domingo, maio 01, 2005

Garoto do Rio

Passear na Lua

(...) Ria-se a “bandeiras” despregadas, era um prazer vê-lo sorrir, era um prazer saborear aquela ilusão a que nos transportava. Era um “miúdo” fantástico dizem! Um daqueles garotos, que gostávamos ter sempre por perto para podermos observar e aprender. Quem diz que os mais velhos, os mais sabedores, não aprendem com os mais novos! Quem diz isso? Pois quem diz não sabe nada, não conhece nada da vida.
Aquele garoto, saia todos os dias de casa apaixonado pela vida pela vontade de viver, pelo saber crescer. Crescia com passos bem medidos, que só a sua idade sabe fazê-lo. Nem muito depressa nem muito devagar, crescia SIMPLESMENTE.
Grande parte dos dias sentava-se ali perto do cais, numa pequena saliência, com os pés quase a tocarem o rio, com o seu boné azul, gasto de tanto o usar e de tanto sol aparar, a pala desfiava, sempre voltada para trás como a sacudir os dias que passam. Ali sentado pensava, reflectia, o seu dia a dia. Phones colocados, ouvia grande parte das vezes, musicas que os mais novos não ouvem e os mais velhos têm medo de escutar, coisas como Ben Harper, mas ouvia, escutava, versões “Malditas” de “Excuse me” ou Tricky em “ Evolution, revolution, love”.
Eram essas musicas que o transportavam ao seu mundo, que traduziam aquele sorriso de fazer inveja. Era fantástico vê-lo ali sossegado, sozinho, mas compenetrado nas suas coisas mundanas, não no sentido de mulher da vida, mas na facilidade e liberdade de pensamento das suas coisas, era um regalo vê-lo ali a dar as pernas a olhar para o horizonte, correr aquele rio a uma velocidade que só a sua vista e o seu pensamento conseguia, uma ternura.
Foi num dia daqueles... ou num daqueles dias, numa tarde de desfolhada, onde corria uma aragem de arrepiar a espinha que, desapareceu do olhar de todos os que o seguiam a distancia, desapareceu, foi, foi-se literalmente daquele sitio. Sentiu o momento de viragem, em que o rio deixou de correr para o mar, as nuvens pararam no céu, o vento prostrou-se num qualquer vale, o canto dos pássaros ficou sem melodia, as mentes ficaram perplexas, os riscos tornaram-se invisíveis, o pesado ficou leve e a alma indivisível.
Naquele momento, a vida parou, os olhares perderam-se pelo espaço, pela escuridão de uma qualquer solidão se é que isso se pode dizer, quem o olhava, quem sorria por o saber por perto percebeu o grande vazio com que ficou.
Todas as noites naquele local podia-se ver uma enorme bolha transparente brilhante, estranhíssima! Parecia o seu recorte a brilhar. Nem toda a gente o via, só mesmos aqueles que durante anos beberam da sua pureza, possuíram a sua actitude, a sua capacidade de estar na vida de olhar, sorrir e dizer coisas bonitas. Foi ai que a vida continuou, o céu não caiu, as nuvens não se esvaziaram, o rio continuou a correr em direcção ao mar, as palavras voltaram a fazer sentido, as melodias, pareciam outra vez existirem.
(...) noutro espaço de tempo, sentado num enorme penhasco, com os pés soltos por cima das nuvens, mãos vincadas na terra, ao lado dos quadris, pernas semi abertas e a balançar, tronco ligeiramente inclinado para a frente, olhos vincados, muitos quilómetros a frente, lábios meios gretados do vento e do sol, do frio e dos dias ali.
Pensava em tudo e em nada, mas pensava, na vida que tinha, que queria, e na vida das pessoas, das muitas pessoas que acreditavam e acreditaram em si, que o viam, que conheciam o seu sorriso, e que do seu sorriso faziam modo de vida.
Era o sorriso que os que não conseguiam chegar ao seu brilho, era o sorriso que “eles” imberbes criaturas invejavam.
Um dia senti que aquele menino estava sentado na minha janela, sentado com os pés a balançar para o lado de fora, e acreditou...
Adorava saber que ele se passeava pela Lua.

Apeteceu-me
“Sorrir não está ao alcance de todos, muito menos dos imoraisCharles de la Folie

28 comentários:

zezinho disse...

Alguma poética neste teu texto, cunhadex.
Na verdade estou a aprender muitas coisas sobre ti. Não que ignorasse que és o melhor cunhado do mundo!
Se queres saber coisas da lua, pergunta-me a mim. Vivo lá. Tu sabes.
Abração cunhadão

maresia disse...

Conheci um menino assim. Sentava-se no cais e transbordava alegria de viver. Não tinha phones, isso é coisa de menino pula. Mas o seu corpo balouçava como a vaga. Naquele cais, balouçava todos os dias como a vaga. Não mais voltei lá, não mais voltei a vê-lo, mas ficou-me ensinado esse bem estar de menino negro.

Micas disse...

