dias desde a nossa existência, mesmo para os mais afortunados.
(...) Longe dali, perto de um ribeiro...
com uns longos calções, uma camisola de alsas, uns chinelos de meter o dedo, um chapéu virado ao contrário. De cana de pesca na mão, enfiava uma minhoca acabada de tirar de baixo de uma pequena rocha, enfiava-a ainda viva a contorcer-se num anzol, e depois habilmente atirava-a para dentro de água, para junto de um pequeno cardume que parecia ali encurralado, consoante os peixes comiam a minhoca o isco, ele puxava a cana devagar para não magoar os peixes, o seu objectivo era mesmo, alimentar os peixinhos e passar o tempo morto que tinha por ali.
(...) Naquele escritório, num enorme open space, com muita gente, parecia passar despercebido, mas na realidade não passava, bastava uma desatenção para todo o mecanismo, para toda aquela grande empresa se desmorenar, não era bem assim, mas pelo que o seu chefe gritava parecia, que o mundo ia acabar ali pela falta de um simples papel, sem valor.
(...) Ninguém sabia onde nascia aquele ribeiro, ou por outra ninguém sabia de onde vinha aquela água limpida, fria, gelada, e muito transparente que transportava além de folhas, pequenos, animaizinhos à superficie, transportava também algo muito importante para aquele rapaz, tranquilidade para o seu dia a dia,era ali que se concentrava, para os seus trabalhos, para as suas produções.
(...) Era ali que parecia que a vida ia durar, durar uma imensa eternidade, pareciam uns sem vida, o seu trabalho só era valorizado pelos gritos dos muitos chefes, que por ali coabitavam sem fazer nada, mas um valor, sem sentido, porque os gritos só serviam para, mortrar a prepotência de nada de coisa nenhuma. Mas era ali que a sua vida se ia manter, que tinha de concentrar, ou desconcentrar.
(...) As suas cores eram vermelhas, o vermelho que o ar do campo transmite, um vermelho saudáuvel, é assim que chamo ás faces ruborizadas, dos campónios, de gente onde a qualidade de vida dá e sobra para se ter uma vida fantástica, à beira daquele riacho cresciam flores lindas, belas papoilas, vermelhas cor do céu, do céu sim aquele tom alanjando quando o Sol se está a por.
(...) Ali onde o Sol nunca se vê, nem a sua chegada, nem a sua ida, ali só se ouve o barulho do ar condicionado, das ventoinhas dos computadores, de alguns estomagos a remoer, e dos dedos dos pés a estalar de tão vincados estarem aos sapatos, que se encontram estratégicamente debaixo da secretária, à sua memória vem-lhe a imagem daqueles filmes em que as secretárias estão escondidas por detrás dos biombos, fala por certo de secretárias de matéria não orgânica, porque as outras de carne e osso escondem-se mas por baixo de outras secretárias.
(...) Ali parecia o paraiso, mesmo quando o tempo ficava mais remexido a beleza da paisagem mantinha-se, o ribeiro continuava ali inabalável, os peixinhos permanecem juntos, o cheiro a campo, a aquela face rosada, a forma de vestir, era a liberdade levada a extremos mesmo que aqueles movimentos fossem perpétuos.
(...) Ali estava ele, prostado na sua secretária, com os cotovelos apoiados, no tampo que estava protegido por um enorme poster de borracha, com as cores do seu clube, por debaixo, escondia aqueles papéias mais intimos, ou que julgava, mais intimos e importantes, mas que não passavam de papéis, de meros papéis sem valor ou conteúdo, mas eram d’ele e isso ninguém podia negar, nem queriam.
Mas ali estava agarrado ao seu pisa papéis, onde corria um ribeiro, com uns peixinhos, num campo muito verde onde o rapaz que pescava tinha a face ruborizada, como só mesmo quem vive no campo tem, ali estava ele a olhar, e a pensar na liberdade que se podia ter mesmo dentro daquela prisão de vidro.

Apeteceu-me

“A nossa liberdade pernoita no nosso pensamento” Charles de la Folie

11 comentários:

Kase Wo Atsumete disse...

Ganda som!!! Parabéns!!!

Vênus disse...

Lindo texto Carlos!
...num campo muito verde onde o rapaz que pescava tinha a face ruborizada, como só mesmo quem vive no campo tem...

Gostei que vc voltou...
Bjs

O Micróbio disse...

E quanta água não passou no ribeiro enquanto escrevias este post... :-)

TMara disse...

Uma bela narrativa a 2 compassos. Boa semana. Bjs e ;)

persephone disse...

o que é a liberdade?

persephone disse...

esqueci-me de escrever ali acima:
Belíssimo txt*

A. Duarte e Lázaro disse...

Eu disse: "2.ª a gente conversa". Hoje é segunda. CAMPEÕES! CAMPEÕES! NÓS SOMOS CAMPEÕES! SER BENFIQUISTA É TER NA ALMA A CHAMA IMENSA.... LALALALALA...

maria vai c'as outras disse...

o ribero. a auga. a roupa a corar.
auga fria da ribeira auga fria da ribera. duas fronhas, um abental, roupa branca pra gente estender

maria na vai c'as outras disse...

enquanto o pessoal anda a festejar euforicamente o benfica campeão, estão a ir-nos ao bolso e ninguém dá conta. os benfiquistas que paguem o défice.

Betty Branco Martins disse...

Olá Carlos

É mais difícil ser livre do que puxar a uma carroça. Isto é tão evidente que receio ofender-vos. Porque puxar uma carroça é ser puxado por ela pela razão de haver ordens para puxar, ou haver carroça para ser puxada. Ou ser mesmo um passatempo passar o tempo puxando. Mas ser livre é inventar a razão de tudo sem haver absolutamente razão nenhuma para nada. É ser senhor total de si quando se é senhoreado. É darmo-nos inteiramente sem nos darmos absolutamente nada. É ser-se o mesmo, sendo-se outro.

Assim a minha liberdade é o estofo do meu ser.

(Vergílio Ferreira)

Adorei o teu texto!

Um beijo

Anónimo disse...

e nunca te apeteceu dar um peido?