É lindo o menino que guardas dentro de ti. Gostei imenso. p.s. o meu rio corre de encontro ao meu (e)terno amante...o mar ;)) beijo e bom domingo

Vênus disse...

Olá Carlos,
Bom sonhar, pq nos sonhos temos a idade que quisermos, podemos voar, chegar além..a lugares que sempre sonhamos.
BJS

O Vizinho disse...

Meu caro vizinho, vi o teu comentário no Portugal Profundo acerca do Motocross na Moçarria e fiquei roído de curiosidade.
Conheces?

Aparece para um copo... e para a prova, evidentemente!!

:-)

agua_quente disse...

Muito poético, feito com palavras de sonho. Não há sempre um menino assim nas nossas vidas, nem que seja dentro de nós? Beijos

Marco António disse...

Muito interessante o teu blog, e por isso decidi colocar nos meus links intemporais...
Abraço

soperia disse...

gostei muito do teu blog e obrigada por teres visitado o meu;) um beijinho

MWoman disse...

Felizmente existem meninos assim a povoarem-nos os sonhos e a lembrarem-nos o quanto é importante sorrir!

Anjo élico disse...

Muito obrigado pela visita ao armazém dos prazeres com saudade. Ainda hoje colocarei um link para a tua República na secção dos "Derramados".
Gostei do teu que queria ser eu sempre menino? Sorriso...
AbracÉlico

Å®t_Øf_£övë disse...

Adorei este teu texto.Fez-me fazer um paralelismo entre esta situação do miudo e a vida real.
Todos nós na vida real nos acostumamos a ver sempre as mesmas pessoas,nos mesmos locais e às mesmas horas,e só nos apercebemos desse facto quando após muito tempo um dia elas deixam de aparecer.Aí sim,sentimos a falta,e apercebemo-nos que elas faziam parte da nossa vida,do nosso dia-a-dia.
Boa semana.
Abraço.

UnaRagazza disse...

Até as mais "pequenas" pessoas têm influência sobre nós, embora, por vezes só nos apercebamos disso quando elas desaparecem.
É como se não nos apercebessemos que certas pessoas entraram na nossa vida, mas sentimos a sua falta, qd saiem...

Esta república dos pêssegos dá q pensar... :)

Kal disse...

faz-me lembrar um jovem que entrava pelas janelas abertas durante a noite e que levava as crinaças do lar dos pais... ainda tenho a minha aberta, mas agr n irei sozinho. abraço :)

alfinete de peito disse...

Brilhante texto we must say!
A alegria de viver, essa sofreguidão infantil e despreocupada, de brilho nos olhos...
Queremos que seja sempre assim.

Temos dito

Grande abraço, Mercador e Grizo

A. Duarte e Lázaro disse...

Texto brilhante, posso dizê-lo. Na verdade, nada há de mais belo que ver o modo destes garotos viverem. Seríamos mais felizes se apredessemos mais com eles, que apreciam a vida e se deixam crescer, sem pressas...

LUA DE LOBOS disse...

a minha leitura deste texto admirável foi bem diferente... um dia vamos esclarecer se eu estaria errada... não quero sentir-me mais triste do já estou
xi
maria

persephone disse...

Mais um belíssimo texto.

Venho deixar um beijo e dizer que não fugi, nem me escondi. EStou de volta com mais brilho e força*

Não como Rose mas como Persephone**
um beijo*

O Micróbio disse...

E até aposto que por lá passeia... pela Lua!

Marta disse...

Gostei de vir aqui ter, voltarei. Beijo

Anónimo disse...

Dizem que quando escrevemos metemos a nossa alma dentro do texto, e como tal é lindo o menino que tu és...Um beijo doce
MissLadyMystery -> Http://MundoDosSonhos.blogs.sapo.pt

the girl in the other room disse...

Gostei do blog;)

Já agora, como é k põe as músicas no blog? gostava de fazer isso, mas não sei como...

Brigada

Marta

p.s. sou futura colega;) estudo jornalismo no porto.

Poseidon disse...

muito bom blog, parabens...
www.herodoto4.blogspot.com

sussurros da lua disse...

Gostei do texto, do blog e de tudo, tudo e tudo!!! Mil beijinhos!!

A. Duarte e Lázaro disse...

Venho agradecer palavras deixadas e voltar a botar axas na fogueira... a esposa devia ter um blog! Insisto! Gostava de ler mais as palavras da cunhada... porque a escrita e a crítica aguçada é uma característica de família e não me contento com o jornal...

jorged'alfange disse...

Oi Carlos, gostei do que li por aqui, mas diagonal, prometo voltar para ler com mais calma, obrigado p'la visita, ;) Abraço

jorged'alfange disse...

Claro que queria dizer que li na diagonal, :)

bb disse...

mil beijinhos e abraços. axo k kero um nino desses. k bom sonhar e aboar à bolta das lãmpadas, mas 100 queimar as asas, tá?
ahahahah

salseira disse...

tambem ha dias em que transbordo de alegria de viver... outros nem por isso, mas se nao fosse assim nao teria piada (:
gostei muito do texto*
adoro sonhar e adoro sorrir :D

[apeteceu-me ;)]